
 Dubl de noiva
  Stand in bride
  Barbara Boswell
  Famlia Fortune 4


Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!



   Aos 29 anos, Michael Fortune  eleito o solteiro mais cobiado da Amrica. Mas ele no est disposto a se
casar, muito menos a enfrentar as inmeras pretendentes que surgem a todo instante em seu caminho.
   Por isso, para despistar mulheres a beira de um ataque de nervos, Michael decide fingir que est noivo de Jlia
Chandler, sua assistente.
   Mas a farsa acaba tomando rumos imprevistos quando ela fica grvida.
   Agora, Michael, que achava ter encontrado toda a paz do mundo, tem um herdeiro a caminho!


   O Dirio de Kate Fortune

   Meu fiel amigo Sterling me informou que algum est comprando grandes quantidades de aes da
cosmticos Fortune. Tudo leva a crer que algum est secretamente tentando ter o controle do negcio. Estou
desesperada com a possibilidade de perder tudo!
   Contudo, se isso realmente acontecer, continuaremos sendo uma famlia, com ou sem dinheiro. Meu nico
desejo  que cada um dos meus filhos e netos encontrem o amor e a felicidade.
   Algo que meu neto Michael parece ter finalmente descoberto. Logo ele, que sempre desconfiou tanto das
mulheres e do amor. Foi por isso que deixei para ele o anel de rubi, um presente que recebi de Bem, por quem
sempre fui completamente apaixonada, e que simboliza o verdadeiro amor. Michael deu o anel para sua noiva.
Eu no poderia estar mais feliz.
   Apesar disso, estou preocupada com sua mudana to repentina. S espero que ele saiba o que est fazendo...


   Liz Jones
   A Colunista N 1 dos Celebridades

   Michael Fortune, eleito um dos "Dez Solteires Mais Desejados da Amrica" pela revista Famosos, est noivo!
Mas tenho minhas dvidas sobre o casal. Quem  Jlia Chandler, afinal? Que eu saiba, ela no vem de nenhuma
famlia importante. Ela parece ser s mais uma assistentezinha interessada em encontrar atalhos para tirar o p
da lama. S no entendo como ela conseguiu fisgar logo Michael Fortune.
   Minha amiga Faith Carlisle, do Channel 3 News, entrevistou o casal-relmpago e me disse que Michael estava
superpreocupado com sua noiva. Ela tambm percebeu que havia uma forte atrao entre os dois.
   Mas ser que  mesmo um caso de amor? Ou quem sabe a assistente boazinha tenha ficado grvida em um
encontro depois do expediente e agora esteja fazendo chantagem com o patro? Repito, como  que pode uma
mulherzinha daquelas fisgar o maior peixo da Amrica?
   Meu palpite: esse casamento no vai longe ? se  que realmente vai acontecer.



Captulo 1

   Kristina Fortune costumava fazer visitas inesperadas ao escritrio de seu meio-irmo, Michael. Jlia Chandler, a
assistente executiva, a recebeu com um sorriso.
   ? Jlia, olha s isto! ? Kristina parou em frente  mesa de Jlia e estendeu-lhe um exemplar da revista Famosos.
   Jlia deu uma olhada na capa. Letras em negrito prometiam: NESTA EDIO: OS DEZ SOLTEIROS MAIS
COBIADOS DOS EUA.
   ? Esta edio s estar nas bancas amanh. Abra na pgina 15, Jlia ? ordenou Kristina ansiosa.
   ? As escolhas previsveis, pelo visto ? observou Jlia enquanto examinava a lista. Os solteiros incluam o filho de um
ex-presidente, um apresentador de programa de entrevistas, um magnata da indstria fonogrfica, um senador divorciado, um
ator considerado o "homem mais sexy do mundo", um autor de bestsellers, uma super-estrela do basquete e... ? Michael
Fortune! ? Jlia leu o nome do nmero oito em voz alta e ofegante.
   ? Depois que a revista chegar s bancas, vai ter mulher em tudo quanto  canto do pas desejando meu irmo mais velho
? Kristina estava exultante.
   Jlia sentiu uma agitao dentro de si, um mau pressentimento que se tornava cada vez mais forte. Ela trabalhava para
Michael Fortune, o vice-presidente da Fortune Corporation, h quatorze meses, tempo suficiente para saber que ele odiaria
aquele ttulo. O foco da vida de Michael eram os negcios da famlia, no popularidade entre as mulheres ? embora ele
fosse bastante requisitado por elas. Depois que a revista chegasse s bancas, pensou Jlia, ele se tornaria o objeto de uma
perseguio romntica de escala nacional.
   ? Como voc acha que Mike vai reagir? ? perguntou Kristina, sorrindo de orelha a orelha.
   Jlia decidiu que o mais prudente seria guardar sua opinio para si. Jlia era sempre cautelosa ao lidar com os Fortune.
   ? Isto no vai deix-lo emocionado ? esquivou-se ela. ? Acho que ele teria preferido receber o ttulo de um dos dez
homens de negcios mais eficientes dos EUA ? adicionou.
   ? Negcios! Negcios! Mike s se preocupa com isso! ? Kristina ficou agitada e comeou a andar da mesa de Jlia
para a parede e de volta para a mesa.
   "Outra que no consegue ficar parada, igualzinha ao irmo", observou Jlia. Todos os membros da famlia Fortune que
ela conhecera possuam uma enorme energia, que parecia requerer movimentao constante.
   ? Mike parece um Rob Executivo! ? disse Kristina, estrondosamente. ? Ele  um viciado em trabalho, no tem
sentimentos, no tem vida! Se abrissem a cabea dele encontrariam microchips. Nada o emociona, nada o atinge.
   Ela virou-se e fixou um olhar fulminante em Jlia.
   ? Voc consegue se lembrar da ltima vez em que o viu reagir com um pingo de genuna emoo?
   ? Bem, teve aquela vez em que Anne Campell, do laboratrio de pesquisa, trouxe as filhas gmeas para o trabalho e as
crianas decidiram fazer uma experincia com as ltimas amostras de teste. ? A lembrana ainda fazia Jlia rir, embora ela
tivesse se controlado depois de Michael ter deixado claro que no via graa nenhuma na situao. ? A mistura que elas
fizeram ao p facial deixava a pele com uma cor azul horrvel. Michael ficou furioso com aquilo. Isso no  uma emoo
humana genuna?
   ? Mas tem a ver com negcios, ento no conta. ? Kristina ps o acidente de lado e voltou sua ateno para a revista.
? Esta  uma boa foto do Mike, no , Jlia? Apesar de ele ser meu irmo, tenho que admitir que  realmente um gato!
   Jlia examinou a fotografia de Michael. Era uma foto dele usando uma cala jeans surrada e uma camisa plo branca com
o logotipo da Fortune Corporation. A foto mostrava um homem viril, cujo corpo musculoso atrairia qualquer mulher. Os
traos fortes de seu rosto ? o maxilar bem definido e o queixo quadrado, o nariz reto e os olhos de um azul profundo, o
formato sensual da boca ? chamavam a ateno at de outros homens.
   E at das pessoas mais relutantes. Jlia estava ciente da beleza masculina de seu chefe, embora nunca tivesse deixado que
ele soubesse disso.
   Ela lembrava bem de seu primeiro encontro com Michael Fortune, no dia em que ele a contratou, quatorze meses antes,
aps uma breve entrevista. Ao v-lo, ela ficou perturbada. Nas primeiras semanas de trabalho, sentira freqentes ondas de
adrenalina percorrendo seu corpo quando estava na presena dele. Seu corao batia descontroladamente e sua pele
enrubescia.
   Felizmente, ela conseguira esconder suas reaes de Michael e de todos na empresa. Os amigos que ela fizera no trabalho
contavam-lhe tudo sobre as antigas assistentes dele, que se apaixonaram perdidamente e acabaram ou pedindo demisso ou
sendo despedidas por no conseguirem lidar com o desinteresse pessoal do chefe e com suas rigorosas exigncias
profissionais.
   Jlia no tinha inteno de se juntar quelas pobres coitadas. Lera inmeros artigos sobre a futilidade de romances no
trabalho e no estava disposta a arriscar seu emprego cedendo a uma paixozinha boba e sem futuro.
   Com o passar das semanas, seu corao deixara de disparar quando ela via Michael. Ela convencera-se de que estava fora
de perigo, imune aos encantos do chefe. Era demasiado sensata para aquela bobagem adolescente, garantiu Jlia a si mesma.
   Uma paixo por Michael teria sido tanto estpida quanto intil, pois ela sabia que ele a via como algo semelhante a um
equipamento de escritrio. Ela era til e eficiente, como uma mquina de fax, e mais confivel que a impressora, que estava
sempre quebrada. A atitude dele para com ela dificilmente estimularia fantasias romnticas, e Jlia declarava-se agradecida,
livre de tais fantasias.
   ? E ento? Como voc se sente trabalhando para um dos solteiros mais cobiados dos EUA, Jlia? ? perguntou Kristina
em tom brincalho. ? Voc  solteira e o fato de trabalhar com ele a deixa em uma posio privilegiada. Nunca pensou em
correr atrs dele?
   Jlia riu daquela idia absurda. No tinha nenhuma iluso a respeito de seu status. Embora as Jlias Chandler e os
Michaels Fortune do mundo pudessem ocupar o mesmo espao durante algumas horas a cada dia, eles existiam em universos
paralelos, que nunca convergiam fora do escritrio.
   ? No se preocupe. Michael est seguro contra quaisquer investidas de minha parte.
   ? Eu no estava preocupada, eu... ? Kristina comeou a dizer, mas foi interrompida pelo aparecimento do prprio
Michael Fortune.
   Ele havia aberto a porta que ligava seu escritrio ao de Jlia e estava parado no limiar. Seus olhos azuis penetrantes
passaram rapidamente por Jlia e fixaram-se em sua irm mais nova.
   ? Kristina, sabia que tinha ouvido sua voz criando aquele tumulto de sempre. ? Ele arqueou as sobrancelhas escuras e
disse numa voz lacnica:? Deixe-me adivinhar: voc est aqui para arranjar aliados para mais uma de suas mirabolantes
campanhas publicitrias. Ignorando seus executivos que, neste exato momento, esto pegando seus frascos de anticidos, j
prevendo a batalha por vir.
   Kristina sorriu.
   ? Tem mesmo uma idia extravagante brotando na minha cabea, mas ainda estou trabalhando nos detalhes. Quando
estiver pronta para apresent-la, voc ser o primeiro a saber, pois, voc tem de concordar comigo, nossos executivos de
publicidade so...
   ? Cautelosos e conservadores? ? interrompeu Mike.
   ? Eu ia dizer retrgrados e chatos ? revidou Kristina. ? Como poderiam ser diferentes? Esto aqui desde que Nixon
era presidente. A idia deles de algo inovador  festa  fantasia com tema anos 70.
   ? Voc fala no estilo exagerado e cido dos executivos de publicidade. Voc se encaixa perfeitamente naquela cova de
lees, Kristina. E digo isso como um elogio. ? Os lbios de Michael contorceram-se levemente. Para ele, aquilo valia como
um sorriso.
   Jlia observava a cena entre os dois, impressionada com as diferenas entre os irmos, algo que ia muito alm da
diferena de seis anos entre suas idades e de seus respectivos sexos.
   O que Kristina tinha de expansiva, Michael tinha de frio e controlado. Embora a famlia o considerasse distante, no
decorrer do ano anterior Jlia comeara a v-lo como uma pessoa reservada, que no sentia necessidade de expressar todos
os seus pensamentos ou compartilhar seus sentimentos mais profundos. Sendo ela prpria uma pessoa introvertida,
reconhecia algumas semelhanas entre ela e Michael.
   No que ele fosse introspectivo e tmido como ela. A idia de Michael Fortune como um homem tmido e hesitante era
algo impensvel. Ele exalava uma confiana e uma convico que beiravam a arrogncia.
   Tambm podia ser incrivelmente teimoso. Jlia j o vira recusar-se a ceder em certas questes, no importando quem ou o
que o estivesse pressionando. E embora seus familiares reclamassem que ele era reservado demais, nunca conseguiram
convert-lo para a sociabilidade tpica da famlia.
   ? Jlia e eu estvamos babando pelos gostoses desta revista. ? Rindo, Kristina pegou o exemplar de Famosos e
colocou-o nas mos de Michael.
   Antes de examinar o exemplar, Michael lanou um olhar zombeteiro na direo de Jlia. Ela corou e rapidamente desviou
o rosto.
   Michael sentiu uma certa pena. Evidentemente, Kristina estava brincando e havia metido a pobre Jlia na brincadeira,
deixando-a envergonhada.
   Instantaneamente, Michael perdoou sua assistente, pois no conseguia imaginar Jlia Chandler babando por homens.
   Jlia era sempre circunspeta e competente, qualidades s quais ele atribua especial valor. Michael ainda tinha lembranas
horrveis do perodo anterior  chegada de Jlia no escritrio.
   Tivera que agentar muitos comentrios maliciosos e piadinhas a respeito da "alta rotatividade" na sala de sua assistente.
Havia boatos de que era impossvel trabalhar para ele e de que ele nunca conseguia manter uma assistente por muito tempo.
O pessoal do departamento de recursos humanos reclamava da poltica de mudana de funcionrios de Michael.
   Seu tio Jake, o presidente da empresa, chegara a sugerir que Michael participasse de uma oficina de treinamento de
sensibilidade para coloc-lo em contato com os sentimentos daqueles funcionrios que no conseguiam corresponder aos
seus padres de viciado em trabalho.
   Michael ficara ofendidssimo. No queria uma assistente que no conseguisse cumprir suas exigncias e no queria entrar
em contato com os sentimentos de seus funcionrios!
   ? Eu me inscrevo na tal oficina quando voc se inscrever, Jake ? dissera ele ao tio que, como Michael bem sabia, fazia
uma excelente e maldosa imitao de um tpico orientador de sesso de treinamento de sensibilidade.
   Sentira um alvio considervel quando Jlia Chandler ? confivel e eficiente ? chegara, colocando um ponto final no
interminvel desfile de assistentes. O fato de eles trabalharem to bem juntos ainda o deixava admirado quando pensava no
assunto.
   Jlia era discreta e despretensiosa, no fazia o tipo espalhafatoso, e Michael lhe era grato por isto. Muitas das antigas
assistentes imaginaram estar apaixonadas por ele e agiam de maneira provocadora para chamar sua ateno. Elas nunca
duravam mais de algumas semanas. Irritado por no obter delas trabalhos produtivos, Michael acabava despedindo-as.
   Seus olhos estreitaram-se enquanto continuava examinando Jlia Chandler. O terno cinza e o penteado que ela usava
eram discretos e profissionais. Ela tinha uma pele macia que fazia um bonito contraste com seu cabelo castanho. E embora
Jlia no fosse bonita no sentido clssico, suas mas do rosto salientes, seu queixo pequeno e firme e seus grandes olhos
acinzentados e inteligentes conferiam-lhe uma atrao peculiar.
   No para ele,  claro, apressou-se Michael em garantir a si mesmo. Ele no estava interessado em iniciar um
relacionamento com a melhor assistente que j tivera. No estava interessado em iniciar um relacionamento que fosse alm
de sexo seguro de curto prazo sem qualquer compromisso mais srio. O trabalho era a principal fora motriz de sua vida e ele
no podia imaginar uma pessoa ocupando uma posio mais importante do que aquela.
   ? D uma olhada na revista, Mike ? ordenou Kristina, arrancando-o de seu devaneio.
   Michael franziu as sobrancelhas.
   ? Por que eu teria algum interesse em olhar os Neandertais pelos quais voc estava babando?
   ? Neandertais, hum? ? disse Kristina, rindo por dentro. ? No sei no, Mike, acho que voc vai se interessar bastante
por esses caras. Um em especial.
   Jlia ficou tensa. Era como ver algum prestes a passar na frente de um nibus em alta velocidade. Ela queria avis-lo,
mas sua voz parecia estar congelada na garganta. Ficou parada, observando enquanto Michael lanava um olhar de desdm
para o artigo.
   Ela percebeu o susto que ele tomou ao ler a lista, da qual ele prprio fazia parte.
   A revista escorregou dos dedos de Michael e Jlia sabia que aquilo era um sinal do quo irritado ele estava. Nunca o vira
deixar cair um lpis. Mas a revista caiu no cho, com as pginas abertas.
   ? Quem  o responsvel por isto?
   A voz de Michael era grave. E embora sua expresso permanecesse impassvel, Jlia reconheceu instantaneamente os
sinais de ira. Seu chefe era a pessoa mais controlada que j conhecera, sem nenhuma inclinao para manifestaes
dramticas de temperamento, mas ela sabia que ele era capaz de enfurecer-se.
   Jlia j presenciara a fria de Michael quando havia algo errado com a Fortune Corporation, j vira seus olhos azul-
escuros ficarem gelados de raiva e ouvira seu tom de voz agressivo.
   Kristina, no entanto, preferiu ignorar os sintomas de raiva do irmo.
   ?  to legal, no , Mike? Voc vai ficar famoso que nem...
   ? Eu estou ofendido e furioso com esta invaso da minha privacidade! ? A voz de Michael era grave e profunda. ? Foi
voc quem fez isto, Kristina? Esta  mais uma de suas idias que confundem publicidade com exibicionismo? Voc por
acaso entrou em contato com esta revista e...
   ? Eu no! ? Kristina estava ofendida.
   ? Ento como foi que eles conseguiram meu nome? E minha foto? ? perguntou Michael. ? Por que eles me colocariam
nesta lista estpida se no houvesse algum por trs disto?
   ? Os editores da revista escolheram voc. No tive nada a ver com isso ? defendeu-se Kristina. ?  culpa sua ter sido
um dos escolhidos, irmozinho.
   ? Eu sei que hoje em dia est na moda botar a culpa na vtima, mas ser que voc se importaria de me explicar por que
eu sou responsvel por esta... esta... ? Fugiram-lhe as palavras.
   Jlia estava preocupada. Desde que conhecera Michael, nunca o vira perder a fala daquele jeito.
   ? Pense bem, Mike ? retrucou Kristina, sem se intimidar com a fria do irmo. ? Voc tem 29 anos e  solteiro, bonito
e rico. Voc  membro de uma famlia ilustre e j ocupa um cargo importante na empresa. Alm do mais, voc  bom no que
faz, o que significa que provavelmente vai substituir o tio Jake como presidente. Tudo isto o torna extremamente cobivel e
foi assim que voc entrou na lista.
   Michael no estava engolindo aquela conversa.
   ? E aquela foto minha? ? perguntou friamente. ? S falta voc me acusar de eu mesmo t-la enviado.
   ? No sei como conseguiram a sua foto ? disse Kristina, irritada. ? Talvez sua me tenha mandado, torcendo para que
alguma herdeira pegasse um avio para Minneapolis e casasse com voc, dando  sua Mamezinha Querida mais uma
oportunidade de ficar ainda mais rica. Eu no duvido que ela fosse capaz. Sua me faria qualquer coisa por dinheiro!
   Michael parecia petrificado, cada msculo de seu corpo estava tenso. Com 1,85m de altura, erguia-se acima de ambas as
mulheres, e Jlia encolheu-se, sentindo-se intimidada pelo tamanho e pela presena daquele homem. Kristina, que olhava
furiosamente para o irmo, no estava nem um pouco intimidada.
   Quando Michael falou, sua voz estava assustadoramente calma, e seu rosto era uma mscara tranqila e sem expresso.
   ? No posso mais perder tempo com esta bobagem. Tenho trabalho a fazer. Jlia, voc poderia, por favor, acompanhar
minha irm at a porta?
   Ele virou-se e entrou em seu escritrio, fechando a porta atrs de si com uma determinao calma e cuidadosa.
   O silncio abateu-se como uma mortalha por um longo momento. Finalmente, Kristina soltou um suspiro irritado.
   ? Tudo bem, talvez eu no devesse ter acusado a me dele. Mas ela  uma bruxa gananciosa e vingativa! Voc conheceu
a Sheila, Jlia?
   Jlia balanou relutantemente a cabea em sinal afirmativo. Ah, sim! Ela conhecera Sheila, a inescrupulosa e narcisista
primeira esposa de Nate Fortune, me de Michael, de seu irmo Kyle e sua irm Jane.
   Nate, o irmo mais novo do presidente, Jake, era o advogado encarregado das questes jurdicas da Fortune Corporation.
Kristina era o produto do segundo casamento de Nate com a afetuosa Brbara, extremo oposto de Sheila.
   Jlia no gostava de Sheila Fortune, que, toda vez que aparecia no escritrio, tinha um ar de sarcasmo e superioridade.
Mas, sendo funcionria de Michael, Jlia no podia se juntar a Kristina para falar mal da me dele.
   Kristina no esperava que ela o fizesse. Contentava-se em falar mal da primeira esposa de seu pai sozinha.
   ? Juro, no sei como meus irmos conseguiram crescer convivendo com Sheila, mesmo que apenas por parte do tempo.
Meu pai disse que Sheila engravidou de propsito de Mike, Kyle e Jane para garantir uma gorda penso vitalcia que...
   Para alvio de Jlia, o telefone tocou, interrompendo Kristina. Enquanto Jlia atendia a chamada, Kristina pegou a revista
e saiu do escritrio com um rpido aceno.
   O resto da manh foi excepcionalmente atarefado, e Jlia estava no meio de uma compilao de diversas pesquisas de
marketing quando chegaram Lynn, Margaret e Diana, assistentes de outros executivos da Fortune.
   ? Hora do almoo ? anunciou Lynn. ? Estamos em dvida entre o Loon Caf, onde podemos observar os mauricinhos
comendo enquanto falam no telefone celular, e shopping. O que voc prefere?
   Jlia ficou espantada.
   ? No fazia idia de que j era to tarde!
   ? No  de admirar. Voc est enterrada embaixo de uma pilha de papis ? observou Diana. ? Mas mesmo os escravos
tm que comer, ento saia da debaixo e venha com a gente.
   Elas faziam questo de almoar juntas pelo menos uma ou duas vezes por semana, e Jlia sempre as acompanhava. Ela
no podia deixar de ir, mas aquelas pesquisas estavam lhe tomando tanto tempo...
   Michael escolheu aquele exato momento para entrar no escritrio. Sua expresso poderia ser interpretada tanto como
interrogativa quanto como acusadora.
   Jlia interpretou-a como interrogativa.
   ? Estava pensando em ir almoar ? explicou.
   ? Almoar? ? repetiu Michael.
   Jlia viu as amigas se entreolharem.
   ? Vou terminar estas pesquisas quando voltar ? disse. No era uma escrava e pretendia prov-lo.
   ? Ento imagino que vou ter que esperar voc voltar para baixar estes arquivos. ? Michael colocou uma pilha de
disquetes na mesa dela. Sem mais nenhuma palavra, virou-se e voltou para seu escritrio.
   ? Brr! A temperatura sempre cai pelo menos 15 graus quando ele entra na sala ? disse Margaret, fingindo tremer. ? O
homem  uma pedra de gelo.
   ? Imagine a carreira que ele faria no setor de comida congelada! ? completou Diana com uma risadinha.
   ? Ele est mal-humorado hoje ? disse Jlia defendendo Michael. Depois do que ocorrera pela manh, concluiu que ele
tinha direito a uma defesa. ? Est com a cabea cheia.
   As quatro mulheres deixaram o escritrio e caminharam em direo aos elevadores.
   ? Como voc consegue distinguir quando ele est de mau humor e quando est de bom humor? ? perguntou Lynn. ?
Voc j viu o homem sorrindo?
   ? Ele  muito reservado ? explicou Jlia. ? Mas quando voc o conhece bem, v que ele  um cara legal. ? Tinha
certeza de que aquilo era verdade, embora ainda no o conhecesse bem.
   ? Se voc diz... ? retrucou Margaret. ? Bem, eu voto no shopping. Tem uma liquidao com cinqenta por cento de
desconto na Lindstrom...

   Somente mais tarde, quando estava indo para casa, Jlia teve tempo para pensar sobre os comentrios cidos de Kristina a
respeito de Sheila Fortune, a mulher que casara com o pai de Michael e que dele se divorciara litigiosamente.
   Jlia tomava o nibus para ir ao trabalho e voltar para casa, pois o custo do estacionamento durante o dia inteiro era
proibitivo. Mas ela no se importava de andar de nibus. Se no tivesse um livro para ler, ficava olhando pela janela, absorta
em pensamentos. Neste dia ela estava com um livro, mas o deixou aberto sobre o colo e permitiu que sua mente se ocupasse
de Michael Fortune.
   Os fatos bsicos sobre o relacionamento rancoroso entre Sheila e Nate Fortune explicavam a viso de Michael a respeito
do casamento, refletiu Jlia.
   Jlia nunca ouvira ningum expressar opinies anti-matrimoniais to fortes. E ele no mudara de opinio naquele ano em
que estiveram trabalhando juntos, durante o qual trs membros da famlia Fortune decidiram casar-se.
   Michael se distanciara tanto quanto possvel dos eventos. Em cada uma das vezes ? quando sua prima Caroline casou-se
com Nick Valkov, quando seu irmo Kyle casou-se com Samantha Rawlings e quando a irm de Caroline, Allison, casou-se
com Rafe Stone ? ele mandou Jlia escolher o presente de casamento.
   ? Compre qualquer coisa. No tenho interesse em nada que se relacione a casamento ? disse ele, dando a Jlia carta
branca com os cartes de crdito.
   Jlia acertara em suas escolhas. Os simpticos bilhetes de agradecimento escritos a Michael pelas noivas deixaram-na
animada. Ela esperava sinceramente que todos os trs casais vivessem "felizes para sempre".
   Michael no compartilhava do otimismo de Jlia. Antes de assinar os cartes que ela comprara com os presentes, ele
fizera um som que era algo entre uma risada sarcstica e um resmungo.
   ? Bom, se  isso o que eles realmente querem fazer... ? dissera ele, todas as trs vezes, num tom de reprovao. Eu
preferia estar morto do que casado ? acrescentara Michael, enquanto devolvia os cartes  assistente.
   ? Voc acha mesmo que  melhor estar morto do que casado? ? parafraseara Jlia, na terceira vez em que ele
expressara o sentimento.
   ? Melhor morto do que casado ? repetiu Michael sem titubear. ? Hum, nada mau. Acho que tem potencial como
slogan. Talvez eu sugira para minha prima Caroline, do departamento de marketing.
   ? Caroline prefere estar casada ? murmurou Jlia. ? Voc comprou um lindo par de candelabros de prata antigos e
assinou um carto de casamento para ela h alguns meses, lembra?
   ? Lembro de assinar o carto. No tenho conhecimento dos candelabros nem quero ter.
   ? Caroline disse que os adorou.
   ? J que voc conhece o gosto dela, vou encarreg-la de comprar o presente para o beb Valkov quando chegar a hora.
   ? Eu ouvi dizer que Caroline estava esperando um beb ? murmurou Jlia.
   Todo mundo na empresa sabia que Caroline Fortune Valkov estava grvida. Pelo que Jlia sabia, a vice-presidente de
marketing da Fortune Corporation e seu marido pesquisador qumico eram to felizes quanto o carto que Michael assinara
desejava que fossem.
   ? Parece que esse  o curso natural das coisas. ? Michael estava com um aspecto cruel. ? Casar-se e ter um filho, por
todas as razes erradas. E claro, em alguns casos as pessoas fazem ao contrrio ? engravidam e depois se casam ? mas a
parte a respeito da criana ser concebida pelas razes erradas ainda se aplica. Duas vezes mais em casos de casamentos
forados.
   Jlia estava completamente perdida. Nunca haviam tido uma discusso como aquela.
   ? Voc no acredita que sua prima e o marido possam ter um filho porque se amam e querem criar uma famlia juntos?
   Ele a olhara quase com pena, como se ela tivesse acabado de confessar que, aos 26 anos de idade, ainda acreditasse na
existncia de Papai Noel.
   ? O amor no tem nada a ver com isso, Jlia. O beb pode ser um acidente, o resultado de uma noite de muito vinho e
uma sobrecarga de hormnios. Ou, se a gravidez foi realmente planejada, talvez Caroline acredite que um filho dar a Nick
mais incentivo para ficar com ela ? e com a Fortune Corporation,  claro. Ele  um ativo valioso para a empresa, e Caroline
 uma mulher de negcios boa demais para no perceber isto. Quanto ao Nick, talvez ele veja o filho como uma maneira de
reivindicar sua parte no dinheiro da famlia Fortune.
   ? Acho que voc est errado ? disse Jlia bravamente. Ela vira o casal junto e o amor que tinham um pelo outro era
bvio.
   Michael encolheu os ombros.
   ? Os casais vm usando os filhos para alcanar seus prprios objetivos desde tempos imemoriais, Jlia.
   ? No  sempre assim. Voc acha que ningum tem filhos pelos motivos certos? ? perguntara Jlia, no conseguindo
conter-se.
   Michael soltara aquele som cnico, meio risada, meio grunhido, e voltara sua ateno novamente para os papis em sua
mesa, sem se dar ao trabalho de responder a uma pergunta to ingnua.
   Tendo ouvido falar de Sheila Fortune, que, de acordo com Kristina, produzira trs filhos para obter vantagens monetrias,
Jlia compreendia o pessimismo zombeteiro de Michael.
   Compreendia, mas no aceitava. Jlia acreditava no amor, no casamento e nos frutos que resultavam da unio. Ela prpria
fora um desses frutos, e pretendia ter uma unio amorosa como a de seus pais. Ter filhos que fossem amados e desejados por
dois pais que tivessem afeio um pelo outro.
   Lembrou-se dos dias maravilhosos em que sua famlia estivera reunida ? sua me, seu pai e sua irm mais nova, Joanna.
Sentiu um n na garganta e apertou os olhos para espantar as lgrimas.
   O tempo que a famlia Chandler passara junto fora curto, tornando as lembranas dolorosas e agridoces. A morte
inesperada de seu pai, de complicaes relacionadas a apendicite, ocorrera quando ela tinha 17 anos. Trs anos depois, uma
nova tragdia. Um acidente de carro tirara a vida de sua me e ferira gravemente a pobre Joanna.
   Pensar em sua irm mais nova reanimava Jlia, e ela espantou a aura de melancolia que ameaava envolv-la. Joanna
tinha 20 anos e estava em um excelente centro de reabilitao, esforando-se para superar os efeitos das leses decorrentes
do acidente.
   Jlia enchia-se de orgulho quando visualizava sua irm lutando para superar a difcil condio em que se encontrava.
Com a ajuda de um programa desenvolvido especialmente para a sua recuperao, incluindo exaustivas sesses de
fisioterapia, terapia ocupacional, terapia de fala, terapia musical e terapia recreacional, Joanna nunca perdia tempo sentindo
pena de si mesma.
   E at que Joanna estivesse boa novamente e fosse capaz de levar uma vida independente, Jlia teria que adiar seus
prprios sonhos e esperanas. O emprego na Fortune Corporation era muito importante, pois o salrio lhe possibilitava pagar
as despesas de Joanna no centro de reabilitao. Jlia no reclamava das longas horas de trabalho exigidas por Michael
Fortune, pois no havia ningum mais importante em sua vida do que Joanna, seus telefonemas dirios e as visitas de fim de
semana.
   O casamento feliz com um homem que a amasse tanto quanto ela o amasse e o filho desejado e querido tinham de esperar.
Mas quando chegasse a hora certa, Jlia tinha certeza de que encontraria esse homem. Ou que talvez ele a encontraria.


   Captulo 2

   ? Mais cartas para o solteiro mais desejado dos Estados Unidos ? gritou Denny, funcionrio do setor de
correspondncia, arrastando um enorme saco plstico para o escritrio de Jlia. ? Est chegando mais. Tivemos que tirar
estas para abrir espao.
   ? O Sr. Fortune vai ficar emocionado quando souber ? murmurou Jlia, ironicamente.
   ? Para no dizer o contrrio ? retrucou Denny com uma risadinha. ? Ouvimos dizer que ele est furioso com tudo isso.
Mas eu e meus colegas no conseguimos entender por qu. Se eu recebesse milhares de cartas de gatinhas gostosas, pode ter
certeza que eu estaria nas nuvens!
   Jlia deu uma olhada naquele homem baixinho, suado e acima do peso, que, embora tivesse vinte e poucos anos,
aparentava dez anos mais. Nunca haveria milhares de cartas de gatinhas gostosas para ele. Talvez nem mesmo uma.
   ? O Sr. Fortune no gosta de toda essa ateno que vem recebendo depois da publicao daquele artigo ? explicou
Jlia, diplomaticamente.
   Nos ltimos cinco dias, desde que a revista chegara s bancas, listando Michael Fortune como um dos dez solteiros mais
cobiados dos EUA, ela tivera diferentes verses daquela mesma conversa com Denny cada vez que um novo saco de cartas
chegava.
   Normalmente ele saa logo em seguida, mas nesta manh parecia estar disposto a prolongar o papo.
   ? Tivemos que trazer mais duas pessoas para o nosso setor para dar conta de toda esta correspondncia extra ? disse o
funcionrio, fitando os volumosos sacos como se fosse dono deles. ? Fui escolhido para ficar encarregado deles, j que
estou no departamento h cinco anos. A gente se autodenomina a "equipe do solteiro da Fortune".
   ? Ah... ? disse Jlia. Ser que ele estava esperando que ela lhe desse os parabns? No estava muito certa.
   ? , a gente abre todas as cartas endereadas ao Sr. Fortune que no tm o cdigo especial da empresa.
   Ela balanou a cabea em sinal de aprovao. A fim de distinguir a correspondncia de negcios usual de Michael da
montanha de cartas inspiradas pela lista dos solteiros mais cobiados, Jlia notificara todos os colegas e associados de seu
chefe, dentro e fora dos EUA, para que usassem um cdigo especial.
   ? Abrimos at as cartas marcadas como pessoais. O Sr. Fortune disse para abrir especialmente essas. ? Denny inclinou-
se para a frente e disse num sussurro conspiratrio: ? Essas so as melhores.
   Jlia estremeceu.
   ? Voc no ia acreditar nas coisas que a gente tem encontrado, Srta. Chandler! ? exclamou Denny animado. ? Tem
mulher mandando calcinha com o telefone escrito para o Sr. Fortune!
   ? Espero que vocs estejam doando quaisquer itens de vesturio apropriados para instituies de caridade ?
interrompeu Jlia, antes que ele entrasse em detalhes.
   ? Srta. Chandler, nenhuma instituio de caridade ia querer essas calcinhas, posso lhe garantir ? disse Denny com
entusiasmo. ? E tem tambm as fotos que elas esto mandando. Uau!
   Jlia sentia cada vez mais dificuldade em manter seu sorriso forado. Deu uma olhada no relgio, um consagrado sinal de
dispensa.
   ? Sei... ih, estou ficando atrasada, tenho que...
   ? Mas os meus preferidos so os vdeos que as mulheres mandam. ? Denny no entendeu o sinal. No queria ser
dispensado. ? Imagine s, Srta. Chandler. Mulheres usando aquelas lingeries bem sexes ou ento nuas em cima de tapetes
ou de camas, com velas acesas e msica tocando enquanto elas dizem para o Sr. Fortune como e o que elas vo...
   ? Eu tenho que... levar este documento para o Sr. Fortune assinar. ? Jlia ps-se de p num salto, quase derrubando a
cadeira. ?  urgente.
   ? Bem, diga ao Sr. Fortune que seguimos suas ordens. S tem cartas nos sacos. Demos um jeito em todas as outras
coisas para ele. ? Sorrindo maliciosamente, Denny arrastou-se para fora do escritrio.
   As outras coisas. Jlia imaginou Denny e seus colegas babando em suas recm-descobertas colees de calcinhas, fotos e
vdeos, e o pensamento a fez estremecer.
   A porta que dava para o escritrio de Michael abriu-se e ele apareceu, com o rosto austero. Seus olhos azul-escuros
fixaram-se imediatamente no mais novo saco de cartas.
   ? Oh, Deus! Mais no!
   ? Denny me pediu para dizer que ele e os colegas removeram, ahn, todas as parafernlias, e que estes sacos contm
somente cartas.
   ? Somente cartas! ? repetiu Michael. Exasperado, passou a mo pelos cabelos. ? Voc faz idia do contedo dessas
cartas?
   ? Fao uma boa idia ? admitiu Jlia. Ela teve um impulso totalmente inesperado, estranho e desconcertante de ajeitar
o cabelo de Michael, e juntou as mos sobre o colo, entrelaando os dedos, como que para impedir-se de seguir tal impulso.
? Pelo que ouvi de Denny. Ele est extremamente animado com esta sua nova correspondncia.
   Michael grunhiu.
   ? Isto  um pesadelo!
   Ele entrou no escritrio da assistente e comeou a andar de um lado para o outro. No era fcil, pois os grandes sacos de
cartas ocupavam a maior parte da sala.
   ? Desde que aquela maldita revista chegou s bancas, no tive um minuto de paz. Sou perseguido dia e noite. Tive que
arranjar um novo nmero de telefone. Tenho que sair e entrar sorrateiramente no prdio, como um criminoso. No ouso ir a
lugar nenhum. As mulheres vm at mim e dizem as coisas mais incrivelmente ntimas, como o tamanho de seus sutis ou o
que vo fazer se...
   Ele interrompeu-se abruptamente e seu pescoo foi tomado por um forte rubor. Jlia estava impressionada, mas tambm
divertindo-se com a situao. Era possvel que Michael Fortune estivesse envergonhado?
   ? Acho que foi uma boa Denny e os amigos terem ficado com as fotos e os vdeos que, ahn, suas fs enviaram ?
murmurou ela. ? Segundo ele, que virou uma espcie de especialista no assunto, o material est muito alm de uma
"classificao dezoito anos".
   ? No seja impertinente, Jlia! ? repreendeu-a Michael. ? Basta pensar em tudo o que aconteceu nos ltimos cinco
dias para reconhecer o tumulto que a lista causou, no apenas para mim, mas para a empresa!
   ? Foi um tumulto quando todo o sistema de computadores entrou em pane porque as caixas de mensagem estavam
sobrecarregadas com mensagens para voc ? concordou Jlia.
   ? Todo o sistema ficou inoperante durante horas em trs dias diferentes! ? Michael estava fora de si. ? Como  que a
gente pode trabalhar nessas condies?  uma catstrofe!
   ? Certamente no tm sido dias de trabalho normais ? afirmou Jlia em tom conciliatrio.
   Os olhos de Michael brilhavam como chamas azuis.
   ? Quando disse a Kristina que incluir meu nome naquela lista era uma invaso da minha privacidade, no tinha idia do
quo ruim seria. Os telefones e as mquinas de fax esto entupidos de mensagens de mulheres que exigem me conhecer.
Todas as estaes de rdio e TV de Minneapolis e de St. Paul ligam pelo menos uma vez por dia para marcar entrevistas
comigo. Os jornais ? tanto de dentro quanto de fora do estado ? querem fotos e entrevistas, e aqueles programas de fofoca
chegaram a mandar pessoas para tentar me convencer a aparecer na TV. Tem ainda os programas de entrevista, que querem
colocar todos os dez infelizes que foram includos naquela maldita lista no estdio com um pblico formado exclusivamente
de mulheres solteiras!
   ? A situao poderia ficar feia! ? disse Jlia secamente. ? Imagino vocs dez sendo dilacerados, membro por membro,
por candidatas a noivas com um entusiasmo excessivo.
   ? No  uma cena to improvvel. Posso muito bem acreditar que existem centenas de mulheres l fora loucas a ponto
de fazer qualquer coisa para agarrar um homem!
   ? Se servir de consolo, tenho certeza que os outros nove solteiros listados no artigo tambm esto sendo perseguidos.
   ? No  consolo nenhum! ? grunhiu Michael. ? A situao  intolervel. No posso viver deste jeito. Toda a empresa
foi afetada por esse... esse exrcito de mulheres fervorosas que... ? Ele parou de falar, parou de andar e virou-se para
encar-la. ? Simplesmente no entendo, Jlia. Por que esto fazendo isso?
   ? A revista disse que os dez solteiros mais cobiados eram os "Prncipes Encantados dos anos 90" ? disse Jlia
pensativamente. ? Acho que eles quiseram investir em toda aquela magia de contos de fadas que envolve...
   ? Mgica de contos de fada! ? repetiu Michael com desdm. ? Prncipe Encantado! D um tempo! Que tipo de mulher
sonha em ser uma boba chorona que nem a Cinderela?
   ? Eu concordo que o conceito de Prncipe Encantado est ultrapassado, e sempre achei a Cinderela passiva a ponto de
ser meio retardada ? disse Jlia com um sorriso irnico. ? Mas as autoras destas cartas no so passivas, so determinadas,
e provavelmente consideram a possibilidade de se tornar a Sra. Michael Fortune...
   ? Nunca haver uma Sra. Michael Fortune ? prometeu Michael furiosamente. ? Mas mesmo que eu tivesse a menor
inteno de me casar, nunca escolheria uma esposa sorteando uma carta de um saco. Que louco faria isto? Ento por que
essas mulheres nos bombardeiam com toda essa correspondncia?
   ? Acho que  porque a esperana  a ltima que morre.
   ? Existe esperana e existe iluso, Jlia. Estas cartas se enquadram na segunda categoria.
   ? No  possvel que todas essas mulheres estejam completamente iludidas, talvez elas sejam movidas por, ahn, ambio
? sugeriu Jlia em tom desafiador.
   ? Conheo esse tipo de ambio ? retorquiu Michael. ? Toda essa confuso comprova o que eu sempre soube que as
mulheres so obcecadas por dinheiro e so capazes de fazer qualquer coisa para consegui-lo.
   ? Este  um ponto de vista deprimente, alm de uma generalizao excessiva ? disse Jlia em defesa de todos os
membros do sexo feminino que no se enquadravam na categoria de golpistas caadoras de fortuna. Ou caadoras de
Fortune.
   ? Claro. ? Ele riu friamente. ? Como quiser, Jlia.
   Ele encostou-se contra a parede e cruzou os braos sobre o peito.
   ? Voc ficou sabendo que foi minha me quem mandou aquela minha foto para a revista? Ela admitiu e nem mesmo
pediu desculpas pelo que fez. A revista entrou em contato com ela, falou sobre o artigo e ela enviou a foto por sedex no dia
seguinte. E mandou a conta do correio para o meu pai,  claro.
   Jlia tinha ouvido falar. Ficara sabendo tambm que Nate Fortune recusara-se a pagar e enviara a conta de volta para
Sheila, o que resultou numa visita dela  sede da empresa.
   Jlia sabia tudo a respeito, porque Sheila e Nate Fortune tiveram uma terrvel discusso no corredor do departamento
jurdico. Todo mundo que trabalhava l ouvira cada palavra, e a notcia da cena espalhou-se rapidamente pela empresa.
   ? Cristina tambm estava certa sobre o motivo pelo qual minha me enviou minha foto para a revista. ? Michael fitava
o cho meditativamente. ? Ela chegou a dizer que esperava que a filha de um "bilionrio podre de rico" entrasse em contato
comigo.
   Seus penetrantes olhos azuis encontraram os de Jlia e ela remexeu-se irrequieta. Ele parecia estar esperando pelo
comentrio dela.
   ? No sei muita coisa a respeito de filhas de bilionrios podres de ricos. ? Ela escolheu as palavras cuidadosamente,
determinada a ser diplomtica. ? Mas no acredito que escolher um marido em uma revista seja, ahn, bem, o estilo delas.
   ? Como se isso fosse fazer minha me mudar de idia! Ela tambm fez seu discurso sobre a importncia de se adquirir
uma imensa fortuna pessoal, por quaisquer meios possveis. Eu venho escutando isto desde o jardim de infncia! ? Fixando
o olhar firmemente em Jlia, ele perguntou: ? Sua me falava com voc assim?
   ? Quando eu estava no jardim de infncia minha me e eu conversvamos sobre minhas bonecas, sobre o Coelhinho da
Pscoa e coisas do tipo. No me lembro de nenhum conselho sobre planejamento financeiro para o futuro.
   ? O qu?! Nenhum conselho sobre como arranjar um marido rico? Nenhuma dica sobre maneiras de lutar contra a
assinatura de acordo pr-nupcial ou sobre quantos quilates deve ter o diamante do anel de noivado comprado pelo idiota
fisgado? Achei que todas as mes doutrinassem as filhas desde o bero sobre a necessidade de se casar com um homem rico.
   ? Sua me tinha discusses desse tipo com a sua irm? ? perguntou Jlia com curiosidade.
   ?  claro! Embora no tenha adiantado muito. Pobre Janie, to idealista! Ela estava determinada a encontrar o amor, e
tudo o que conseguiu foi ser abandonada pelo pai de seu filho quando ele descobriu que ela estava grvida. No sei o que
deixou nossa me mais irritada, o fato da Jane ter dormido com um homem que no era rico o bastante para pagar uma
penso alimentcia na casa dos milhes para a criana ou o fato de que ela seria av. Ela ainda tem dificuldade em aceitar sua
condio de av.
   ? Mas Cody  um menino adorvel... ? murmurou Jlia. Ela j tinha visto algumas fotos do filho de Jane, que tinha
ento seis anos.
   ? E a filha do meu irmo Kyle, Caitlyn,  uma criana adorvel tambm. Mas isto no significa que minha me queira
ser av de Cody e de Caitlyn ou de qualquer outra criana.
   ? Sheila no  exatamente minha idia de av ? confessou Jlia.
   ? Ela no  a idia de av de ningum, nem dela mesma. No entanto, ela acredita que tem que cumprir o que ela chama
de seu "dever de me", enviando uma foto minha para uma revista. Naturalmente, existe sempre um elemento de interesse
prprio nas aes maternais da Sheila. Se calhasse de eu fisgar uma herdeira graas  lista, ela viria bater na minha porta para
cobrar a parte dela.
   Jlia torceu os lbios.
   ? Uma espcie de comisso de intermedirio.
   ? Exatamente. ? Michael chegou at a sorrir, ainda que por apenas uma frao de segundo. Depois suspirou
pesadamente. ? S quero que tudo isto acabe. Estou cansado de me sentir encurralado. Quero minha privacidade de volta.
Quero minha vida de volta!
   ? A revista sai semanalmente, e dentro de uns dois dias vai chegar um novo exemplar nas bancas ? comentou Jlia com
a voz tranqilizadora. ? Voc pode esperar que o nvel de interesse caia ento.
   ? Espero que voc esteja certa ? resmungou Michael, driblando com destreza um volumoso saco de cartas. ? Ligue
para a manuteno e pea para eles tirarem estes sacos daqui imediatamente. E mande os funcionrios do setor de
correspondncia pararem de usar este escritrio como depsito de lixo. De agora em diante, qualquer correspondncia
suprflua endereada a mim deve ser levada diretamente para o lixo. ? Ele retirou-se para seu escritrio, batendo a porta
atrs de si.
   Ele tinha comeado a bater as portas h trs dias. Jlia afundou-se na cadeira, sentindo-se abalada pela conversa longa e
pessoal que tivera com o chefe.
   Toda aquela histria de lista de solteiros deixara-o realmente abalado. O bater de portas, as revelaes pessoais, at
mesmo os breves lampejos de humor negro ? todos eram fendas na antes impenetrvel armadura de controle de Michael.
   Ela pensou em Denny e seus colegas no setor de correspondncia, divertindo-se excitados com a ateno esmagadora que
Michael considerava repugnante. A situao era um prato cheio para um psiclogo.
   Talvez algum dia, quando ela fosse uma psicloga ? Jlia sempre pensava quando, nunca se ? ela escrevesse um
trabalho intitulado "A Maldio de um Homem  a Bno de Outro", explorando o tpico detalhadamente.
   Um dia. Jlia se permitiu sonhar acordada com o futuro por apenas alguns momentos ? um futuro no qual Joanna estaria
completamente recuperada. Jlia gostava de imaginar a irm como estudante da Universidade de Minnesota, no campus das
Cidades Gmeas. Jlia formara-se em psicologia nessa mesma universidade e... conclura um ano de ps-graduao, os
primeiros passos em direo  sua meta de tornar-se uma psicloga clnica e trabalhar com crianas e adolescentes. Uma
meta que Jlia pretendia alcanar. Um dia.
   Mas ela nunca se deixava ficar muito tempo no mundo de fantasia do futuro. Aprendera que era muito mais seguro viver
o presente do que sonhar com o amanh. Tendo sobrevivido a perdas devastadoras e sbitas, sabia que tudo podia mudar em
um instante, alterando dolorosa e irrevogavelmente a vida de uma pessoa.
   Seus pensamentos voltaram ao passado, e ela agradeceu silenciosamente  me por ter insistido que ela fizesse cursos na
escola de administrao local durante suas frias de vero da faculdade. Fora uma poca difcil, trabalhando quarenta horas
por semana para conseguir dinheiro para pagar as mensalidades do ano seguinte enquanto fazia cursos de administrao. Mas
foram as habilidades administrativas de Jlia, no seu diploma em psicologia, que lhe possibilitaram conseguir empregos
com bons salrios, primeiro na firma de consultoria Olson, Anderson & Lake e agora ali na Fortune Corporation.
   O telefone tocou e Jlia atendeu. De alguma maneira uma reprter ousada conseguira passar pela filtragem de ligaes da
recepcionista e chegara  mesa da assistente executiva de Michael Fortune. Ela fez algumas perguntas indiscretas e
extremamente ntimas sobre a vida sexual de Michael e respondeu ao sucinto "sem comentrios" de Jlia com escrnio e
insinuaes no muito sutis.
   O rosto de Jlia tornou-se vermelho-rubi.
   ? Eu repito, sem comentrios! ? disse rispidamente e bateu o telefone. A ao lhe proporcionou uma estranha
satisfao. No era de estranhar que Michael tivesse criado o hbito de bater portas.
   Jlia dividia um apartamento com trs outras moas ? Jen, Debby e Kia ? todas estudantes da Universidade de
Minnesota.
   Kia, aluna da ps-graduao em servio social, dividia um quarto com Jlia h dois anos. Jen e Debby, alunas do ltimo
ano da graduao em artes cnicas, haviam se mudado para o apartamento em agosto e ocupavam o outro quarto. Todas
usavam as reas comuns ? a cozinha e a sala de estar.
   Lamentavelmente, s havia um banheiro. Durante os raros momentos em que permitia que sua imaginao voasse
livremente, Jlia visualizava um banheiro s seu. Aquilo lhe parecia o mximo do luxo.
   O apartamento era melhor que a maioria dos imveis para estudantes que no vivessem nos dormitrios da universidade.
O prdio no era velho e o aluguel no era alto. Dividido por quatro, era barato para Jlia, e era isso o que ela queria.
   E precisava. Quase todo o seu salrio era usado para pagar as despesas de Joanna no centro de reabilitao. Embora o
seguro-sade tivesse pagado pelos onze meses de internao de Joanna aps o acidente, a cobertura cessou quando ela
recebeu alta do hospital.
   Se Joanna tivesse ido para uma clnica de repouso, o governo teria pagado a conta, mas Jlia no considerara essa
possibilidade. Passara longos meses aps o acidente da irm pesquisando diferentes instituies, e o hospital localizado nos
limites da cidade era o melhor em todos os sentidos. L Joanna receberia a terapia intensiva especializada de que precisava
para um dia poder levar uma vida independente e produtiva.
   A alternativa, a clnica de repouso, prestava apenas cuidados bsicos. Jlia via a idia de colocar Joanna l como uma
perda total da esperana, como a condenao de sua irm a uma vida de dependncia.
   Ento Jlia vendera a casa da famlia Chandler, usara o dinheiro para financiar a ida de Joanna para o centro de
reabilitao e mudara-se para um bairro onde a moradia era mais barata.
   Embora tivesse apenas 26 anos, s vezes sentia-se dcadas mais velha que seus vizinhos estudantes. A "Semana Grega",
quando as fraternidades e irmandades tomavam conta do bairro, no tinha mais graa para ela, especialmente quando as
serenatas dos bbados e as competies entravam madrugada adentro e ela tinha que acordar s seis para ir trabalhar.
   Mas tanto o apartamento quanto a vizinhana estavam calmos quando Jlia chegou em casa. No sabia onde estavam suas
companheiras de quarto. As quatro raramente socializavam juntas, embora Jlia e Kia ocasionalmente corressem ou
andassem de bicicleta juntas  noite ou nos fins de semana, quando seus horrios coincidiam.
   Jlia ficou olhando pela janela, fitando a escurido e desejando que Kia estivesse l. Estava precisando de uma corrida
rpida para esquecer as frustraes daquele longo dia.
   Ficou parada na janela por alguns minutos, pensando se devia ou no sair sozinha. O clima estava quente, perfeito para
uma corrida noturna, mas a escurido a preocupava. Qualquer mulher, em qualquer lugar, sabia dos perigos de sair sozinha 
noite.
   Mas nesta noite ela sentia-se confinada e incomodada pelas restries. Nesta noite, queria estar livre tanto dos riscos
quanto das precaues. Dois anos antes fizera um curso de defesa pessoal na Associao Crist de Moos, e o bairro era
considerado seguro, refletiu. Havia sempre gente nas ruas, especialmente porque ela morava bem perto do distrito dos
teatros, onde diversas peas eram encenadas pelo departamento de artes cnicas da universidade.
   Jlia lembrou-se vagamente de Jen e Debby terem mencionado uma pea na qual ambas estavam trabalhando, Jen como
atriz e Debby na parte tcnica. Jlia fez uma anotao mental para lembrar-se de lhes perguntar os horrios e as datas das
apresentaes.
   Iria assisti-la se algum dia conseguisse sair do escritrio a tempo. Do jeito que as coisas andavam, tinha suas dvidas. S
de pensar no longo e terrvel dia de trabalho j ficava estressada novamente.
   Assistia aos acontecimentos em sua mente como a uma fita de vdeo. S desejava poder avanar rpido certas cenas
enervantes. Como quando o sistema de correio de voz entrara em pane novamente devido a uma sobrecarga de mensagens
apaixonadas para Michael Fortune. O incidente foi seguido de uma visita furiosa de Jake Fortune em pessoa.
   Infelizmente, Michael estava em uma reunio e no pde atend-lo, e a ira de Jake foi toda descontada em cima de Jlia.
Em um tom duro, o chefo dos chefes da Fortune Corporation ordenara-lhe que transmitisse sua bronca a Michael, fazendo
com que Jlia repetisse palavra por palavra para provar que havia entendido bem.
   Ela sentira as palmas das mos suadas depois deste encontro. J era ruim ter sido repreendida pelo executivo mais
importante de toda a empresa, mas ter de repassar toda aquela causticidade para o chefe era de causar uma lcera em
qualquer um. Jlia no dera a mensagem de Jake para Michael, e passara o resto do dia temendo que seu crime de omisso
fosse descoberto. Para seu grande alvio, ele no verificara se ela havia cumprido suas ordens.
   O dia no ficara melhor quando o fim da longa manh finalmente transformou-se em tarde. O sistema de correio de voz
levara mais tempo que o normal para ser consertado, e quando finalmente voltou a funcionar, e um grupo de irritados
compradores de todo o pas conseguiu entrar em contato com a Fortune Corporation para falar de novos pedidos, todos j
estavam com o humor alterado.
   Depois viera a notcia de que um importante carregamento de ingredientes vindo do exterior ficara retido no porto em
Nova York, o que significava uma espera ainda mais longa na linha de produo. Isto, por sua vez, significava ter de lidar
com supervisores frustrados do departamento de produo, alm de ter que repassar as ms notcias para as lojas que no
receberiam os produtos Fortune no prazo.
   Jlia fizera as ligaes para Michael e ouvira inmeros sermes, no melhor estilo "se no gostou da notcia, atire no
mensageiro". Ela no queria nem imaginar o que teriam dito a Michael.
   Finalmente, Kristina chegara para reclamar de sua briga com os chefes do departamento de publicidade, que, segundo
ela, no tinham viso nem colhes e, alm de tudo, eram puritanos incorrigveis. Jlia a conduzira ao escritrio de Michael e
no tomara conhecimento da mais nova campanha de Kristina para "conquistar definitivamente o pblico jovem", mas pelas
vozes exaltadas que vinham do escritrio de Michael e pela sada tempestuosa de Kristina, sups que a reunio no tinha ido
bem.
   A srie de ligaes que Jlia tivera ento que fazer para o departamento de publicidade tambm no fora nada bem. Mais
uma vez no papel da infeliz mensageira, fora xingada e insultada.
   E,  claro, no podia revidar. Revidar insultos e xingamentos no fazia parte das suas atribuies. Tinha que engolir
qualquer resposta, no importando o quo apropriada fosse. Sua mandbula doa depois de tanto ranger os dentes.
   Jlia decidiu que ia correr. Estava cheia de uma tenso que precisava ser descarregada. No estado de humor em que se
encontrava, pobre do agressor que ousasse atac-la!
   Aps tirar sua roupa de trabalho, vestiu um short de corrida dourado vivo e uma camiseta roxa e dourada da Universidade
de Minnesota, amarrou os cadaros do tnis e saiu para a perfumada noite de outubro. Uma leve brisa fazia sussurrar os
galhos das rvores. Ela correu pela calada, desviando para a rua sempre que passava por algum pedestre. Folhas cadas
estalavam sob seus ps.
   Correra mais de um quilmetro e meio antes que as tenses do dia comeassem a se dissipar. Virou em um caminho bem
iluminado que seguia o curso do rio e lanou os olhos sobre as guas escuras que corriam rapidamente.
   Jlia pegou-se pensando se Michael tambm estava descarregando suas tenses naquele exato momento. Sabia que ele s
vezes usava a academia do City Club, no centro da cidade, e que gostava de derrotar seu irmo Kyle no squash.
   Mas Kyle estava em seu rancho em Wyoming, com a esposa e a filha. E a academia do City Club fechava s oito horas.
   Mas existiam outras maneiras de aliviar a tenso, outros tipos de atividades fsicas que podiam ser praticadas em casa
mesmo. Na cama, mais precisamente. Jlia sentiu um calor espalhando-se por sua pele, e sabia que isso no se devia apenas
ao esforo da corrida.
   No queria pensar em Michael e em sexo, mas era uma tarefa difcil, considerando que centenas de mulheres o haviam
enchido de ofertas de sexo toda a semana.
   E ele recusara todas elas.
   No era que ele estivesse inclinado a levar uma vida celibatria. Jlia sabia que seu chefe tinha companhias femininas de
tempos em tempos. Como poderia no saber; era ela quem fazia reservas em restaurantes e teatros na cidade e cuidava dos
preparativos de viagem quando o casal resolvia "fugir" no fim de semana. Era ela quem encomendava as flores a serem
enviadas ? sempre rosas; Michael no era de economizar em contas de floristas. Era ela tambm quem passava ou recusava-
se a passar ligaes da namoradinha do momento, dependendo das instrues do prprio Michael Fortune.
   Desde que comeara a trabalhar como assistente executiva na Fortune Corporation Jlia aprendera bastante sobre o ABC
dos relacionamentos, no estilo Michael Fortune:
   A. Michael dava preferncia ao que chamava de "monogamia em srie". Ele s namorava uma mulher de cada vez e
esperava que a escolhida se limitasse a ele durante tal perodo.
   B. Nenhum de seus relacionamentos parecia durar muito. Um envolvimento com qualquer chance de tornar-se srio
estava condenado a ser de curta durao.
   C. Uma vez que Michael tivesse decidido terminar o relacionamento, ele estava realmente terminado, independentemente
de como sua parceira se sentisse a respeito. Se calhasse de ser a mulher a dar um ponto final no caso, ele aceitava a deciso
sem nunca tentar faz-la mudar de idia.
   Certa vez, uma de suas ex-namoradas, amargurada por ter sido "chutada bem quando eu ia dar um chute nele", alugara o
ouvido de Jlia. "Michael Fortune tem que estar sempre no controle", reclamara a mulher, enquanto Jlia mantinha um
silncio discreto. "Ele exige que o poder que detm como executivo no escritrio se estenda para sua vida pessoal, e isto o
torna um pssimo candidato para um romance. Tenho certeza que  melhor trabalhar para ele do que estar apaixonada por
ele."
   Jlia concordou de todo o corao. Michael era um chefe atencioso, at mesmo generoso, mas como amante... Ela
interrompeu bruscamente essa linha de raciocnio, desviando-se dos perigos de uma fantasia romntica impossvel.
   Todas aquelas mulheres ansiosas que perseguiam Michael deveriam ter feito o mesmo, mas elas no poderiam saber que o
fato de ter sido colocado na lista dos "mais cobiados" o tornaria inalcanvel. Michael nunca consentiria em ser perseguido.
Tinha que estar no controle de qualquer relacionamento, o que significava que qualquer relacionamento tinha que ser
iniciado por ele. Ele era o orgulhoso caador, no a caa.
   Enquanto corria, Jlia passou por diversos outros corredores e por inmeros casais que passeavam. Muitas pessoas
haviam optado por fazer exerccio ao ar livre esta noite. Quando viu uma figura alta, masculina e muito familiar correndo em
sua direo, piscou os olhos, mal podendo conter seu espanto.
   No podia ser! Sua imaginao estava lhe pregando uma pea.
   Passara tantas horas trabalhando com ele e tantas de suas horas de folga pensando nele que agora estava criando imagens
de Michael Fortune.
   Mas o homem de cabelos negros, short azul e camiseta branca que se aproximava dela no era nenhuma inveno de sua
imaginao.
   Era Michael Fortune em pessoa, e ele parecia to espantado quanto ela.


   Captulo 3

    Jlia? ? perguntou Michael, encarando-a.
   Ele mal conseguia acreditar em seus olhos. A jovem com o rosto brilhando e as roupas molhadas de suor parecia a
anttese da sempre impecvel Jlia Chandler com quem trabalhava todos os dias.
   Nunca vira a Jlia do escritrio com um nico fio de cabelo fora do lugar, mas agora vrios fios de seu cabelo castanho
escapavam da trana embutida. Rapidamente, tomando conscincia de seu estado, Jlia ajeitou o cabelo com as mos.
   Os olhos de Michael seguiram o gesto, e ele ficou encantado com a viso da forma perfeita das pequenas orelhas de Jlia.
Brincos no formato de bolinhas douradas transpassavam a pele delicada.
   Michael a fitava, desconcertado com sua incapacidade de desviar os olhos dela. No era como se nunca tivesse visto
aquelas orelhas antes. Jlia usava trana quase todo dia. Mas ele nunca notara a perfeio rosada e conquiforme de suas
orelhas.
   Ele tambm no tinha nenhuma lembrana prvia do quo delgada e graciosa era a curva do pescoo dela. A mesma curva
para a qual agora no conseguia parar de olhar.
   Jlia tocou a parte lateral de seu pescoo num gesto nervoso.
   Michael franziu a testa. A ansiedade dela era compreensvel; ele a estava fitando com a avidez de um vampiro faminto!
Que diabos estava acontecendo com ele?
   Decidiu culpar a maldita lista. Ultimamente, colocava a culpa de tudo no estresse de ser perseguido por todas aquelas
vidas pretendentes.
   ? Oi, Michael. ? Jlia sorriu. Seu pulso, acelerado pela corrida, continuava a bater to rapidamente quanto antes.
   Deu-se conta do quo embaraoso era aquele encontro. At ento, eles nunca haviam visto um ao outro a no ser no local
de trabalho. As regras l eram familiares e bem definidas, mas no pareciam aplicar-se ali fora, na rua enluarada.
   Tambm as roupas que agora usavam eram diferentes. Nos meses em que trabalhavam juntos, ela nunca vira Michael em
trajes to menores.
   As mangas curtas de sua camisa acentuavam os braos musculosos, que estavam sempre escondidos por camisas
cuidadosamente engomadas e palets feitos sob medida. Os olhos de Jlia voaram em direo ao par de coxas musculosas
que as calas dos ternos conservadores nunca deixaram  mostra.
   Jlia rapidamente desviou o olhar. Sentiu a boca seca.
   ? Voc est correndo? ? disse Michael finalmente. Instantaneamente zombou de si mesmo pela observao bvia que
fizera.
   Sentiu-se um idiota, e no era uma sensao agradvel para um homem que raramente cometia erros. No culparia Jlia
se ela lhe respondesse com um comentrio cido.
   Mas Jlia meramente deu aquele sorriso agradvel e respondeu:
   ? Sim. Depois de hoje, eu precisava do exerccio para liberar a tenso.
   ? Pode acreditar, eu sei exatamente como voc se sente! ? disse Michael, aliviado. O gelo quebrou-se. O comentrio de
Jlia os colocara novamente nos papis que desempenhavam na Fortune Corporation.
   Num tcito acordo, voltaram a correr, lado a lado e num passo mais lento. Discutiram os horrores do dia e conseguiram
at produzir um pouco de humor negro sobre os infortnios na Fortune.
   Jlia confessou que Jake Fortune visitara seu escritrio para reclamar da confuso com o correio de voz
   ? Pobre Jlia. Voc ficou na linha de fogo, hein? Espero que no tenha levado para o lado pessoal.
   ? Ah, no ? assegurou-lhe Jlia. ? Eu nunca levaria o fato de ter sido chamada de bajuladora idiota para o lado
pessoal.
   ? Ele te chamou disso? ? Michael sentiu a raiva tomar conta de seu corpo.
   ? Ele estava zangado. Eu entendi ? disse Jlia rapidamente.
   Estava pisando em terreno perigoso, discutindo o presidente com seu chefe! No deveria ter mencionado Jake Fortune,
mas correr com Michael debaixo da cobertura da escurido lhe dera a iluso de companheirismo. De alguma maneira, as
palavras haviam escapado, como se estivesse conversando com uma colega de trabalho.
   Esforou-se para retificar a situao.
   ? Na verdade, at agora, eu tinha esquecido completamente aquela conversa com o Sr. Fortune.
   ? Por que ser que tenho a impresso de que voc no est sendo sincera? ? Michael arqueou as sobrancelhas. ? Os
ataques verbais do meu tio no so fceis de serem esquecidos. E se Jake chamou voc de bajuladora idiota, posso imaginar
as palavras que escolheu para se referir a mim. Voc vai me contar?
   Ela balanou a cabea em sinal negativo.
   ? Voc no gostaria de ouvir.
   ? Voc est certa, no gostaria. ? Michael fixou os olhos no cu estrelado que se estendia  sua frente. ? No estou
desculpando as aes dele, mas tio Jake tem estado sob muita presso desde a morte da minha av. Alm de ter que lidar
com a perda da me, a reorganizao da empresa fez com que as aes da Fortune cassem. Jake se sente responsvel e,
infelizmente, meu pai est mais do que disposto a deix-lo carregar a culpa sozinho.
   Todos que trabalhavam para a empresa sabiam que Nate Fortune competia ferozmente com seu irmo mais velho, Jake, e
que, por isso, h muito a relao entre os dois no era das melhores. E a morte da me os distanciara ainda mais.
   A morte sbita de Kate Fortune, a matriarca de 71 anos, tivera um forte impacto sobre todos ligados  famlia ou 
empresa. Este fato e a subseqente reorganizao da empresa fizeram com que os preos das aes cassem bruscamente.
   Kate estava pilotando sozinha um dos avies da famlia no Brasil quando a aeronave caiu e pegou fogo na floresta
tropical. Nos vestgios chamuscados do acidente s foi encontrado um corpo, naturalmente identificado como sendo de Kate
Fortune.
   Por conhecer a terrvel dor resultante da morte sbita de um ente querido, Jlia sabia como os membros da famlia
Fortune deviam ter se sentido ao ouvir a triste notcia.
   ? Tive o prazer de encontrar sua av diversas vezes quando ela ia ao seu escritrio ? disse Jlia. ? Ela era uma pessoa
encantadora, to amvel, espirituosa e dinmica! E que memria! Acho que ela sabia os nomes de todo mundo que
trabalhava para a empresa e sempre tinha tempo para nos dizer algo gentil.
   ? , esta era a minha av ? Michael sorriu recordando-se. ? Eu, ahn, recebi o carto que voc mandou logo depois que
ela... se foi. Acho que no cheguei a lhe agradecer.
   ? No precisava, s queria lhe dizer o quanto eu a admirava ? murmurou Jlia. ? Voc deve sentir muita falta dela.
   ? No me permito ficar pensando muito nisso ? disse Michael, desconfortvel com o rumo que a conversa tomara. ?
Manter-se ocupado  o melhor antdoto para... ? ele limpou a garganta e encolheu os ombros. ? Para... ? no conseguia
dizer a palavra.
   ? A dor ? disse Jlia por ele. ? , trabalhar ajuda.
   No iria acrescentar, contudo, que falar sobre a pessoa amada perdida ajudava ainda mais. O estilo de luto de Michael
proibia uma manifestao de emoo to aberta.
   ? Acho que trabalhar tem ajudado todos na sua famlia a lidar com a perda ? acrescentou Jlia.
   ?  verdade. Mas meu tio Jake est enfrentando outra crise que no tem nada a ver com a perda da minha av.
   Embora Michael raramente fosse assim to aberto, era um alvio falar de coisas que o estavam incomodando h semanas.
   ? O casamento de Jake e Erica est numa fase conturbada. Minhas primas, Caroline, Natalie e as gmeas, esto
preocupadas com os pais. Aparentemente, Erica cansou da agenda lotada e das exigncias de Jake, e para piorar as coisas, ela
est sofrendo de sndrome do ninho vazio.
   ? Muitas mulheres tm dificuldade em se adaptar quando os filhos crescem e saem de casa ? disse Jlia.
   ? Minha me no. Ela ficou feliz em ter o ninho dela todo para si. Mas Erica est sentindo o peso da idade sem as filhas
e passando pela crise de meia-idade de no ter realizado seus sonhos, culpando o tio Jake por ela ter largado a faculdade e
ficado em casa cuidando das crianas.
   ? Erica j pensou em voltar para a faculdade? ? A vocao de Jlia para a psicologia a impeliu a oferecer ajuda. ?
Muitas pessoas voltam para concluir seus estudos. Existem avs de setenta e tantos anos freqentando a faculdade.
   ? Talvez voc devesse dizer isso a Erica ? sugeriu Michael zombeteiramente. ? Pelos padres dela, aos 52 anos, ela
est velha e definhando; mas pelos seus, ainda est cheia de vida.
   Jlia visualizou Erica Fortune, o esteretipo da esposa de executivo freqentadora do country club e com hbitos bastante
caros. Erica era uma mulher elegante, cujo estilo clssico no envelhecia nunca. Era casada com um dos homens mais ricos
do estado. Suas filhas e seus netos eram fortes e saudveis.
   ?  difcil imaginar uma mulher com tantas coisas boas no sendo feliz ? murmurou Jlia.
   Os lbios de Michael curvaram-se num sorriso sarcstico.
   ? Voc j deve ter ouvido o velho ditado "o dinheiro no compra a felicidade".  claro, isto  heresia para a minha me,
que defende com unhas e dentes o ponto de vista oposto.
   ? H ditados e provrbios para o ponto de vista dela tambm. Que tal "o dinheiro no  tudo, mas  noventa e nove por
cento"? ? Jlia lanou-lhe um rpido sorriso brilhante.
   Michael sentiu-se desorientado, como se tivesse sido lanado para fora do tempo e do espao. Por um breve momento,
mal pde reconhecer a mulher ao seu lado. Estava acostumado  mscara calma e impassvel que Jlia usava no trabalho.
Mas quando seu rosto estava vivo e iluminado, como agora, ficava extremamente bonita.
   Como se tivessem vontade prpria, os olhos de Michael percorreram o corpo de Jlia, detendo-se  vista dos seios firmes
e pequenos que balanavam levemente enquanto ela corria. Ele percebeu pela primeira vez que as roupas que ela usava para
trabalhar eram um perfeito disfarce que escondia uma bela silhueta. Com as saias e os sapatos que usava para trabalhar
ningum olhava para suas pernas.
   Esta noite, o olhar de Michael fixava-se nelas. Jlia no era muito alta, mas suas pernas eram longas e muito bem
torneadas. Fitando a pele nua das coxas de Jlia, Michael sentiu-se inundado de calor.
   O suor escorria em seu rosto e seu corao batia forte. Ele ficou um pouco para trs, mas este afastamento ttico
proporcionou-lhe uma tima viso das curvas firmes do bumbum dela. Quase sem ar, Michael comeou a conjugar verbos
em espanhol em sua cabea, uma estratgia necessria para desviar o curso de seus pensamentos.
   Quando Jlia percebeu que ele parar de correr, parou tambm e virou, olhando para ele. A esta altura Michael j
conseguira controlar seus impulsos libidinosos.
   ? Cimbra na perna ? explicou rapidamente, alcanando-a Por algum tempo, correram lado a lado em silncio. Ento
ele disse:
   ? Jlia, queria lhe pedir desculpas pelo meu tio. Depois que descarrega a raiva, ele esquece. Espero que voc possa
esquecer tambm.
   ? J esqueci ? disse Jlia. ? Voc parece se dar bem com seu tio ? acrescentou hesitante. No queria parecer
intrometida.
   ? Sempre me dei bem com o tio Jake, embora ele de vez em quando exploda comigo ? disse Michael encolhendo os
ombros. ? Ele pode ser exigente e controlador, mas eu entendo seus motivos ? acrescentou com um sorriso sem graa. ?
Acho que so os mesmos que os meus.
   Aquele lampejo de autoconscincia surpreendeu Jlia. Ela tentou segurar o sorriso, mas no conseguiu. Michael percebeu.
   ? Ento voc concorda que Jake e eu somos feitos do mesmo material, ahn?
   ? Digamos que no seria totalmente inimaginvel ouvir voc usando o termo "bajuladora idiota" ? arriscou ela.
   ? Eu nunca usaria o termo para descrever voc.
   ? Mas talvez servisse para uma das assistentes de Jake? ? sugeriu Jlia, lanando-lhe um olhar oblquo.
   ? Sabe de uma coisa? Talvez servisse.
   Ambos riram. Ela tinha uma risada gostosa, observou Michael. No aquelas gargalhadas falsas e escandalosas. Sempre
gostara da risada dela, embora no costumassem rir muito no escritrio.
   ? -ou! ? exclamou Jlia.
   Ela e Michael viram o grupo de jovens que se aproximava. As garotas aparentavam ter entre dezoito e vinte e poucos anos
e estavam bbadas. Cantavam e riam alto, correndo pela calada, quando de repente... avistaram Michael. Ele ficou tenso
quando ouviu uma delas gritar:
   ? Ai, meu Deus,  ele! Um dos dez solteiros mais cobiados, o que mora bem aqui em Minneapolis!
   As amigas comearam a gritar tambm. A cena lembrava as da chegada dos Beatles em Nova York, em 1964. Ela olhou
rapidamente para Michael, que fitava suas fs, aterrorizado.
   Os instintos protetores de Jlia foram instantaneamente despertados. Talvez alguns instintos de auto-preservao tambm.
No queria ficar presa no meio de uma multido histrica.
   Ela lera que pessoas altamente eficazes deviam ser proativas em vez de esperar para reagir. Bem, aqui estava uma chance
de provar a sua eficincia. Jlia dirigiu-se s garotas:
   ? Voc acha mesmo que ele parece com aquele cara da revista? ? perguntou  primeira garota a identificar Michael.
Antes que ela pudesse responder, Jlia virou-se rapidamente para Michael e gritou: ? Denny, elas acham que voc parece
com o Michael Fortune. Voc acredita?!
   Michael fitou-a confuso.
   ? Este  meu irmo Denny ? continuou Jlia. ? Ele trabalha no setor de correspondncia da Fortune Corporation.
   ? Setor de correspondncia? ? repetiu uma das garotas num claro tom de decepo. ? Ele no  o Michael Fortune?
   Jlia riu.
   ? Ele entrega a correspondncia do Michael Fortune. Serve?
   ? Acho que ele no parece nada com o Mike Fortune -declarou outra garota. ? Mike Fortune tem a aparncia de um
milionrio. Este cara tem a aparncia de um funcionrio do setor de correspondncia.
   ? O emprego de Denny oferece benefcios, seguro-sade e odontolgico ? disse Jlia. ? E ele  solteiro tambm. No
tem namorada.
   Foi o suficiente. As garotas no estavam to bbadas a ponto de no perceber que o cara no satisfazia seus padres.
   ? Diga ao seu irmo para colocar um anncio no jornal ? sugeriu uma delas. ? Talvez ele tenha sorte.
   ? Ns estamos nos guardando para Michael Fortune ? disse outra.
   ? Eu acho que ele lembra o Mike Fortune ? gritou-lhes Jlia.
   ? Ele s parece com Mike Fortune se voc estiver bbada como a Wendy ? gritou de volta uma das meninas.
   ? Wendy tambm achou que o entregador de pizza parecia o Tom Cruise ? exclamou outra, e todas riram.
   As garotas desapareceram numa curva, deixando Jlia e Michael sozinhos.
   ? Denny? ? Michael tentou parecer srio.
   ? Foi o primeiro nome que me veio  cabea ? confessou Jlia. ? E ento, voc virou Denny. ? Ela desfez-se em
gargalhadas. ? Eu no teria ficado surpresa se voc tivesse comeado a balbuciar sobre a sua farra abrindo a
correspondncia de todas as admiradoras de Mike Fortune.
   ? Minha farra? ? repetiu ele sem acreditar. De repente, no pde conter o riso.
   Ambos estavam com falta de ar de tanto rir e no conseguiam correr, ento caminharam juntos, fazendo piadas infames.
   ? Eu conheo Mike Fortune. Ele  o meu chefe, e voc no  nenhum Mike Fortune ? parafraseou Jlia. ? Voc  um
falso Denny.
   ? Acho que prefiro ser um falso Denny que um bajulador idiota ? revidou Michael. ? Embora se o tio Jake nos visse
agora, nos daria como casos perdidos, dois abobalhados, cabeas-de-vento.
   ? Ningum poderia acusar voc de ser abobalhado ou cabea-de-vento ? assegurou Jlia.
   ? Acho que no ? disse Michael, franzindo a testa pensativamente. ? No posso nem mesmo ser acusado de sorrir, de
acordo com a minha madrasta, Brbara. Ela me disse para relaxar, que ultimamente podia contar nos dedos de uma mo o
nmero de vezes que me via sorrindo.
   ? A Fortune Corporation no tem nos dado muitos motivos para sorrir ? murmurou Jlia.
   ? No, no tem. Tivemos uma srie de incidentes desastrosos. ? Sombrio e sisudo, Michael comeou a enumer-los. ?
Teve o incndio do laboratrio, causado por um intruso que nunca foi pego e o acidente de avio da minha av. Depois
minha prima Allison comeou a ser perseguida por um louco.
   ? Pelo menos esta calamidade teve um final feliz? respondeu Jlia. ? Allison se casou com o guarda-costas.
   ? Casamento. Um final feliz. Este  o seu ponto de vista.
   Jlia absteve-se de observar que, de acordo com o pensamento de Michael, a idia que ele tinha de um final feliz era uma
permanente viagem ao cemitrio.
   ? Enquanto isto, as aes da empresa continuam caindo. ? Michael suspirou. ? E,  claro, teve aquela misteriosa
invaso do laboratrio. O responsvel causou uma destruio que resultou em mais atrasos no desenvolvimento da frmula
especial da juventude.
   Jlia sabia que a empresa estava trabalhando na frmula da juventude h anos, e que Kate Fortune fizera aquele vo fatal
para o Brasil para conseguir um ingrediente vital. Parecia que a famlia Fortune, abenoada durante tanto tempo, tornara-se
amaldioada.
   ? E alm de tudo isso ? continuou Michael ? fui nomeado um dos dez solteiros mais cobiados dos EUA, atraindo
uma avalanche de ateno.
   ? E a sobrecarga do sistema de correio de voz ? acrescentou Julia.
   Ela parecia sria e solidria, mas Michael notou o lampejo em seus olhos cinza.
   ? Eu sei que voc acha que a lista dos solteiros no deveria fazer parte da minha contabilidade de problemas familiares,
mas isto tem sido um srio inconveniente, Jlia ? disse ele.
   ? Ah, eu sei. Eu tenho despachado suas admiradoras por telefone e por fax.
   Ele teve a desconfortvel sensao de que ela o estava tratando com condescendncia.
   ? Hoje, bem aqui nesta pista, eu quase fui atacado ? lembrou Michael. Ele estava determinado a fazer com que Jlia
entendesse a gravidade de seu problema. ? Se aquelas garotas no estivessem bbadas, nunca teriam engolido aquela sua
histria de Denny.
   ? Provavelmente no.
   ? Estou ficando desesperado, Jlia. No consigo agentar esse assdio. Vim aqui para correr porque estava me sentindo
como um refm preso no meu prprio apartamento. No podia mais olhar para a pilha de correspondncia que est l ? ah,
sim, eu no recebo correspondncia s no trabalho, em casa tambm.
   Ele comeou a correr novamente e Jlia apressou o passo para acompanh-lo.
   ? Havia mulheres esperando na portaria do meu prdio quando eu sa ? continuou ele. ? Tive que sair sorrateiramente,
usando um macaco e um bon que peguei emprestado da Oficina do Al. O Al e os filhos dele cuidam dos carros da empresa
h anos e foram muito compreensivos.
   ? Um macaco de mecnico e um bon  um bom disfarce. Voc tem um bigode falso e culos para completar?
   A expresso dela era to sria que ele no podia dizer se ela estava debochando dele ou no. Como no via Jlia como
uma pessoa do tipo debochado, decidiu responder seriamente.
   ? Pode acreditar, eu pensei em comprar.
   ? Talvez voc deva comprar uma peruca tambm. Talvez uma loira e comprida, no estilo garoto de praia. Ningum iria
querer mais saber de voc.
   ? Voc est tirando um sarro da minha cara. ? Michael a observou atentamente. ? Voc  muito boa com ironias,
Jlia. Eu nunca tinha percebido isso. Por acaso voc passou todo este ltimo ano debochando de mim sem que eu
percebesse?
   ?  claro que no! Ns bajuladores idiotas somos estpidos demais para sermos irnicos.
   Michael riu. Percebeu surpreso que estava se divertindo. Havia tanto tempo que no se divertia que quase esquecera a
sensao.
   Chegaram a um estacionamento iluminado e, apontando para seu Corvette vermelho, Michael disse:
   ? Meu carro est aqui. Estava voltando para peg-lo quando encontrei voc. Fao questo de levar voc em casa.
   ? Obrigada.
   ? Vou poupar voc de uma palestra sobre os perigos que uma mulher corre andando sozinha  noite ? disse ele em tom
brincalho.
   As palavras mal haviam acabado de sair de sua boca quando Michael percebeu que a simples idia de Jlia como vtima
de algum criminoso o deixou atordoado.
   ? Mas voc no deveria sair sozinha  noite, Jlia.  um risco desnecessrio.
   ? Fiz um curso de defesa pessoal h alguns anos ? explicou ela. ? Decidi aprender a me proteger.
   ? O princpio da defesa pessoal  evitar se colocar numa situao perigosa. Seu curso lhe deu um falso sentimento de
confiana, Jlia. Quero que voc me prometa que no vai mais correr sozinha  noite.
   ? Mmm ? murmurou Jlia esquivando-se, cruzando os dedos nas costas e desfazendo sua vaga promessa ao mesmo
tempo em que prometia.
   Estavam parados sob a luz e ele fitou-lhe as bochechas enrubescidas e o cabelo castanho que escapava da trana,
emoldurando seu rosto. Ela parecia pequena, suave e muito feminina.
   Ele limpou a garganta.
   ? Voc gostaria de ir a algum lugar para beber ou comer alguma coisa? ? perguntou ele impulsivamente, surpreendendo
at a si prprio.
   ? Deste jeito? ? Jlia olhou para suas roupas suadas e passou a mo pelo cabelo desgrenhado. ? Eu iria espantar os
outros clientes.
   ? Voc no iria, mas eu talvez sim. Porque a gente no passa pelo drive-through de alguma lanchonete no caminho?
Podemos ficar sentados no estacionamento e comer um sanduche e tomar uma xcara de caf ou um refrigerante.
   Jlia entendeu que ele estava tentando ser educado, mas no havia necessidade.
   ?  muita gentileza sua, mas tenho que ir para casa. ? Ela olhou rapidamente para o relgio, espantando-se com a hora.
? Na verdade, tenho que ir imediatamente.
   Estava quase na hora de seu telefonema noturno para Joanna. E esta noite era importante que ela ligasse um pouco mais
cedo, porque Joanna assistia a um programa de televiso com um grupo de outros pacientes. O programa semanal tornara-se
um evento social regular, com pipoca, refrigerantes e doces.
   Jlia estava emocionada com o fato de que sua irmzinha adquirira a capacidade de socializar-se. E conseguir
compreender e se concentrar em um enredo era uma grande conquista para Joanna. Durante um ano e meio aps o acidente, a
ateno dela fora limitada como a de uma criana que est aprendendo a andar. Mal conseguia acompanhar os programas de
ritmo acelerado e visualmente estimulantes feitos para crianas em fase pr-escolar.
   Mas agora... Um leve sorriso curvou os lbios de Jlia. Joanna tinha um crculo de amigos e assistia a programas
apropriados para sua idade. Apresentava melhoras a cada dia.
   ? Voc vai ter que me explicar como se chega na sua casa ? disse Michael enquanto a acompanhava at o carro. Ficou
pensando por que ela tinha que correr para casa, ou se a verdadeira razo para a partida apressada era porque ela estava
ansiosa para fugir de sua presena.
   Michael Fortune, perseguido por centenas de mulheres, no conseguia convencer Jlia Chandler a tomar um refrigerante
com ele no estacionamento de uma lanchonete. Ele no pde deixar de perceber a ironia.
   Seus lbios contorceram-se num sorriso amargo. No existia um versculo bblico sobre um profeta no ser valorizado em
sua prpria terra? Parecia que o mesmo princpio se aplicava aos atrativos de um chefe solteiro e cobiado aos olhos de sua
assistente. Jlia passava horas em sua companhia no trabalho. Quem poderia culp-la por querer evit-lo em suas horas
livres?
   Ainda assim, a idia causava-lhe um certo incmodo, e isto o deixava ainda mais irritado. Recolhendo-se a um silncio
mal-humorado, Michael dirigiu com o rdio ligado em uma estao que transmitia um jogo de beisebol.
   Nem Jlia nem Michael falaram, exceto nos momentos em que ela lhe dizia onde virar. Quando ele parou em frente ao
prdio de trs andares onde ela morava, Jlia abriu a porta do carro.
   ? Obrigada pela carona ? disse ela, pulando do carro e batendo a porta atrs de si.
   Michael observou-a correr para dentro do prdio e perguntou-se em que apartamento ela morava. Ocorreu-lhe que no
sabia se ela morava sozinha ou com algum... ou se este algum era um homem. Jlia nunca falava sobre sua vida pessoal no
trabalho. Ele nunca lhe perguntara qualquer coisa sobre sua vida fora do escritrio e ela nunca dera qualquer informao.
   Michael dirigiu-se para seu apartamento, uma cobertura num prdio futurstico no centro, no muito longe do prdio da
Fortune. Seu disfarce de macaco estava no banco de trs e ele deu um grunhido ao pensar que teria que vesti-lo novamente.
Felizmente, suas admiradoras haviam desistido por esta noite, e a entrada para o prdio estava livre.
   Ele correu para dentro, apertou rapidamente o cdigo para desativar o sistema de segurana do elevador privado, depois
subiu at o topo do prdio. As portas do elevador abriram-se para um pequeno saguo bem na frente da porta da cobertura. 
esquerda ficava uma parede de janelas que davam um vista espetacular para o cu das Cidades Gmeas.
   Michael no parou para dar uma olhada.


   Captulo 4

   A nova edio da revista Famosos finalmente chegou s bancas e os dez solteiros mais cobiados dos EUA viraram
assunto do passado. Os programas de fofoca e de entrevista pararam de ligar, assim como os jornais. O nmero de cartas
comeou a cair. Denny informou Jlia de que um dos novos contratados para a "equipe do solteiro da Fortune" tinha sido
dispensado.
   Embora a mdia nacional tivesse perdido o interesse, localmente Michael ainda era uma celebridade em alta. Como seu
telefone de casa no estava na lista e ele usava uma secretria eletrnica para filtrar as ligaes, estava seguro em seu
apartamento. Continuava a ser incomodado com ligaes amorosas no trabalho, mas o sistema de correio de voz estava
conseguindo lidar com o nmero agora reduzido.
   Contudo, a imprensa das Cidades Gmeas continuava pedindo entrevistas. Estavam cientes do interesse local no solteiro
nascido e criado na rea.
   ? S uma entrevista com Mike e a gente pra de ligar -prometeu Faith Carlisle, uma das reprteres mais persistentes,
apresentadora do noticirio do canal 3. Faith sempre conseguia passar pelas recepcionistas, secretrias e pelo sistema de
correio de voz da Fortune Corporation e, embora suas ligaes nunca chegassem at Michael, ela falava com Jlia todos os
dias.
   Jlia ficava impressionada com a habilidade e a tenacidade da reprter. Faith Carlisle disse que no desistiria at que
conseguisse a entrevista com Mike Fortune.
   ? Voc est me cansando ? confessou Jlia quando recebeu a segunda ligao do dia. ? Eu at disse a Michael que
achava uma boa idia ele se encontrar com voc.
   ? E o que ele disse? ? pressionou Faith ansiosa.
   ? Ele disse no ? suspirou Jlia. ? Desculpe, eu tentei.
   ? Ele no sabe que quanto mais se esconder mais atraente ele fica? ? Faith estava frustrada. ? Pense em Jacqueline
Onassis. Todos queriam uma entrevista com ela porque era a nica entrevista que ningum conseguia.
   ? Eu no acho. Ele s no quer ser incomodado.
   ? Isto no vai acontecer, Jlia. Diz, como  que anda o sistema de correio de voz por a? Algum problema ultimamente?
   ? No, graas a Deus! O nmero de ligaes caiu. Acho que o interesse em Michael Fortune est comeando a diminuir.
   ? No tenha tanta certeza disto, querida ? disse Faith, desligando.
   Jlia esqueceu-se completamente da conversa at mais tarde, quando o sistema de correio de voz ficou to sobrecarregado
com mensagens para Michael que entrou em pane. De novo! Pior, todo o sistema de computadores da empresa congelou
tambm.
   Michael andava de um lado para o outro, furioso e perturbado. Jlia inclinou-se contra a parede, de braos cruzados,
fitando o carpete cinza perolado.
   ? Faith Carlisle  responsvel por isto, tenho certeza ? murmurou ela. ? Ela fez uma ameaa, mas eu no percebi na
hora. Tenho certeza que ela orquestrou esta campanha de ligaes, s para mostrar do que  capaz. E vai continuar fazendo
este tipo de coisa at voc concordar em dar uma entrevista a ela, Michael.
   ? Nunca! ? Michael socou uma mo com a outra. ? Nunca vou me curvar diante da sabotagem da mdia. Vamos
process-los, vamos...
   ? Droga, Michael, j agentei tudo o que podia! ? O rugido de Jake Fortune podia ser ouvido atrs de portas fechadas
em todo o corredor.
   Jlia congelou. Podia escutar os passos do chefo da Fortune ressoando pelo corredor carpetado. O gigante enfurecido de
"Joo e o p de feijo" instantaneamente lhe veio  mente; ela no ficaria surpresa de ouvir Jake Fortune dizendo que iria
"triturar os ossos deles para fazer po". Os ossos de Michael e os dela tambm, a bajuladora idiota.
   Ela lanou um olhar apreensivo na direo de Michael.
   ? A gente podia se esconder no armrio ? sussurrou. ? Talvez ele pense que no estamos aqui. ? Nem ela mesma
sabia ao certo se estava brincando ou falando srio. Um porto seguro longe do ameaador ataque parecia-lhe bastante
atraente.
   ? Fique  vontade ? disse Michael, gesticulando em direo  porta do armrio. ? Mas eu no vou me esconder do
meu tio.
   Ouviram Jake entrar na sala de Jlia. Ela olhou para o armrio tentada. Talvez Michael no tivesse medo do tio, mas ela
tinha.
   Mas era tarde demais. A porta do escritrio de Michael abriu-se violentamente e Jake Fortune entrou furioso.
   ? Voc est ciente dos problemas que suas fs imbecis causaram para esta empresa? ? Jake comeou seu discurso, que
pareceu durar uma eternidade.
   Michael foi respeitoso de incio, mas Jake continuou enfurecido. Logo Michael desistiu de qualquer tentativa de se
desculpar e lanou uma contra-ofensiva. Farpas e acusaes mtuas foram lanadas. Eles eram parentes e, portanto, tinham
munio guardada de muitos e muitos anos.
   Jlia ficou grudada na parede, amedrontada demais para se mexer, observando e ouvindo os dois homens destrurem-se
verbalmente. Cada um parecia culpar o outro por tudo o que estava errado na empresa e na famlia.
   Sua cabea comeou a latejar. Nunca tivera uma enxaqueca antes, mas estes eram o momento e o local ideais para a
primeira.
   E quando ela achou que as coisas no podiam piorar, Nate Fortune chegou, com a expresso sombria como uma nuvem
carregada.
   ? Ouvi dizer que voc est ameaando meu filho, Jake. ? Nate entrou na briga sem esperar ser convidado.
   Jlia adivinhou o que tinha acontecido. Um dos funcionrios, alarmado ao ouvir Jake Fortune ameaar acabar com o
chefe, informara Nate, o pai de Michael.
   O estmago de Jlia estava embrulhado. Agora uma guerra estava prestes a eclodir e ela estava presa ali, testemunhando
tudo a contragosto.
   ? Graas ao obcecado f-clube do seu filho, toda a empresa foi prejudicada ? Jake olhou furiosamente para o irmo. ?
E esta no  a primeira vez que isto acontece. Eu fui compreensivo e paciente da primeira vez. Da segunda vez tambm. At
da terceira consegui me segurar. Mas isto j aconteceu cinco vezes! Cinco vezes! Como presidente, tenho a responsabilidade
perante os nossos funcionrios e acionistas, o que significa que tenho que acabar com este tipo de loucura!
   ? No  culpa do meu filho se as mulheres o acham irresistvel ? disse Nate.
   Michael estremeceu.
   ? Pai, por favor. Tio Jake e eu podemos resolver isto sozinhos.
   ? Que tipo de pai eu seria se ficasse parado e deixasse meu irmo intimidar voc? ? perguntou Nate. ? Eu vi o jeito
como ele tratou o prprio filho. Pobre Adam, o garoto foi literalmente afastado pela presso que o Jake botou sobre ele. Bem,
eu no vou permitir que o meu menino seja submetido a esse tipo de tratamento.
   Jake empalideceu ao ouvir a meno a seu nico filho. Seu filho distante.
   ? Pai, isto no tem nada a ver com Adam. E Adam no  mais um garoto, nem eu ? disse Michael firmemente. ?
Indiretamente, eu sou responsvel pela sobrecarga do sistema de computadores. Desde que aquela reportagem idiota saiu,
tenho sido um estorvo para a empresa, e como presidente, tio Jake tem todo o direito de estar furioso.
   ? Eu tenho todo o direito de despedir voc ? vociferou Jake.
   ? Tenta! ? Nate deu um passo na direo do irmo mais velho. ? Se voc ousar demitir o meu menino eu...
   ? Voc o qu? ? interrompeu Jake com os punhos cerrados.
   Jlia olhava horrorizada enquanto Nate Fortune reproduzia o gesto do irmo. Os dois irmos pareciam dispostos a
pulverizar um ao outro. Ela rapidamente baixou os olhos.
   ? Vocs no vo realmente brigar, vo? ? perguntou Michael incrdulo.
   ? Fique fora disto, Mike ? ordenou Jake.
   ? Isto est para acontecer h muito tempo ? disse Nate entre os dentes cerrados.
   Mas antes que um dos irmos pudesse dar o primeiro golpe, uma mulher jovem, alta e esbelta, com longos cabelos ruivos
entrou no escritrio e imediatamente colocou-se entre os dois.
   ? Vocs parecem duas hienas zangadas! Faam o favor de parar agora mesmo. ? Rebecca Fortune, a irm mais nova de
Jake e Nate, ficou entre os dois, colocando uma mo sobre o peito de cada um. A expresso dela era uma mistura de tristeza
e desgosto.
   Jlia sentiu os joelhos bambos de alvio. Nunca ficara to feliz em ver algum em toda a sua vida! Se Rebecca no tivesse
chegado naquele momento, Jake e Nate teriam chegado s vias de fato. E adicionando-se Michael quela mistura, s Deus
sabe o que poderia ter acontecido. Jlia imaginou que teria acabado ligando para o telefone de emergncia e esperando que a
equipe de resgate chegasse a tempo.
   ? Isto no  da sua conta, Rebecca ? grunhiu Jake, mas Jlia percebeu que as mos dele j no estavam cerradas. Nem
as de Nate.
   ? Jake est querendo mostrar que  o todo-poderoso ? disse ele para a irm, ignorando o irmo. ? Tratando o meu
menino da mesma maneira arrogante e tirana com que tratava o prprio filho. Ele afastou Adam da empresa e agora est
tentando fazer o mesmo com Mike. E isto eu no vou permitir!
   ? Pai, eu tenho 29 anos e ningum est tentando me afastar de nada. ? Michael estava exasperado. ? Por favor, volte
para o departamento jurdico e... e processe algum.
   ? Ento voc est do lado do seu tio, no ? ? Nate lanou um olhar raivoso e funesto para Michael e Jake. ?
Bajulando Jake porque ele  o presidente enquanto eu sou apenas o advogado e vice-presidente? Ah, voc  mesmo filho da
sua me, Michael.
   Dizendo isto, Nate saiu furioso do escritrio.
   ? Michael no tem nada a ver com aquela bruxa gananciosa da Sheila! ? protestou Jake indo atrs do irmo. ? Est na
hora de voc valorizar seu filho! Mike trabalha feito um desgraado para esta empresa e no  nada interesseiro. Que tipo de
pai  voc para falar assim do seu filho? No  de admirar que o pobre do Kyle tenha tido que se mudar para Wyoming para
finalmente poder viver a vida dele. Voc est sempre menosprezando seus filhos!
   A briga dos irmos continuou corredor abaixo at os elevadores, onde cada um entrou num e foi para um andar diferente
do outro.
   Rebecca, Michael e Jlia ficaram no escritrio de Michael.
   ? Adoro vir at a empresa para visitar minha famlia ? disse Rebecca secamente. ? Eles so to simpticos!
   ? Voc sempre chega na hora certa, tia Becky ? disse Michael, sorrindo para a tia. Ele gostava de cham-la assim
porque ela tinha 33 anos, apenas quatro a mais que ele. Ela sempre fora um de seus parentes preferidos.
   ? Eu vim almoar com Kristina e fiquei sabendo que estava havendo um grande espetculo aqui no seu escritrio, Mike.
? Rebecca balanou a cabea em sinal de desaprovao.? Ver Jake e Nate prestes a lutar como dois adolescentes
esquentadinhos  deprimente. Mame ficaria horrorizada.
   ? No, no ficaria ? disse Michael. ? Ela estava acostumada com as brigas entre Jake e Nate.
   ? E Jlia est aqui! Coitadinha, voc est com a cara de algum que ficou preso em um covil de lees famintos. ?
Rebecca sorriu. ? Vamos ter que te arrancar da parede?
   Fazendo um esforo para sorrir, Jlia afastou-se lentamente do abrigo da parede.
   ?  timo v-la novamente, Srta. Fortune ? disse Jlia respeitosamente. Rebecca era escritora de livros de mistrio e
Jlia j lera e adorara todos eles. Estava um pouco intimidada pela presena da autora.
   ? Por favor, me chame de Rebecca. Ou de tia Becky, se preferir. ? Rebecca deu um sorriso largo. ? Qualquer coisa
menos Srta. Fortune. Posso perguntar do que se tratava esta ltima confuso entre os meus irmos?
   Michael comeou a explicar.
   ? E nenhum dos dois consegue deixar de criticar o outro como pai ? terminou ele com um suspiro. ? Papai adora
colocar o dedo na ferida lembrando que Adam se recusou a trabalhar para a empresa e tio Jake no consegue resistir 
oportunidade de alfinetar papai com as burradas de Kyle.
   ? Kyle no est mais fazendo burradas ? lembrou Rebecca. ? Est casado, feliz, tem um filho lindo e est fazendo
maravilhas com o rancho que mame deixou para ele.
   ? Tio Jake observou isto em sua verso atualizada ? disse Michael. ? Seu novo argumento parece ser que Kyle teve
que se distanciar da presena nociva de papai para conseguir parar de fazer besteiras. Uma alfinetada eficiente.
   ? As pessoas mudam de lado to rpido ? deixou escapar Jlia.
   Sentia-se como se estivesse girando num caleidoscpio enquanto ouvia os Fortune discutirem. Ainda estava meio tonta.
Num minuto Jake estava repreendendo Michael, no outro o estava defendendo contra Nate, que subitamente se virar contra
o filho depois de t-lo defendido momentos antes.
   A vida na tranqila famlia Chandler no a preparara para uma tribo volvel como os Fortune, que diziam coisas horrveis
uns para os outros e no instante seguinte tomavam-se ardentes aliados. Jlia pensou em seus pais, em sua irm e no tempo
que passaram juntos. Uma famlia como outra qualquer, gentis uns com os outros. Um conceito desconhecido para a famlia
Fortune.
   ? Eu sei o que voc quer dizer ? suspirou Rebecca. ? E acho que  melhor eu ter uma conversa com Jake e Nate. Acho
que nenhum deles est pronto para hastear a bandeira branca ainda. Mike, se voc vir Kristina, diga a ela que vou ter que
deixar o almoo para outro dia.
   Rebecca deixou o escritrio.
   ? A presena de Rebecca tem o poder de acalmar e neutralizar os nimos. Ela vai conseguir esfriar a cabea de papai e
de tio Jake. Uma paz temporria,  claro, at o prximo round ? acrescentou Michael desanimado.
   "Se Rebecca conseguisse estabelecer uma trgua entre os irmos, mereceria o Prmio Nobel da Paz", pensou Jlia.
   Kristina chegou momentos depois, quando Jlia estava deixando o escritrio de Michael e indo para a sua sala.
   ? Voc no precisa sair, Jlia. Eu gostaria que voc ficasse ? disse Kristina. ? Estou com um impulso homicida e no
sei se posso responder pelos meus atos se ficar sozinha com meu irmo.
   ? E eu devo servir como testemunha ou como impedimento? ? perguntou Jlia, na esperana de transformar a carranca
de Kristina num sorriso. No funcionou.
   ? Qual o problema, Kristina? ? perguntou Michael com o ar cansado.
   ? S quero que voc saiba que perdi trs pginas do dilogo no qual estava trabalhando para a minha mais nova idia
para um comercial quando o maldito computador deu pau de novo! ? anunciou Kristina. ? Trs pginas! Perdidas!
   Michael no estava com disposio para demonstrar solidariedade ou para se desculpar.
   ? Voc nunca ouviu falar em salvar o documento ao final de cada pgina?
   ? Do jeito que as coisas esto aqui, vou ter que comear a salvar depois de cada palavra ? vociferou Kristina. ? Mike,
estou cansada de tudo isto!
   ? Ah, sim, e eu estou me divertindo muito! ? retrucou Michael num tom cido. ? Computadores entrando em pane,
parentes brigando, dias perdidos! O que poderia ser mais divertido?
   Kristina parecia prestes a soc-lo. Jlia sentiu-se obrigada a intervir.
   ? Sua tia Rebecca disse que teria que adiar o almoo, Kristina ? disse ela. ? Voc j comeu no restaurante Floresta
Negra? Eles tm as melhores sobremesas do mundo.
   Michael e Kristina olharam para Jlia como se ela tivesse perdido completamente a noo das coisas.
   ? Ahn, talvez seja melhor eu voltar para a minha mesa ? sugeriu Jlia.
   ? No, fique aqui, Jlia ? ordenou Kristina. ? J que meu irmo est querendo dar uma de espertinho, prefiro falar
com voc. Eu ouvi dizer que as admiradores do Mike entupiram o sistema de correio de voz de novo e fizeram com que os
computadores entrassem em pane de novo! O que est acontecendo? Pensei que essa confuso de solteiro mais cobiado
estivesse acabando.
   ? E est! ? insistiu Michael. ? Quase ? acrescentou abatido.
   ? Estaria acabada se no fosse por Faith Carlisle ? interps Jlia.
   ? A reprter do canal 3? ? perguntou Kristina.
   ? Essa mesmo ? disse Michael. Ele explicou a situao com Faith Carlisle para Kristina, com alguma ajuda de Jlia.
   ? Bem, eu concordo com Jlia ? disse Kristina. ? Voc vai ter que dar uma entrevista para essa mulher ou ento ela
vai continuar a incomodar.
   ? Absolutamente no! No vou ceder quela... quela terrorista das comunicaes! ? Michael estava irredutvel.
   ? Mas e se ela conseguir sobrecarregar o sistema todo dia? ? Jlia entrou em pnico s de pensar. ? Seu pai e seu tio
vo acabar se matando at o final da semana. ? Ela lanou um olhar apreensivo para Kristina.
   ? Tem que haver uma sada! ? exclamou Kristina. ? No podemos passar todos os dias nos preocupando com a
possibilidade de o computador entrar em pane.
   ? Bem, uma entrevista com Faith Carlisle seria como jogar um fsforo aceso em um recipiente de gasolina ? previu
Michael. ? S resultaria em mais ligaes e cartas.
   ? Espere! Estou tendo uma idia! ? gritou Kristina de repente. ? Uma idia fabulosa!
   Ela se acomodou na borda da mesa de Michael e comeou a balanar as pernas para frente e para trs.
   ? Mike, voc vai dar uma entrevista exclusiva para Faith Carlisle, mas no a entrevista que ela est esperando. Essa
entrevista vai resolver o problema e tirar as admiradoras do seu p e do sistema de correio de voz tambm. Se  isto o que
voc realmente quer ? acrescentou maliciosamente.
   ?  claro que  o que eu quero! Voc acha que eu gosto de me sentir caado? E o problema com os computadores me
afeta tanto quanto a tio Jake e voc. Eu faria qualquer coisa para acabar com isso!
   ? Ento por que voc no anuncia seu noivado? ? sugeriu Kristina. ? Ligue para Faith e diga-lhe que voc quer dar a
ela uma entrevista exclusiva, e use a oportunidade para anunciar para toda Minneapolis e St. Paul que voc no est mais
disponvel. Voil! Voc  um homem livre.
   ? Esta  a idia mais estpida que j ouvi ? disse Michael impaciente. ? Voc no est entendendo, Kristina. Eu no
quero noivar nem casar.
   ?  verdade ? confirmou Jlia. ? Ele preferiria estar morto do que casado.
   Kristina riu.
   ? Voc  quem no est entendendo, Michael. O noivado no seria real. Voc teria uma noiva de mentirinha, que
participaria da farsa at toda essa histria de solteiro cobiado acabar. Pense nisso, Mike. Faith Carlisle anunciaria para todas
as solteiras das Cidades Gmeas que voc no est mais disponvel. Voc teria sua paz e sua privacidade de volta e a
empresa estaria a salvo.
   Michael abriu a boca para protestar, depois fechou-a e reconsiderou a idia de sua irm mais nova.
   ? Teoricamente, poderia funcionar? admitiu. ? Mas na prtica no tem a menor chance.
   ? Por que no? ? Kristina exigiu saber.
   ? Porque onde vou arrumar essa noiva de mentirinha para participar da farsa? O noivado vai ter que parecer autntico
para que Faith Carlisle engula a histria.
   ? Faith Carlisle consegue farejar um falso noivado a quilmetros ? disse Jlia. ? Ela j provou que  bastante esperta.
   ? Ento a gente vai ter que fazer esse noivado parecer real, certo? ? exclamou Kristina, j envolvida no esquema. ?
Essa noiva vai ter que ser algum em quem confiamos totalmente. E ela vai ter que parecer uma escolha lgica para voc,
Mike. Algum que tenha estado na sua vida durante todo o tempo, mas que tenha permanecido em segundo plano durante
toda a comoo.
   Os olhos de Michael encontraram os de sua irm. Ela fitou-o, transmitindo uma mensagem silenciosa.
   ? Sempre achei que voc tivesse uma perspiccia aguada, Mike ? disse Kristina brincalhona. ? Ser que vou ter que
dizer com todas as letras?
   O pescoo de Michael enrubesceu.
   ? Kristina, acho que a gente deveria...
   ? J--L-I-A ? soletrou Kristina cantarolando.
   ? ... finalizar os detalhes antes de dizer a ela ? terminou Michael, o rubor espalhando-se pelo rosto.
   Jlia foi pega totalmente desprevenida quando Kristina soletrou seu nome. Ela os olhou perplexa.
   ? Parabns, Jlia ? exclamou Kristina. ? Voc foi a escolhida. A novssima falsa noiva de Mike.
   ? Eu?
   ? Voc vai topar, Jlia? ? Como de praxe, quando Michael fazia um pedido, soava como uma ordem. O que, de fato,
era. Tudo bem quando se tratava de assuntos de trabalho, mas obrig-la a fingir estar noiva dele era completamente diferente.
   ? Vocs no podem estar falando srio! ? Jlia sabia que sua voz soara desesperada. Ela viu Michael e Kristina
troarem olhares e queria fugir do escritrio. A briga acabara e eles estavam prestes a unir suas foras... contra ela!
   ? Ah, estamos falando muito srio ? assegurou-lhe Kristina. ? Voc  a candidata ideal, Jlia.
   ? Exceto pelo mais importante, ou seja, a credibilidade! ? Jlia comeou a afastar-se lentamente. ? Ningum vai
acreditar que Michael est noivo de mim. Nunca estivemos juntos fora deste escritrio.
   Ela continuou se afastando at que suas costas tocaram a parede. Ficou chapada contra a parede, fitando Michael e
Kristina alternadamente. Eles no esperavam realmente que ela participasse daquele plano louco, esperavam?
   ? Infelizmente acho que ela tem razo com respeito  credibilidade ? disse Michael franzindo a testa. ? Vamos
examinar os fatos objetivamente. Se Jlia e eu estivssemos tendo um relacionamento srio, teramos sido vistos juntos por
algum pelo menos uma vez. E uma nica vez  o suficiente. Vocs sabem com que eficincia se espalham os boatos aqui na
empresa.
   ? Se ns fssemos, ahn, um casal, j seramos alvo de fofocas h um bom tempo ? acrescentou Jlia com seriedade.
   ? Ah, mas suponhamos que vocs dois tivessem tomado cuidado para serem extra-discretos? ? sugeriu Kristina. ?
Vire o argumento do avesso, Mike. A razo pela qual voc e Jlia nunca foram vistos juntos  porque vocs sabem com que
facilidade as fofocas se espalham aqui. Vocs deliberadamente mantiveram o relacionamento em segredo. E parece que
foram espetacularmente bem-sucedidos. Ningum na empresa tem a menor idia de que vocs se apaixonaram loucamente.
   ? Nem ns dois ? murmurou Jlia num tom sombrio.
   Kristina no se intimidou.
   ? O que nos leva ao captulo atual de seu romance secreto. Vocs estavam prontos para assumir publicamente o
relacionamento e anunciar o noivado quando a revista colocou Mike naquela inoportuna lista dos solteiros mais cobiados
dos EUA.
   Mike sentou  mesa, pegou uma caneta e anotou algo.
   ? Na verdade, essa histria  possvel, Kristina. E quanto mais penso a respeito, mais convencido fico de que este plano
 vivel.
   Ele fitou o papel  sua frente.
   ? Jlia e eu no somos tipos extravagantes. Seria de esperar que decidssemos manter nossa privacidade em vez de nos
expor como um casal.
   Jlia o encarou. Era como se ele estivesse em uma sesso de apresentao de idias para o desenvolvimento de um
produto. Exceto que o produto sendo desenvolvido neste caso era o falso noivado entre os dois!
   Seu olhar fixou-se na mo de Michael que segurava a caneta. Os dedos dele eram longos e bem desenhados, masculinos,
fortes e...
   ? Isso nunca vai funcionar! ? soltou desesperada. ? Eu conversei com Faith Carlisle todo dia, lembram? Ela vai saber
que inventamos essa histria de repente!
   ? Como? ? perguntou Michael. Ele estava entrando no plano, Jlia podia perceber. Seus olhos sempre brilhavam
quando ele estava envolvido num projeto que o interessava. ? Faith Carlisle  s uma reprter, Jlia. E de acordo com a
nossa verso da histria, voc conseguiu enrol-la direitinho. Nem mesmo os instintos de reprter-farejadora conseguiram
detectar um envolvimento entre ns. A Carlisle vai respeitar voc por ter sido mais esperta que ela. Alm disso, vai ficar
lisonjeada por termos escolhido ela para nos entrevistar.
   ? E nessa entrevista vocs vo anunciar publicamente o noivado e terminar todo esse assdio ? concluiu Kristina. ?
Posso ser a primeira a parabeniz-los? Vocs fazem um casal adorvel!
   ? Eu no vou conseguir! ? Jlia estava quase chorando. ?  intil, Michael. Voc vai ter que arranjar outra pessoa.
   Ela sentiu ambos os irmos encarando-a, estudando-a cuidadosamente, e seu rosto ficou completamente vermelho.
   ? Se vocs me do licena, tenho um monte de coisas na minha mesa que...
   ? Esta  uma ironia interessante, Mike ? disse Kristina rindo. ? Voc  assediado por centenas de mulheres, mas sua
prpria assistente se sente incapaz de fingir que tem alguma coisa com voc. Fico me perguntando o que isto significa.
   ? Eu fico me perguntando ? disse Michael carrancudo.
   ? No significa nada ? assegurou-lhes Jlia.
   Ela se sentia como um acrobata na corda bamba sem rede de segurana. Deu-se conta de que a pessoa que estava
ofendendo com aquela recusa era seu chefe. Era melhor tentar consertar as coisas antes que acabasse na fila do desemprego.
   ? Eu simplesmente no sei mentir. Se tentasse contar a Faith Carlisle, aos meus amigos ou a qualquer outra pessoa que
estou noiva de Michael Fortune, eles ririam na minha cara.
   ? Por qu? ? perguntou Kristina. ? Eu no acho difcil acreditar que meu irmo pudesse se apaixonar por voc.
   ? Parece uma histria bizarra do Arquivo X ? retrucou Jlia. ? Todo mundo sabe o que Michael pensa sobre
casamento.
   ? Ele tinha uma viso amarga do casamento at que voc apareceu. ? Kristina a deixara sem argumentos.
   ? , agora eu quero casar e viver feliz para sempre ? interps Michael sarcasticamente.
   ? E ter filhinhos por todas as razes erradas tambm, suponho ? acrescentou Jlia. Ela no se preocupou em esconder
seu ressentimento. O desrespeito de Michael pelo casamento e sua crena de que os filhos no poderiam ser produtos de um
amor mtuo e duradouro irritavam-na alm da conta. ? Como voc vai conseguir fazer o papel de um homem que est
pensando em se casar se no consegue nem dizer a palavra "casamento" sem ser sarcstico?
   ? Bem pensado ? disse Kristina. ? Voc tem que parar com isto, Mike. Pratique olhar com ternura para a sua noiva.
Coloque um tom apaixonado na voz quando falar sobre finalmente ter encontrado a mulher certa. Tente parecer
impressionado quando mencionar como estava errado a respeito do casamento e alegre e confiante quando falar do seu futuro
com a mulher que ama.
   ? Ele nunca vai conseguir! ? declarou Jlia. Aquela afirmao to categrica e fervorosa incomodou Michael.
   ? Eu posso e vou fazer o que for necessrio pelo bem-estar da Fortune Corporation, e se isto incluir representar um certo
papel, at mesmo o papel do noivo embriagado de amor, eu vou represent-lo. Nunca subestime minha determinao e minha
devoo a esta empresa, Jlia.
   Ele levantou-se e comeou a andar na direo dela. Jlia respirou trmula. Preferia que ele tivesse ficado onde estava,
com a grande mesa de mogno entre eles.
   Michael estava vestindo um de seus ternos feitos sob medida. Jlia piscou. No estado de nervos em que se encontrava, sua
mente comeara a lhe pregar peas. Uma outra imagem dele sobrepusera-se  que ela estava vendo.
   Despindo-o mentalmente, ela o viu de shorts de corrida e a camiseta que estava usando no dia em que o encontrou na rua.
Jlia viu as poderosas coxas cobertas de plos escuros. Viu os braos fortes e os ombros largos, a parede musculosa que
formava seu peito sob a camiseta de malha suada.
   O corpo de Jlia enrijeceu em sinal de alarme. Quanto mais perto Michael Fortune chegava, mas confusa ela se sentia.
   Jlia engoliu em seco.
   ? Eu nunca subestimaria a sua devoo  empresa. ? Ela esperava que sua voz sasse mais como um endosso ressoante
e menos como um guincho. ? Mas voc no  o nico que est participando deste... deste psicodrama. Voc e a sua irm me
meteram nisso tambm e... e vai ser estranho tentar fingir para os meus amigos que estou noiva de um membro da famlia
Fortune.
   Tentou visualizar-se contando a Lynn, Margaret e Diana durante o almoo, que estava noiva de Michael Fortune. Ou
dando a notcia a suas colegas de apartamento. Jlia estremeceu ao imaginar as cenas.
   ? No posso fazer isto.
   ? Estranho ? repetiu Michael laconicamente. ? Existe algum em especial que acharia nosso suposto noivado assim
to estranho? Para ser mais especfico, estou falando de algum homem, Jlia. ? Seus olhos estavam frios e inquisitivos. ?
Existe algum homem na sua vida que se oporia  sua participao neste plano?
   Jlia pensou na pergunta. Um simples sim a tiraria daquela situao. Poderia inventar um namorado que ficaria furioso se
ela fosse fingir estar noiva de outro homem.
   ? Lembre-se que voc j confessou ser pssima mentirosa ? disse Michael. ? Sem contar,  claro, que eu ficaria
extremamente preocupado em ter uma assistente que mente descaradamente para mim.
   Jlia entendeu a mensagem nada sutil. Ele pretendia verificar a histria e se no houvesse de fato nenhum namorado ela
seria despedida da empresa. Pensou em Joanna, que dependia dela.
   No, no podia se dar ao luxo de perder o emprego. Jlia faria o que fosse necessrio para permanecer empregada. Soltou
um leve suspiro.
   ? No existe nenhum homem na minha vida que se oporia ao plano ? confessou.
   No havia qualquer homem em sua vida, e a escolha era dela. Sentia-se a anos-luz do mundo de namoros e encontros. As
perguntas "para se conhecer melhor", os sorrisos ao fingir interesse em algum ou algo pelo qual voc no tem o menor
interesse... o tempo e o esforo necessrios para comear e manter um relacionamento exigiam muito mais energia do que ela
tinha para dar neste momento.
   ? Entendo ? disse Michael com a expresso impassvel. Por dentro, contudo, estava exultante. No tem nenhum
namorado especial! ? Isto remove um dos maiores obstculos. Um namorado ciumento  a nica complicao que poderia
destruir o plano do falso noivado.
   Michael convencera-se de que era por esta razo que estava to entusiasmado.
   ? Acho que podemos comear. Jlia, ligue para Faith Carlisle e marque a entrevista para depois de amanh.


   Captulo 5
   
   Inquieta, Jlia deslocava o peso do corpo de uma perna para a outra. Sentia-se como se estivesse no topo de um arranha-
cu e o telefonema para Faith Carlisle fosse fazer com que casse l de cima.
   Kristina estava ciente da aflio dela.
   ? Mike, ningum pode subestimar sua devoo  empresa, mas no vamos superestimar a de Jlia. ? Ela cruzou o 
escritrio para ficar ao lado de Jlia. ? Vamos analisar a situao do ponto de vista dela. Ela no vai ganhar nada com o 
plano alm de chateao.
   Michael franziu a testa. A relutncia de Jlia em fazer sua parte no falso noivado o aborrecia. No estava levando a recusa 
dela para o lado pessoal,  claro, garantiu a si mesmo. Mas era um homem que se guiava por metas, e este falso noivado era o 
meio para sua meta ? o fim da perseguio de suas admiradoras. O fim da perturbao da rotina diria da Fortune 
Corporation por pessoas como Faith Carlisle.
   Os olhos de Michael deslizaram pelo corpo de Jlia, cujas roupas escondiam completamente todos os seus atributos 
femininos. E aqueles sapatos de saltos grossos eram quase ortopdicos.
   Nem mesmo uma av usaria sapatos to srios. Especialmente Kate, sua av moderninha. Ele rapidamente bloqueou a dor 
evocada pela lembrana de sua falecida av. E tambm tirou da cabea sua irritao irracional com o guarda-roupa de Jlia.
   ? Jlia  funcionria desta empresa ? disse ele com um ar superior. ?  do interesse dela que os negcios sigam o mais 
tranqilamente possvel. Isto no  suficiente para ela?
   Jlia balanou vigorosamente a cabea em sentido afirmativo, enquanto Kristina fez que no com a sua.
   ? Mike, este falso noivado vai exigir tempo alm do horrio de trabalho regular ? explicou Kristina. ? Depois que o 
noivado for anunciado, voc vai ter que fazer um esforo para que parea real. Vocs dois vo ter que ser vistos juntos em 
pblico, indo a lugares e fazendo o que um casal de noivos faria.
   ? E se fssemos um casal de noivos que prefere ficar na nossa? ? perguntou Michael num tom arrastado.
   Jlia sentiu uma onda de calor percorrendo seu corpo. Por um momento, pensou como seria estar noiva ? de verdade ? 
de Michael Fortune, passar as noites com ele...
   Ela levantou os olhos para observ-lo e deu de cara com o olhar de Michael, que a examinava minuciosamente. Jlia 
desviou o rosto rapidamente.
   ? Michael, encare os fatos ? disse Kristina. ? Se voc quer que esta idia do falso noivado funcione, vai ter que 
convencer as pessoas de que no est mais disponvel, que est realmente noivo de Jlia. Isto significa que vocs vo ter que 
sair para festas, jantares ou para o teatro.
   ? Acho que voc tem razo ? reconheceu Michael soltando um suspiro. ? Jlia, faa reservas para jantar esta semana. 
E compre ingressos para o teatro.
   ? Quer que eu mande algumas flores para mim mesma tambm? ? perguntou Jlia educadamente.
   ? Voc conhece as regras ? riu Kristina. ? Jantar, teatro e flores so o pacote padro para a primeira semana de um 
namoro  la Mike Fortune. Mas estamos saindo do assunto, esse negcio de falso noivado vai exigir tempo extra de Jlia. 
Funes de noiva no so parte do trabalho dela, e  justo que ela seja paga pelo seu tempo.
   Michael observou o rosto de Jlia enquanto ela repensava o noivado, no como um favor para ele, mas como uma fonte 
de renda para ela. Os lbios dele torceram-se num sorriso cnico. Deveria ter colocado as coisas daquela maneira desde o 
incio. Que mulher poderia resistir aos poderes de seduo de uma boa grana? Como  que ele, filho de Sheila Fortune, podia 
ter esquecido que qualquer mulher podia ser comprada? At mesmo Jlia Chandler.
   Jlia lanou um olhar oblquo na direo dele e viu o que ele estava pensando: que a oferta de dinheiro acabaria com 
quaisquer dvidas que ela pudesse ter sobre fazer o papel de noiva dele.
   Ele no ficaria chocado se ela recusasse qualquer pagamento de hora extra? De dizer a ele que seu salrio atual cobriria as 
obrigaes sociais extras? Uma ao to inesperada destruiria completamente a teoria dele de que todas as mulheres so 
gananciosas e dispostas a fazer qualquer coisa por dinheiro! A boca de Jlia curvou-se num sorriso secreto. Seria muito bom 
desafiar suas opinies enraizadas sobre mulheres e dinheiro.
   Mas antes que ela pudesse fazer a oferta, Michael falou.
   ? Kristina tem razo. Vamos seguir a tabela do sindicato para pagamento de horas extras. Est bom para voc, Jlia? E 
eu gostaria de oferecer um bnus. Que tal... ? Ele pausou deliberadamente para criar suspense e seus olhos estavam frios e 
calculistas. Estava curioso. Que preo Jlia acharia merecer? ? Cinqenta mil dlares ? disse friamente e observou o 
queixo de Jlia cair.
   ? Que bnus caro, Mike! ? disse Kristina incrdula.
   ? No se preocupe, no vai sair dos fundos da empresa. ? Michael fingiu estar entediado. ? Vou pagar o bnus do meu 
bolso, j que Jlia est me fazendo um favor pessoal.
   Jlia observou-o. Michael estava jogando seu prprio jogo, um jogo sobre mulheres e dinheiro, e se ela aceitasse a oferta, 
ele seria o vencedor.
   E ela tinha que aceitar. No podia se dar ao luxo de recusar aquela oferta. Se no tivesse que pensar em Joanna, talvez 
pudesse ter o prazer de jogar aquele bnus na cara dele.
   Joanna precisava de pelo menos mais um ano de terapias intensivas no centro de reabilitao. Alm disso, conforme sua 
condio melhorava, mais oportunidades tornavam-se disponveis para ela. O centro oferecia passeios e viagens, 
experincias valiosssimas para pacientes em recuperao. Pacientes que precisavam sair de vez em quando do casulo super-
protetor do centro. E todos esses passeios e viagens custavam caro.
   Jlia sabia que o pagamento de horas extras e o bnus seriam dinheiro bem gasto com Joanna. Ela aceitaria a oferta de 
Michael. Seria egosta no aceitar.
   ? Pelo visto temos um trato, certo? ? O tom de Michael era uma combinao de triunfo e escrnio. ? Vou pedir a 
Sterling que prepare um contrato. Voc vai receber metade do bnus quando assinar e o resto depois que a farsa tiver sido 
concluda. Ou seja, quando terminarmos o nosso noivado devido a, digamos, diferenas irreconciliveis?
   Jlia sabia que cara no conceito dele. Por um milsimo de segundo, pensou em contar a ele sobre Joanna, depois desistiu 
da idia. Recusava-se a usar a irm para ficar bem aos olhos de Michael Fortune. O cinismo de Michael era problema dele. 
Ainda assim, ficara ofendida pela acusao silenciosa de que ela era gananciosa e de que estava  venda por cinqenta mil 
dlares.
   Ou menos. O rosto de Jlia enrubesceu. Teria aceitado qualquer quantia que ele oferecesse como bnus. No recusaria 
dinheiro que poderia ser usado com Joanna por causa de um orgulho bobo.
   ? Temos um trato ? afirmou Jlia. ? Obrigada pelo bnus generoso ? acrescentou num tom mais baixo.
   ? Tenho certeza de que voc vai fazer valer cada centavo, Jlia. Fingir estar noiva deste cara  algo que exige uma 
atuao merecedora de Oscar ? interps Kristina jovialmente, numa tentativa de quebrar a tenso que vibrava entre seu 
irmo e a assistente.
   ? Se voc quer um trabalho bem-feito, tem que pagar o preo ? disse Michael, com um sorriso que, na verdade, mais 
parecia o de um lobo. ? Voc tem certeza que cinqenta mil  o suficiente, Jlia? Voc poderia acabar com o plano 
contando a verdade a Faith Carlisle. Se voc fizer outras exigncias, no vou ter outra alternativa seno atend-las.
   Jlia estava indignada. Ela imaginou que no decorrer dos anos ele testemunhara inmeras partidas do jogo "me d mais 
dinheiro ? vem pegar" entre seus pais. Mas entender a psicologia por trs de suas aes no as tomava menos insultuosas.
   ? Eu aceito as condies que voc ofereceu ? disse ela friamente.
   ? timo! Agora vamos trabalhar no plano ? disse Kristina, olhando de um para o outro. ? Temos que manter isto em 
segredo. Ningum pode saber que o noivado  falso.
   ? Vou contar a Sterling ? insistiu Michael. ? Quero que um advogado redija um contrato, confio plenamente nele.
   ? Eu tambm. ? Kristina virou-se para Jlia, num tentativa de inclu-la na discusso. ? Todos ns confiamos. Sterling 
Foster  como um membro da famlia. Ele  um pouco po-duro s vezes, mas  um po-duro encantador.
   Jlia deu um leve sorriso. Vira Sterling Foster algumas poucas vezes e j conhecia sua aparncia externa de rispidez. 
Contudo, nunca fora apresentada a seu suposto encanto.
   Enquanto Michael e Kristina planejavam os detalhes do falso noivado, Jlia ouvia com um crescente ar de 
distanciamento. Sentia-se um peo no tabuleiro dos Fortune, uma pea de jogo. Ento desligou-se deles e concentrou-se em 
Joanna, na segurana que o bnus traria.
   Aquela mesma aura de irrealidade a envolveu novamente no dia seguinte durante a reunio com Michael e Sterling 
Foster.
   Sterling Foster era uma figura alta e imponente, de cabelos brancos e olhos azuis penetrantes. Um homem que irradiava 
inteligncia e poder.
   O advogado retirou uma pilha de papis da pasta e colocou-a na frente de Jlia.
   ? Leia tudo isto, depois assine nos trs lugares que marquei com um X? disse o advogado.
   ? No preciso ler ? disse Jlia. ? S me mostre onde esto os xis e eu assino.
   ? E dar a voc um pretexto para nos processar por representao jurdica inadequada? ? zombou Michael.
   Jlia segurou o impulso quase irresistvel de responder. Enquanto continha firmemente a lngua, olhou para o advogado. 
Ele a observou por um momento, ento um pequeno sorriso curvou-lhe a boca.
   ? Eu a aconselharia a no responder, Srta. Chandler. Chama-se "direito de permanecer calada" e est na Quinta.
   ? Isto , na Quinta Emenda da Constituio ? acrescentou Michael, com um ar to bvio de superioridade que Sterling 
Foster revirou os olhos.
   Michael estivera assim durante todo o dia, observou Jlia irritada. Quando no estava lhe dando indiretas, fazia 
insinuaes maliciosas sobre sua inteligncia, sua competncia ou seus valores. E durante toda  tarde ela se esquivara, 
fingindo no entender os comentrios. Ela nunca fora to dura, impassvel e imperturbvel. No sabia como Michael 
conseguia tolerar; ela estava dando em seus prprios nervos.
   ? Na Quinta Emenda da Constituio?  mesmo? ? perguntou Jlia com uma ingenuidade digna de crdito. No daria a 
Michael Fortune a satisfao de perturbar sua implacvel compostura. ? Obrigada por me explicar.
   Sterling Foster deu uma gargalhada. Michael franziu a testa. Jlia ficou olhando para o nada, com a expresso mais 
estpida que conseguiu.
   ? Vou repassar o contrato com voc, Srta. Chandler ? ofereceu Sterling.
   Jlia percebeu que o advogado ficara mais  vontade com ela. Estava aliviada por ele estar disposto a poup-la de ter que 
ler todo o documento, oferecendo-lhe um resumo de cada pgina. Michael ficou por algum tempo andando de um lado para o 
outro, depois deixou Jlia e Sterling a ss.
   ? Eu repassei isto com o Mike ontem  noite ? observou o advogado quando Michael saiu. ? No posso culp-lo por 
no querer ouvir duas vezes.  chato demais!
   Jlia no discordou.
   ? Est bem completo ? murmurou, quando terminaram a ltima pgina.
   De acordo com o contrato, ela receberia horas extras de acordo com a tabela do sindicato durante os horrios em que sua 
presena como noiva fosse requerida, mais o bnus. Mas no poderia receber nenhum centavo a mais. Se tentasse extorquir 
algum dinheiro extra, seria multada e as multas seriam descontadas de seu cheque final. Se quebrasse o sigilo e revelasse que 
o noivado era falso, teria que devolver todo o dinheiro recebido com juros retroativos de cem por cento.
   Michael colocou a cabea para dentro da sala, viu que j haviam terminado de revisar o documento e juntou-se 
novamente a eles.
   ? Ento, o que voc acha? ? perguntou ele, fitando Jlia duramente.
   ? Todas as contingncias esto cobertas ? disse ela, impressionada pela mincia do contrato.
   ? J lidei com divrcios menos complicados que isto -admitiu Sterling. ? Mas depois da experincia que teve com 
Dalila DeSilva, acho que Michael no quer correr nenhum risco ? acrescentou franzindo as sobrancelhas enquanto olhava 
para Michael. ? Embora sua falta de confiana nas mulheres seja desanimadora. Mike. Depois de ter conversado com a Srta. 
Chandler, pude perceber quer ela  diferente da sua me e da Dalila. Voc trabalhou todo o ltimo ano com ela. Por que 
ainda no percebeu que ela no  como elas?
   Um silncio desconfortvel instalou-se.
   ? Quem  Dalila DeSilva? ? perguntou Jlia, quebrando o silncio. Estava curiosa demais para deixar passar.
   ? Isto no lhe diz respeito ? disse Michael curto e grosso.
   ?  claro que diz, ela  supostamente sua noiva ? contrariou Sterling. ? J que Dalila  parte da sua, ahn, histria 
romntica, algum certamente vai se referir a ela, Mike. Jlia tem que conhecer a histria. Se vocs estivessem realmente 
noivos, voc teria lhe contado, e j que  para parecer realista... ? A voz do advogado dissipou-se e ele encolheu os ombros.
   ? Tudo bem ? disse Michael tenso. Virou-se na direo de Jlia, mas no olhou para ela enquanto falava. ? Fui noivo, 
durante um tempo, de uma mulher chamada Dalila DeSilva.  uma histria antiga, sem importncia nenhuma.
   ? Espero que ningum queira que eu faa um teste sobre este assunto ? disse Jlia secamente. ? Certamente seria 
reprovada.
   ? Dalila tinha cifres no lugar dos olhos! ? exclamou Sterling lembrando-se. ? Pobre Michael, s tinha 21 anos. Era 
to jovem... o perfeito pato para uma mulher de 26 anos como Dalila.
   ? Sterling, ser que voc poderia fazer o favor de calar a boca? ? grunhiu Michael. ? Tenho certeza que Jlia no est 
interessada. Vamos acabar logo com isto.
   Jlia estava fascinada. E embora h apenas alguns minutos estivesse ansiosa para sair e matar a fome que estava sentindo, 
seu apetite agora cedera lugar  curiosidade.
   ? Voc realmente foi noivo de uma mulher de 26 anos quando tinha s 21? ? perguntou incrdula.
   Pensou nos garotos de 21 anos das fraternidades que conhecia da vizinhana, predominantemente habitada por estudantes. 
A idia de algum da idade dela noiva de algum da idade deles era incompreensvel. Eles lhe pareciam to crianas, to 
chatos!
   ? Foi um noivado muito curto, durou s um ms -respondeu Michael num tom glido. ? Tnhamos nos conhecido 
algumas semanas antes. O relacionamento foi um fiasco do incio ao fim.
   ? Que lhe custou muito ? lembrou Sterling. Virando-se para Jlia, acrescentou: ? Depois que Michael se deu conta 
da... ahn, como posso dizer?... personalidade de Dalila e terminou o noivado, ela fez uma cena daquelas. Alegou que ele 
tinha feito promessas e que ela no ia deixar de cobrar. Fez todo tipo de ameaa. Eu aconselhei o Michael a pag-la ? por 
servios prestados, digamos assim ? e redigi o contrato eu mesmo. Dalila recebeu uma bolada quando assinou e depois deu 
o fora. Fico me perguntando em quantos trouxas ela colocou as garras desde ento.
   ? Voc acha que a arma dela ainda  enfeitiar garotes de 21 anos? ? pensou Jlia em voz alta.
   ? No sei ? respondeu Sterling. ? Ela era to transparente que s um homem muito novo engoliria aquela encenao.
   Jlia fez que sim com a cabea.
   ? Mas o nome dela a entrega. Dalila. Essa era a garota m na histria da Bblia.
   ? Bem, sem dvida a Srta. DeSilva fazia jus ao nome ? disse Sterling.
   ? O nome dela poderia ser Golpista que eu no teria me dado conta naquela poca ? disse Michael com a cara fechada. 
? Eu no era s jovem, tambm era estpido, ingnuo e crdulo. Queria acreditar que nem todas as mulheres eram 
gananciosas e obcecadas com dinheiro.
   ? Como sua me ? acrescentou Sterling.
   ? Ento voc escolheu uma golpista transparente que era velha demais para voc. ? Jlia observou Michael. Isto era 
psicologia de livro didtico, matria de seus primeiros cursos. ? Acho que foi ao contrrio, Michael. Voc queria provar que 
todas as mulheres eram exatamente como a sua me, ento escolheu uma mulher que pudesse comprovar seu ponto de vista. 
Inconscientemente,  claro ? acrescentou.
   Michael grunhiu.
   ? Sem psicobaboseira, por favor! Acho psicologia amadora entediante e ofensiva.
   Jlia ficou indignada. Psicologia amadora!
   ? Eu tenho um diploma em psicologia e um ano de ps-graduao na rea de aconselhamento.
   ? Pior ainda. Um pouco de conhecimento  uma coisa perigosa.
   ? Michael fica muito irritadio quando se toca no assunto da Dalila ? entregou Sterling. ? Quem pode culp-lo? Ela o 
fez de bobo, e isto  irritante em qualquer idade. Agora, a respeito do anel...
   ? Que anel? ? Jlia estava confusa. No houvera qualquer meno a um anel no longo contrato que ela assinara.
   Sterling tirou outra pilha de papis da pasta. Jlia afundou na cadeira.
   ? Imagino que este seja o contrato sobre o anel.
   Sterling balanou a cabea afirmativamente.
   ? Sim, . Mike, voc est com o anel?
   ? Est trancado na minha mesa. Vou pegar. ? Michael saiu da sala.
   ? No  que Michael seja paranico ? murmurou Sterling, como que se desculpando. ? Ele  apenas cauteloso.
   ? No importa. Eu entendo. ? Jlia inclinou-se para a frente na cadeira. ? Sr. Foster, eu tenho uma questo jurdica 
pessoal que preciso discutir com o senhor. O senhor pode ser meu advogado e tirar seus honorrios do bnus que vou 
receber?
   Sterling recuou constrangido.
   ? Se for com respeito a este negcio de noivado, no posso representar voc e Michael ao mesmo tempo. Haveria um 
conflito de interesses.
   ? Isto no seria um conflito. Tudo o que quero  que o senhor nomeie minha irm minha depositria ? Jlia apressou-se 
em explicar. ? Caso algo me acontea, quero que o bnus seja pago diretamente ao centro de reabilitao onde ela est 
internada.
   O advogado parecia perplexo. Jlia explicou-lhe rapidamente a situao de Joanna, querendo conseguir o consentimento 
do advogado antes que Michael voltasse.
   Quando ela terminou, a expresso de Sterling estava extremamente sria.
   ? Vou tratar da transferncia dos fundos, de graa ? disse ele. ? Mas acho que voc deveria contar a Michael sobre sua 
irm e as responsabilidades que voc assumiu nesses ltimos anos. Acredite, ele no faz a menor idia.
   ? Eu sei. Ele acha que sou uma leoa faminta por dinheiro. E se pararmos para pensar, eu estou aceitando uma quantia 
absurda pela minha parte nessa farsa. Acho que isto realmente faz de mim uma leoa faminta por dinheiro, no faz?
   ?  claro que no! ? indignou-se Sterling. ? Michael no deveria ser to precipitado em seus julgamentos. Ele precisa 
aprender que a maioria das mulheres no  interesseira, pelo contrrio, a maioria tem integridade e compaixo. Eu adoraria 
que voc fosse a pessoa a ensinar isto para ele.
   ? No. ? Jlia levantou o queixo, orgulhosa demais para usar a tragdia de sua famlia para ensinar qualquer coisa a ele. 
? No h razo para que Michael saiba a respeito de Joanna.
   ? Eu gostaria que Michael soubesse quem voc  de verdade ? resmungou Sterling, juntando os papis. Ele parecia 
perturbado. ? Queria que ele no fosse to paranico a respeito de mulheres e dinheiro. Esses contratos so um absoluto 
insulto. Pensei nisso ontem  noite enquanto estava redigindo isto e, agora que conversamos, sinto que lhe devo desculpas. 
Mike deveria saber que voc no  um clone de Sheila ou de Dalila, mas uma jovem generosa que...
   ? Se voc  meu advogado, tem que manter o que lhe contei em sigilo, no tem? ? persistiu Jlia.
   ?  claro, vou manter segredo, Jlia ? suspirou Sterling. ? Mas por que voc no pensa melhor e...
   Ele parou de falar quando Michael entrou na sala, carregando uma pequena caixa de veludo.
   ? Aqui est o anel. ? Michael colocou a caixa na mesa, em frente a Jlia.
   Quando Jlia tocou-a, ele esticou o brao e abriu rapidamente a tampa, exibindo o belssimo anel de rubi.
   ? Minha av me deixou este anel para que eu desse para a mulher com quem viesse a me casar. Sempre achei um 
desperdcio, porque no tenho a menor inteno de casar, e no posso usar eu mesmo o anel ? disse ele, com um sorriso 
triste. ? Toda a famlia sabe que a minha av me deixou este anel para que eu desse  minha futura noiva, portanto todos 
vo estar esperando ver voc com ele, Jlia. experimente. A gente manda ajustar o tamanho para voc. 
   Os dedos de Jlia estavam tremendo levemente quando ela retirou o anel da caixa de veludo. Colocou-o no dedo anular de 
sua mo esquerda. Coube perfeitamente.
   ? Olhe s isto! ? disse Sterling. ?  como se o anel tivesse sido feito para ela.
   ?  um tamanho padro e os dedos dela so do tamanho da mdia ? disse Michael friamente. Ele fitou o anel no dedo 
de sua falsa noiva. ? Sterling, o contrato.
   Ele parecia um maestro conduzindo uma orquestra, pensou Jlia enquanto examinava o grosso contrato.
   A essncia do segundo contrato era que Jlia estava ciente de que o anel era propriedade exclusiva de Michael, que 
concordava em devolv-lo aps o rompimento do falso noivado. Caso tentasse ficar com o anel ou exigisse compensao 
financeira, teria que pagar como multa o valor integral do cheque referente ao bnus final. Tambm teria que reembolsar 
todo o dinheiro que tivesse recebido durante o falso noivado, com juros de cem por cento, retroativamente.
   ? Multas e reembolsos. Penalidades retroativas.  o clssico Nate-e-Sheila ? resmungou Sterling enquanto a observava 
assinar.
   ? Disfuno normalmente  passada de uma gerao para a outra ? murmurou Jlia.
   Michael limpou a garganta.
   ? No gosto que vocs fiquem falando sobre mim como se eu no estivesse aqui.
   O que realmente o estava incomodando era a inesperada camaradagem que se desenvolvera entre Jlia e Sterling. Sentiu-
se excludo, o que era ridculo. E a conscincia do fato deixava-o ainda mais mal-humorado.
   ? Eu queria que este contrato fosse irrevogvel porque no quero nenhuma questo a respeito da propriedade do anel 
depois que este... este joguinho idiota tiver acabado ? disse, encarando com raiva sua assistente, depois seu advogado. ? 
Minha av queria que este anel permanecesse na famlia, e eu pretendo d-lo a uma das minhas irms. Talvez eu passe para a 
primeira que tiver uma filha, com a condio de que a menina o herde mais tarde. Desta forma, o anel vai continuar na 
famlia, como vov queria.
   ? Voc entendeu tudo errado, Michael. Kate queria que voc encontrasse uma mulher que voc amasse e na qual 
confiasse o suficiente para se casar ? disse Sterling impacientemente. ? No pense que ela no ignorava sua viso negativa 
a respeito do amor e do casamento. Foi por isso que ela lhe deu o anel. Manter a herana na famlia no era uma das 
preocupaes dela.
   ? Bem,  uma preocupao minha ? retorquiu Michael.
   ? Alm disso, se sua av quisesse que Jane ou Kristina ficassem com o anel, ela o teria deixado para uma das duas ? 
disse Sterling. ? Este anel  destinado  sua noiva amada e possivelmente  sua prpria filha, mais tarde.
   Jlia fitou a linha rgida da boca de Michael e pensou na falecida Kate Fortune. Ela devia ter sido uma extraordinria 
otimista.
   Michael parecia pensar o mesmo.
   ? Alguns dos presentes da vov eram bem-intencionados, mas no conseguiam alcanar o objetivo. Como ter deixado 
este anel para mim ? disse encolhendo os ombros.
   Ela tirou o anel do dedo e colocou-o de volta na caixa.
   ? S vou usar este anel quando estiver na sua presena, Michael. No quero ser acusada por qualquer dano ou perda 
acidental.
   Levantando-se, apanhou sua bolsa em cima da mesa e saiu.
   ? Imagine se ela vai querer perder um centavo sequer de seu precioso dinheiro ? disse Michael acidamente.
   ? Se voc fosse to esperto quanto pensa que ... ? desdenhou Sterling. ? Isto virou uma terrvel baguna e sua av 
no vai ficar contente.
   Michael percebeu o lapso do advogado, referindo-se  sua av no presente. Era um lapso que ele prprio cometera 
durante semanas depois que ela morrera. Ele sabia o quo prximos Sterling e Kate tinham sido, especialmente depois da 
morte de seu av Ben. Sentiu uma pontada de compaixo pela perda pessoal de Sterling.
   Michael pegou a caixa e fitou o anel que sua av lhe deixara... na esperana de que ele encontrasse seu verdadeiro amor e 
lhe desse a jia. Quem imaginaria que sua av, to astuta e durona nos negcios, fosse capaz de um gesto to tolo? Seus 
lbios contorceram-se numa careta.
   ? O falso noivado no  uma terrvel baguna, Sterling. Com estes contratos, estou completamente no controle, e Jlia 
inteligente o suficiente para perceber isto.
   Sterling enfiou os contratos de volta em sua pasta,
   ? Michael, voc  um tremendo idiota ? resmungou enquanto saa da sala batendo p.


   Captulo 6

   ? Jlia contou o motivo da entrevista? ? perguntou Michael a Faith Carlisle.
   ? Ela disse que vocs esto noivos e querem que eu anuncie a histria. ? Faith Carlisle olhou-o especulativamente.
   ? Isso mesmo. Vamos colocar um ponto final nessa bobagem de solteiro cobiado.
   ? E esta a razo pela qual voc decidiu anunciar o noivado com sua assistente? ? perguntou Faith astutamente.
   Michael fitou-a horrorizado. Aquela entrevista ia ser pior do que ele imaginara.
   ? No,  claro que no! ? apressou-se em dizer. ? Estamos noivando por todas as razes usuais ? que discutiremos na
entrevista.
   Faith e o cameraman, Ken, comearam a preparar o equipamento de vdeo.
   ? No sei por que Jlia est demorando ? disse ele, pondo-se a andar de um lado para o outro da sala.
   Havia um grande espao para se andar ali e ele o percorreu inteiro, enquanto Faith Carlisle e o cameraman o fitavam,
confusos.
   ? No  do feitio dela se atrasar ? resmungou Michael.
   ? Ela no est atrasada ? assegurou-lhe Faith. ? Ns chegamos cedo.
   ? Quando eu marco um compromisso para uma certa hora, espero que comece naquela hora. ? Michael rangeu os
dentes.
   ? Sinto muito pelo inconveniente. Voc quer que a gente saia e volte em dez minutos? Na hora exata marcada para a
entrevista?
   ? Vocs podem ficar aqui ? disse de m vontade. ? Eu vou para o escritrio.
   Jlia marcara a entrevista com Faith Carlisle para esta tarde, mas foi Kristina quem sugeriu que ela fosse realizada no
apartamento dele.
   Michael concordara, mas no tinha se dado realmente conta at o momento da chegada antecipada de Faith. Ele e Jlia
tinham que agir como um casal apaixonado. Ser que conseguiriam?
   A chegada da equipe de reportagem antes da hora era um pesadelo. Ele e Jlia no teriam tempo para planejar a
encenao. No houvera tempo para um ensaio no trabalho. Michael colocou a mo no bolso e tirou a caixa do anel. Teria
que coloc-lo discretamente na mo de Jlia quando ela entrasse no apartamento, longe dos olhos de guia de Faith Carlisle.
   A campainha tocou e ele saiu correndo do escritrio.
   ?  Jlia ? anunciou, aliviado.
   ? Ela no tem a chave? ? perguntou Faith.
   Mas Michael no se deixou enganar. Faith Carlisle j suspeitava do acordo. Ele se forou a ficar calmo. Se ele estivesse
noivo, teria dado uma chave de seu apartamento  noiva? Provavelmente sim.
   ? Jlia perdeu a chave dela. J mandei fazer outra.
   ? Certo ? disse Faith maliciosamente para Ken. Michael abriu a porta e l estava Jlia.
   ? Oi, querido! ? Ela lanou-se em cima dele, envolvendo-lhe o pescoo com os braos. Michael estava to perplexo
que ficou completamente tenso, parado, com os braos pendurados ao lado do corpo.
   ? Ele  do tipo bem afetuoso, no ? ? comentou Faith com o cameraman.
   ? Eu vi a van do Canal 3 na frente do prdio ? sussurrou Jlia no ouvido de Michael. ? Finja que est me abraando.
   Como se fingia estar abraando algum? Michael no sabia ao certo, mas seus braos envolveram Jlia e ele comeou a
abra-la de verdade.
   Os braos de Jlia o envolviam com firmeza e ele achou perfeitamente natural mergulhar os lbios na curva macia do
pescoo dela. Fechou os olhos e sentiu uma onda de puro desejo percorrer-lhe o corpo.
   O sangue pulsava violentamente em suas veias. Lentamente, comeou a deslizar as mos pelas costas de Jlia,
acariciando-a, afagando-a, at a curva firme das ndegas dela.
   Subitamente, ela distanciou-se dele.
   ? Faith! ? exclamou Jlia. Confuso, Michael observou-a cruzar a sala at o longo sof cinza, do qual Faith e o
cameraman acabavam de se levantar.
   ? Sinto como se fssemos velhas amigas, j falamos tantas vezes pelo telefone ? disse Jlia alegremente. Michael
ofereceu a vocs alguma coisa para beber? ? perguntou.
   ? No. Cometemos o erro de chegar antes da hora -disse Faith. ? O que ele gostaria de nos oferecer  um rpido pulo da
varanda.
   ? O-ou. ? Jlia desviou o olhar de Faith para Michael. ? Sinto muito por no ter estado aqui.
   ? Eu tambm ? apoiou Faith.
   ? Todos os executivos bem-sucedidos so obcecados por horrios ? disse Jlia rapidamente.
   ? Voc tem razo ? admitiu Faith com a cara amarrada.
   ? Vocs gostariam de algo para beber? ? interps Jlia. ? Caf ou... ? Ela virou-se para Michael ? O que mais voc
tem para oferecer a Faith e a... ? Ela sorriu interrogativamente para o cameraman.
   ? Ken ? respondeu ele, estendendo-lhe a mo.
   ? Ken ? repetiu ela com um sorriso radiante. Michael observava a cena com os olhos arregalados.
   O inesperado contato fsico com Jlia e a reao dele  proximidade dela deixaram-no zonzo, e agora, observando-a,
estava sem fala.
   A mulher que conversava com aquelas duas vboras da imprensa no parecia nada com a Jlia calma, reservada e sria
que ele conhecia do escritrio.
   Ela vestia uma saia curta e plissada, que balanava quando ela andava, acentuando-lhe as pernas torneadas. A camisa
preta strecht acompanhava a linha de seus seios e de sua cintura, exibindo curvas que as blusas engomadas que ela usava no
escritrio nunca mostravam. Seus sapatos eram sexies e Michael engoliu em seco quando fixou o olhar novamente nas
pernas dela. No era um homem dado a fantasias, mas poderia certamente fantasiar sobre aquelas pernas envolvendo-lhe a
cintura.
   Um calor sensual abateu-se sobre ele. No podia se mover. No podia respirar.
   ? Algo gelado? ? ajudou Jlia.
   Michael continuou fitando-a. Os cabelos estavam diferentes tambm, soltos e macios.
   ? Vamos pular as bebidas e comear ? disse Faith. ? Para a cena inicial, Ken vai fazer uma panormica da sala,
comeando com as janelas, depois indo para a lareira e finalmente focando em vocs dois no sof. Isto , se Michael vier se
juntar a ns.
   Jlia ficou apreensiva. Michael ainda estava parado na porta. Por que ele no dizia nada?
   ? Acho que  agora ou nunca ? murmurou Michael.
   Jlia observou-o caminhando na direo deles. Sua aparncia era imponente e forte, a aparncia de um homem bem-
sucedido e poderoso.
   Os olhos de Jlia voaram de Michael para Faith e ela abafou um suspiro de desnimo. No havia a menor chance de Faith
Carlisle engolir aquela encenao. Um homem como Michael Fortune estava fora do alcance das Jlias Chandler do mundo.
   ? Admito que estou um pouco desconcertado com esta entrevista ? disse Michael, sentando-se ao lado de Jlia. ? Peo
desculpas se fui um pouco rude.
   Pegou a mo de Jlia e entrelaou seus dedos com os dela.
   Jlia ficou tensa. Quando se jogara nos braos dele estava distrada demais com o papel que estava fazendo. Mas ali ao
lado dele, a sensao daquela grande mo masculina envolvendo a sua fez com que todo o seu corpo estremecesse.
   Michael estava demasiadamente consciente dela para no notar aquela reao. Ela parecia estar em pnico.
   Bem, ele no iria deixar Faith levar a melhor. O orgulho dos Fortune encorajou sua determinao. Ele e Jlia iam
conseguir fazer aquela encenao!
   Jlia fizera um comeo admirvel. Agora ele tinha que fazer a sua parte.
   ? Jlia e eu somos muito reservados. ? Michael chegou mais perto de sua falsa noiva. ? Falar sobre ns no  fcil
nem para mim nem para ela. ? Dizendo isto, levou a mo de Jlia at seus lbios e beijou-a. ? No , querida?
   Entre na personagem e fique na personagem. Jlia pensou no conselho de atuao de Jen, de suas aulas de teatro. Era hora
de deixar sua personalidade para trs e virar a personagem ? a noiva de Michael Fortune.
   Qualquer mulher que conseguisse com que ele a pedisse em casamento teria uma autoconfiana monumental.
   Jlia respirou profundamente, determinada a virar essa mulher. Entrar na personagem e ficar na personagem at que a
equipe de reportagem deixasse o apartamento.
   ? A gente prefere a companhia um do outro e valorizamos os momentos em que podemos ficar sozinhos ? disse ela.
   Faith parecia entediada.
   ? Por que vocs no me contam como se conheceram? Jlia e Michael olharam um para o outro.
   ? Voc quer contar, Jlia?
   ? Ah, no, voc conta, Michael ? Jlia deu-lhe um sorriso adorvel.
   ? Bem, como voc sabe, Jlia trabalha para mim ? comeou Michael. ? Nos conhecemos quando eu a entrevistei para
o emprego. A entrevista foi bem e eu a contratei imediatamente. Ns ficamos, ahn, mais prximos com o passar dos meses e
acabamos decidindo noivar.
   ? E isto  tudo? ? Faith estava decepcionada.
   Michael no deixara sua personalidade de lado para se tornar o homem loucamente apaixonado por sua noiva. Jlia
decidiu que era melhor ir para o centro do palco e embelezar a histria.
   ? Michael contou a verso resumida ? disse Jlia, com um sorriso. ? Vou ser sincera com voc, Faith. Para mim foi
amor  primeira vista. Quando conheci Michael eu soube que ele era o homem da minha vida. E quando ele me contratou,
tive certeza de que era o destino ? Ela aconchegou-se contra Michael e lanou-lhe um olhar rpido.
   Michael estava zonzo. Ela realmente tinha olhos lindos; ele nunca estivera perto o suficiente para observ-los.
   ? Mas no foi amor  primeira vista para o Mike? ? perguntou Faith.
   ? No ? respondeu Jlia.
   ? Sim ? disse Michael ao mesmo tempo.
   ? Afinal, a resposta  sim ou no? ? demandou Faith.
   Jlia e Michael entreolharam-se.
   ? Sim, eu me apaixonei por ela  primeira vista, mas no deixei que ela percebesse ? disse Michael. Ele desejava que
Jlia no estivesse com aquela aparncia de total descrena. Faith certamente perceberia. ? Estou admitindo pela primeira
vez agora ? acrescentou, esperando acobertar a incredulidade de sua falsa noiva.
   ? Que lindo! ? Jlia fingiu suspirar. ? Mas no  verdade.
   Michael estava forando a barra, pensou preocupada.
   ? Jlia, eu acho que sei quando me apaixonei, e foi  primeira vista ? insistiu. Estava frustrado. Por que ela no podia
simplesmente seguir a histria dele? ? Eu lembro at o que voc estava vestindo. Um terninho bege e uma blusa branca.
   E claro que ele no lembrava o que ela estava usando naquele dia especfico. Simplesmente descrevera as roupas sem
graa que Jlia usava para ir trabalhar.
   Com um movimento suave, ele passou o brao pela cintura dela e puxou-a para mais perto de si.
   Ela sentiu o calor do corpo dele e a fora de seus dedos enquanto ele acariciava sua cintura. Estava corada e
desconcertada.
   Faith estava se divertindo.
   ? Mike, voc esta nos dizendo que se apaixonou por Jlia  primeira vista embora as roupas e o penteado dela
estivessem longe de ser armas sexuais?
   ? Isso mesmo. Acho que me apaixonei justamente porque ela no estava tentando me enfeitiar. Desde o primeiro dia
ficou claro que Jlia estava no escritrio para trabalhar, no para tentar... me enfeitiar.
   ? E no entanto, acabou que voc foi enfeitiado por ela ? disse Faith. ? Tanto que a pediu em casamento.
   ? Sim ? disse Michael balanando a cabea. Era uma histria inacreditavelmente plausvel. E Faith estava acreditando,
ele podia perceber.
   ? Ento, com relao as mulheres, sua atitude estava meio que "j conheo essa histria"? ? continuou Faith. ? At
aparecer Jlia, uma espcie de Cinderela...
   ? Ah, por favor! Que mulher em s conscincia quer ser Cinderela nos dias de hoje? ? interrompeu Jlia. ? O conceito
de Prncipe Encantado est to ultrapassado... ? acrescentou por via das dvidas.
   ? Ento voc no me v como um prncipe encantado? ? defendeu-se Michael. ? Estou arrasado!
   ? Bem, voc tambm no me v como uma feiticeira fascinadora, e olha que me esforcei para tentar ser uma. ? Seus
olhos estavam entusiasmados, convidando Michael a compartilhar a piada particular.
   Michael compartilhou, rindo da idia absurda de Jlia Chandler como uma feiticeira fascinadora.
   ? Voc no teria durado nem quatorze dias no escritrio nesse papel. ? Uma onda de afeio sbita e inesperada tomou
conta de Michael.
   Jlia sentiu o peito musculoso de Michael contra suas costas, inalou a fragrncia de sua loo aps-barba e, por um
momento, foi jogada num redemoinho de confuso sensual.
   Ser que aquilo era um sonho? A aura de irrealidade parecia to nebulosa... Mas a sensao daquela coxa rija sob seus
dedos era bastante real. Todos os seus sentidos estavam conscientes de toda aquela virilidade.
   Aquele calor que se espalhava por seus membros e aquela falta de ar seriam apropriados para a verdadeira noiva de
Michael Fortune, mas no para ela, que estava recebendo horas extras para ficar sentada ali no sof com ele.
   Ela precisava urgentemente de um intervalo para recuperar seu juzo.
   ? Estou morrendo de sede. Se vocs me do licena, vou buscar um copo d'gua. ? Jlia desvencilhou-se de Michael e
ps-se rapidamente de p. ? Algum quer alguma coisa?
   Michael olhou de Faith para Ken e a cmera focalizou Jlia, que j estava saindo da sala.
   ? Vou ajudar voc a preparar uns refrescos, querida ? disse o dono da casa, correndo atrs dela.
   ? Voc no precisava ter vindo comigo ? murmurou ela. ? Eu consigo encontrar a cozinha.
   ?  ? concordou Michael. ? Mas eu no ia ficar sozinho de novo com aqueles tubares. Aqui, vem c...
   Ele a levou at a cozinha. Jlia olhou em volta, curiosa. A decorao era toda em estilo country, contrastando com o estilo
oriental da sala de jantar.
   ? Qual o problema? ? perguntou Michael.
   ? S estava admirando sua decorao ecltica ? disse Jlia
   ? No precisa dizer mais nada. ? Michael soltou um suspiro. ? Voc  bastante delicada em descrever a decorao
como ecltica. Esquizofrnica  mais apropriado ? graas  minha me.
   ? No sabia que a sua me era decoradora.
   ? E no . Mas ela teve amigos que eram. As amizades duraram apenas o tempo para cada um deles decorar um cmodo.
Como me recusei a ficar comprando coisas novas cada vez que o decorador mudava, acabei ficando com esta baguna.
   ? Eu no chamaria de baguna ? murmurou Jlia delicadamente. ? ... interessante.
   ? Minha me  uma manipuladora de primeira. Quando ela decidiu que queria usar seus amigos decoradores para
redecorar meu apartamento, decidi que seria mais fcil ficar fora do caminho. Morei num quarto de hotel enquanto ela estava
ocupada aqui e foi timo. Ela saiu do meu p.
   Jlia conseguiu rir, mas estava visivelmente desconfortvel.
   ? Vou pegar minha gua. Onde voc guarda os copos?
   ? Falar mal de mes no  seu esporte favorito, no  mesmo? Mesmo que a me seja a famosa Sheila Fortune.
   Ela balanou a cabea negativamente.
   ? No, no .
   ? Voc nunca falou sobre os seus pais ? observou Michael. ? Voc sabe tudo sobre a minha famlia, mas eu no sei
nada sobre a sua. Na verdade, no sei nada sobre a sua vida fora do escritrio.
   Jlia comeou a abrir diversos armrios at encontrar um copo. Encheu-o de gua e tomou longos goles.
   ? Se Faith perguntar,  bom que eu saiba algo sobre a sua famlia, e mais sobre voc ? insistiu Michael.
   ? No h muito a dizer. ? Jlia fitou o cho de madeira polida. ? Meus pais morreram e eu tenho uma irm. Espero me
tornar psicloga e trabalhar com crianas e adolescentes. Enquanto isso, trabalho para a Fortune Corporation.
   ? Sei. ? Michael estava desconcertado. ? Voc  jovem demais para estar sozinha no mundo.
   ? Eu tenho 26 anos ? retorquiu Jlia.? E no estou sozinha, tenho minha irm. Ela mora nos arredores de Minneapolis.
   Michael, que estava sempre cercado ? e s vezes sufocado ? por sua imensa famlia, mal conseguia entender o estado
solitrio de Jlia.
   ? Sinto muito pela sua perda ? murmurou. ? Quando eles...
   ? Obrigada ? interrompeu Jlia, educadamente colocando um ponto final na conversa.
   Michael entendeu o sinal. Sem mais perguntas. Fitaram-se por um longo e constrangedor momento.
   ? Vocs dois esto a ou fugiram? ? A voz de Faith Carlisle parecia reverberar por toda a cobertura.
   Jlia entrou em pnico.
   ? Faith est nos procurando! ? exclamou num sussurro frentico.
   ? Algo maligno se aproxima ? lembrou-se Michael da frase de Shakespeare que to bem se aplicava  reprter.
   ? O que vamos fazer? No preparamos nenhum refresco.
   ? Eu nem tenho nenhum ingrediente para preparar refrescos.
   Jlia fitou-o ansiosamente.
   ? Como vamos explicar por que ficamos aqui este tempo todo sem...
   ? No vamos explicar nada. Tenho uma idia melhor. Havia um brilho nos olhos dele que Jlia conhecia bem. Jlia no
tinha a menor dvida de que ele estaria com a mesma expresso, os olhos brilhando de vitria, quando fosse nomeado
presidente da Fortune Corporation.
   Ah, sim. Ele claramente tinha um plano em mente, mas Jlia no fazia a menor idia de qual era.
   ? Vamos deixar que eles peguem a gente fazendo o que qualquer casal recm-noivado faria ? disse Michael, sorrindo
maliciosamente. ? Estamos prestes a convencer Faith de que estamos to envolvidos um com o outro que nos esquecemos
completamente deles. Pronta?
   Michael moveu-se rapidamente na direo dela, pegando-a completamente de surpresa. Ela deu alguns passos trpegos
para trs at que seus quadris encostaram na borda da bancada.
   Ele avanou e colocou um brao de cada lado dela, apoiando as mos na bancada, deixando Jlia presa entre ele e o
mvel. Automaticamente, ela levantou a cabea. Ele estava perto, mas seus corpos ainda no se tocavam. O tamanho e a
fora de Michael, seu calor e seu perfume tomaram conta de Jlia, deixando-a tonta.
   ? Michael, eu... ? Ela interrompeu-se, abrindo os lbios, quase sem ar.
   Todos os seus pensamentos estilhaaram-se quando sentiu a boca de Michael tocar a sua.


   Captulo 7

   Jlia estava surpresa demais para se mexer. Seu chefe a estava beijando! Estava atordoada demais para reagir. Certamente
Michael no esperava que ela reagisse. Afinal, o beijo era to falso quanto o noivado.
   A voz de Faith Carlisle ficou mais prxima. Jlia sentiu os braos de Michael envolvendo-a, puxando-a para mais perto.
   ? Ela est vindo ? advertiu ele, sussurrando contra os lbios dela. ? Voc consegue fingir melhor que isto?
   ? Eu... eu acho que sim ? disse Jlia, gaguejando. Inclinando a cabea para trs, olhou nos olhos de Michael. A
intensidade que viu neles era reconfortante por ser to familiar. Michael estava sempre intensamente focado quando se
tratava de qualquer coisa relacionada  empresa.
   Aquele abrao era meramente parte de sua encenao do noivo embriagado de amor. E Michael tinha razo, reconheceu
ela. Se Faith os pegasse se beijando, no teriam que explicar a falta dos refrescos.
   ? Coloque seus braos ao redor do meu corpo ? sussurrou Michael. ? Vamos dar uma lio quela reprter metida a
besta.
   Jlia esforou-se para manter em mente que aquilo tudo era s para enganar Faith. Para terminada perseguio a Michael
pelo bem da empresa. Ela assinara um contrato para fazer o papel da noiva apaixonada.
   ? Bem, l vai. ? Jlia colocou os braos em torno do pescoo de Michael, encostando seu corpo no dele, depois
inclinou a cabea para cima.
   ? Voc parece aterrorizada ? murmurou Michael. Sentiu-se atrado por aquela relutncia. Era uma novidade e um alvio
estar com uma mulher que no queria nada dele alm do que estava previsto no contrato que haviam assinado. ? Relaxe.
Vai acabar antes que voc perceba ? acrescentou ele com um leve tom de humor na voz, seus lbios tocando os dela
enquanto falava.
   O beijo comeou como uma tentativa, as bocas roando de leve, depois se tocando por mais tempo e com mais fora. As
mos de Michael passeavam pelas costas de Jlia. Ele gostava do jeito como os seios dela comprimiam-se contra seu peito
enquanto ele a puxava cada vez mais para perto de si.
   Os dedos de Jlia afagaram o pescoo de Michael, percorrendo toda a nuca e acariciando seus cabelos. A experincia de
toc-lo no estava sendo to desconcertante quanto ela temera. Naquele momento, Michael no era seu chefe, apenas um ator
com quem ela estava contracenando.
   Seus lbios tocavam-se, grudavam-se, separavam-se, depois faziam todo o ciclo novamente. Era uma deliciosa e
inofensiva srie de pequenos beijos, e Jlia sentia-se cada vez mais confiante. Era plenamente capaz de representar aquele
papel.
   Michael afastou a boca levemente da dela.
   ? Est ouvindo alguma coisa?
   ? No. Voc acha que a dupla dinmica desistiu e foi embora?
   ? Quem dera! ? A boca de Michael roou a dela. ?  mais provvel que eles estejam roubando a minha casa.
   Jlia segurou o riso.
   ? Se estiverem, espero que levem aquela horrvel gaiola verde e os passarinhos de mentira.
   ? Eu esperava que voc no tivesse reparado naquilo.
   ?  impossvel no reparar. ? Seus olhos danavam. ? Mas eu estava determinada a ser delicada.
   ? Voc deveria ser premiada pela sua delicadeza. Seu prmio vai ser a gaiola, com os passarinhos e tudo dentro.
   ? Ah, no! Isso no, por favor! ? Jlia fingiu estar horrorizada.
   Michael inclinou a cabea e fitou o rosto de Jlia. Suas bochechas estavam coradas, sua boca macia e mida, seus olhos
brilhavam. A sensao daquele corpo quente apertado contra o seu o estava deixando enlouquecido. No conseguia tirar as
mos de cima dela, nem deix-las paradas.
   Era como se seu corpo e sua mente tivessem se separado, e seu lado fsico, sexual, tivesse assumido o controle. Suas mos
deslizaram pela curva dos quadris dela, depois pela bunda. Ele a segurou com fora, levantando-a e puxando-a para si.
   Jlia deixou escapar um grito de surpresa, que foi instantaneamente silenciado por um beijo. Os lbios de Jlia abriram-se
e a lngua de Michael penetrou-lhe a boca. Jlia sentiu seu corpo pegar fogo.
   O beijo ficou mais profundo, mais quente e faminto. Depois veio outro beijo, mais longo e mais selvagem, e depois outro,
e outro, at que se tomou impossvel distinguir um comeo ou um fim.
   Ela deslizou as mos pelos msculos rijos dos ombros dele, familiarizando-se com seu corpo, sua fora, querendo
aprender mais.
   Jlia contorcia-se sensualmente contra ele, um desejo ardente queimando dentro dela. Era algo que nunca experimentara,
suas coxas envolveram uma das dele, aumentando a intimidade da posio j bastante ntima. Um forte calor percorreu seu
corpo, suas pernas ficaram bambas e ela teve que se agarrar a Michael para sustentar-se.
   Perdida num torpor sensual, sucumbiu ao desejo que tomara conta de seu corpo. Queria que no estivessem na cozinha
iluminada; queria que no estivessem de p. Seria maravilhoso deitar com ele na escurido do...
   ? Arr! Aqui esto vocs! ? declarou Faith Carlisle triunfante.
   Michael e Jlia separaram-se num pulo.
   De p ao lado de Faith, Ken ainda estava gravando.
   ? Desligue essa coisa ? ordenou Michael.
   Jlia agarrou a borda da bancada, com o corao prestes a explodir. Sem coragem de olhar para Michael, fitou
inexpressivamente a reprter, que observava os dois com grande interesse.
   ? No se preocupem, no vamos mostrar nenhuma cena de vocs dois se agarrando ? prometeu Faith. ? S uns
beijinhos.
   ? A gente no estava se agarrando ? resmungou Michael. ? A gente estava... ? O beijo comeara como uma farsa e
acabara virando outra coisa completamente diferente.
   Ele lanou um olhar rpido e discreto para a assistente e sentiu uma onda de pnico misturado com arrependimento.
Tomara Jlia Chandler em seus braos e a beijara, e de repente cada um dos nervos de seu corpo entrara em curto-circuito.
   Quando fora a ltima vez que beijara uma mulher e perdera a cabea? Alarmes mentais pareciam ter disparado, levando-o
de volta ao tempo de Dalila DeSilva.
   Michael franziu a testa. Era ctico e experiente demais para acreditar que um beijo significa algo especial.
   Nada disso, porm, explicava sua reao explosiva ao pequeno interldio sexy armado por ele e por Jlia. Michael sentiu-
se frustrado e confuso. Eu no quero Jlia, disse a si mesmo, embora seu corpo ainda latejasse, provando o contrrio. Sua
vontade iria prevalecer!
   ? No se apressem, organizem seus pensamentos ? disse Faith com um sorriso malicioso. ? Ken e eu no nos
importamos de esperar.
   Como Michael estava parado e mudo, Jlia percebeu que cabia a ela lidar com a equipe de reportagem.
   ? Mil desculpas, Faith. ? Sua voz estava rouca e grave. Limpou a garganta, corando. ? Ns, ahn, meio que nos
distramos e...
   ? Ns percebemos ? disse Faith. ? Esqueam o caf ou o que quer que seja. A gente pode terminar isto depois de s
mais umas perguntinhas. Prontos?
   Jlia fez que sim com a cabea e olhou para Michael, que encolheu os ombros.
   ? Quando  o casamento? ? perguntou Faith, enquanto Ken comeava novamente a filmar.
   Jlia olhou para Michael, que estava fitando o nada, claramente no prestando a menor ateno  conversa.
   ? O casamento ? repetiu ela, quando ficou bvio que Michael no tinha a menor inteno de responder. ? Ns ainda
no temos uma data definitiva. Vamos simplesmente desfrutar da vida de noivos por um tempo, no , Michael?
   Estar perto dela tinha um efeito afrodisaco sobre ele. Agindo por puro impulso, envolveu a cintura de Jlia com seus
braos e puxou-a para si. Aninhou seu nariz no pescoo dela, saboreando a doura do momento, ignorando Faith e a cmera
que os filmava.
   ? No , Michael? ? repetiu Jlia, um pouco mais alto.
   ? O que voc disser est bom, querida.
   Jlia sentiu o membro enrijecido de Michael comprimido entre suas ndegas. Inspirou profundamente, lutando contra a
vontade de afundar-se contra ele. Aquele joguinho deles estava comeando a sair do controle.
   Ela forou-se a olhar para a cmera e a falar dirigindo-se a Faith.
   ? Neste caso, eu digo que o casamento vai ser em maio. Eu sei que  piegas, mas sempre quis ser uma noiva de maio.
   ? Isto vai dar a vocs bastante tempo para cuidar dos preparativos ? disse Faith em tom de aprovao. ? Vocs
gostariam de dividir seus planos com a gente?
   Jlia foi tomada por um impulso travesso bastante atpico.
   ? Ser uma extravagncia ? segredou.
   Atrs dela, Michael estava tenso. O diabinho dentro dela cresceu. Se Michael persistisse em faz-la carregar o fardo
daquela entrevista, ento teria que sofrer as conseqncias.
   Ela sorriu para Faith.
   ? Conhecendo Michael, sei que ele vai insistir para que seja grandioso, voc sabe, milhares de convidados, esculturas de
gelo no gramado, uma tenda listrada multicolorida, uma orquestra completa, jantar com sete pratos diferentes. Talvez at
passeios em um balo. ? Mais alguma pergunta, Faith?
   ? Vocs j escolheram o anel de noivado? ? perguntou a reprter.
   Michael caiu em si e colocou a mo no bolso do palet para pegar a caixa do anel. Explicou o legado do anel de rubi,
deixado por sua av.
   ? O anel teve que ser ajustado para o dedo de Jlia ? mentiu. ? Mas est pronto para ela usar agora.
   Ken deu um zoom em Michael colocando o anel no dedo de Jlia.
   Depois de mais alguns minutos de conversa  toa, Faith encerrou a entrevista. A reprter estava muito mais simptica
quando ela e Ken partiram. Jlia os acompanhou at elevador.
   ? Isto  confidencial. Estritamente de mulher para mulher ? disse Faith a Jlia enquanto esperavam a chegada do
elevador. ? Voc vai morar aqui depois que voc Michael se casarem?
   ? Imagino que sim ? disse Jlia.
   ? Bem, eu recomendo que voc jogue fora tudo o que est naquele apartamento e refaa a decorao do zero ? disse
Faith francamente. ? A decorao  horrvel, e aquela gaiola na sala de jantar seria a primeira coisa da qual eu me livraria.
   ? Eu concordo, mas infelizmente,  um dos objetos preferidos de Michael. ? Jlia sorriu, incapaz de resistir a sua
prpria piadinha particular.
   ? Acho que voc no vai conseguir se livrar dela, ento ? compadeceu-se Faith.
   O elevador chegou e a equipe de reportagem entrou.
   ? A histria vai passar amanh, s cinco e meia. Diga s suas amigas para assistir ? gritou Faith.
   A porta do apartamento de Michael abriu-se no momento em que o elevador desceu.
   ? A gaiola  um dos meus objetos favoritos? ? perguntou indignado, provando que estava ouvindo atrs da porta. ?
Isso foi golpe baixo, Jlia.
   ? No consegui resistir. ? Ela passou por ele e entrou no apartamento. ? E j que voc me deixou sozinha com ela,
ficou exposto a qualquer golpe baixo.
   ? Voc deu mais golpes baixos do que um lutador de vale-tudo. "Conhecendo o Michael, sei que vai insistir para que
seja grandioso, com milhares de convidados, esculturas de gelo, uma tenda listrada multicolorida, passeios de balo!"
   Jlia tentou segurar o riso, mas no conseguiu.
   ? No  engraado, Jlia. ? Mas Michael tambm sorriu.
   ? Mas pelo menos voc no vai ser um solteiro cobiado ? murmurou Jlia. Seu corao estava comeando a disparar.
Michael puxou-a para perto de si. As plpebras de Jlia caram; sua voz ficou mais rouca. ? E o sistema de correio de voz
no vai mais ficar congestionado, porque quantos escultores de gelo, balonistas e consultores para casamentos bregas podem
haver em Minneapolis e St. Paul?
   Lentamente, Michael inclinou sua cabea na direo da dela.
   ? Nunca imaginei que pudesse ser to brincalhona.
   ? Nem eu, mas toda essa situao me inspirou.
   A boca de Michael cobriu a de Jlia e ela respondeu imediatamente, sentindo-se tomada por um desejo agudo, era como
se a interrupo de Faith nunca tivesse ocorrido.
   Michael pressionou-a contra seu corpo e Jlia agarrou-se a ele, envolvendo-lhe o pescoo com os braos e instintivamente
encaixando as curvas de seu corpo nos msculos daquele corpo masculino. Pareciam encaixar perfeitamente, pensou ela.
   Ele a beijou mais forte, e ela chegou ainda mais perto, querendo mais. Michael bebia os suaves e doces gemidos de Jlia,
e sentia-se bbado de prazer.
   Podia sentir as pontas dos seios dela intumescidas, e a presso sutil e sensual contra seu peito. Um tremor de desejo
percorreu-lhe o corpo. Queria v-la, toc-la e prov-la.
   Ele deslizou as mos sobre um dos seios dela, levando Jlia  loucura.
   Sentiu a ereo dele, tesa e comprimida contra seu corpo. Jlia sentiu que ele estava perdendo o controle e ficou chocada
em perceber que seu prprio controle estava to precrio quanto o dele. Abruptamente, afastou-se dele.
   O que estava fazendo? Ser que estava louca? Jlia fitou o cho, com respirao rpida e os batimentos cardacos nas
alturas. Se continuasse deixando que ele a beijasse e tocasse deste jeito ? e se continuasse a beij-lo e toc-lo ? acabariam
na cama!
   Felizmente, seu lado mais sensato prevaleceu. Olho para o anel de rubi em seu dedo, o smbolo do fingimento dos dois.
Enganar Faith Carlisle e todo mundo nas Cidades Gmeas a respeito daquele falso relacionamento com Michael era uma
coisa, mas enganar a si mesma era algo completamente diferente.
   Havia dois contratos do tamanho de enciclopdias para lembr-la disso. Michael a considerava indigna de confiana,
gananciosa e disposta a conseguir o mximo de dinheiro que pudesse. Tinha certeza de que nunca seria uma daquelas
infelizes Mulheres que amam homens que no querem ou no conseguem am-las.
   Seus olhos desviaram-se na direo de Michael, cujo rosto estava duro e contorcido.
   ? Vem aqui ? rugiu ele irritado.
   A ordem quase a desarmou. Se no sasse rpido dali, acabaria cometendo uma "coisa estpida para acabar com sua
vida".
   ? Tenho que ir para casa ? gritou Jlia, correndo para pegar sua bolsa.
   Michael seguiu-a. Seu corpo pulsava com um desejo feroz. Era intil tentar se convencer de que no queria Jlia. Seus
olhos famintos observaram-na pegar a bolsa e dirigir-se para a porta.
   Ah, sim, ele a queria. A admisso o irritava, mas ele no acreditava em auto-engano. Seu lema era "encare o problema e
encontre uma soluo". Querer Jlia era definitivamente um problema. No entanto, naquele momento no conseguia
encontrar nenhuma soluo.
   Jlia j estava fora do apartamento, apertando o boto do elevador. Michael se juntou a ela no corredor.
   ? Tem um cdigo para liberar a trava de segurana -disse ele. ? O elevador s vai vir quando eu apertar os nmeros.
   ? Eu ficaria muito agradecida se voc apertasse agora mesmo. ? Jlia manteve os olhos fixos na porta do elevador.
   Michael no se moveu.
   ? Voc veio de carro? ? perguntou ele.
   Ela balanou a cabea afirmativamente.
   ? E onde voc estacionou?
   ? No estacionamento do prdio ? disse Jlia impacientemente. ? Michael, por favor, chame o elevador.
   ? Em que andar?
   ? Que importncia tem? ? Ela virou-se para encar-lo. ? Por que est me interrogando, Michael? Eu s quero que o
elevador venha para eu poder sair daqui!
   ? Eu no estava interrogando ningum, estava simplesmente conversando. ? Michael encarou-a e seus olhos e seu
corpo comearam a queimar com a chegada de mais uma inesperada onda de teso. Queria mandar todo aquele autocontrole
do qual tanto se gabava para o inferno e carreg-la diretamente para o quarto.
   A boca de Jlia estava seca. Queria chorar, queria bater nele, mas acima de tudo, queria estar novamente nos braos de
Michael.
   ? Acho que deveramos conversar sobre o que aconteceu aqui esta noite ? comeou Michael, mas Jlia cortou-o
imediatamente.
   ? No h nada para conversar. Acho que conseguimos enganar Faith. Agora, por favor, chame o elevador.
   Michael encolerizou-se.
   ? Por que a pressa? Voc est sendo paga por hora.
   ? O medidor parou de correr no momento em que Faith saiu do prdio ? retorquiu Jlia. ? Voc pode at achar que eu
sou uma prostituta, mas eu...
    Eu nunca disse isto! Nunca sequer sugeri isto! ? Michael ficou surpreso ao perceber que estava gritando.
   Jlia virou-se de costas para ele e ficou parada, com a postura totalmente ereta, olhando fixamente para o elevador.
   ? Tudo bem! ? Michael dirigiu-se com passos largos para o apartamento, entrou e praticamente socou os botes no
painel de segurana.
   Jlia ouviu o elevador ser acionado enquanto Michael batia a porta do apartamento. Logo depois da chegada do elevador,
ela percebeu que ainda estava usando o anel de rubi. Desanimada, apertou o boto do andar onde estacionara.
   Boa, Jlia, repreendeu-se. Voc no s deixou seu chefe furioso como tambm foi embora com o anel da av dele, o que
garante com certeza que voc vai ser assaltada hoje.
   As portas abriram-se e ela saiu do elevador, examinando o estacionamento cheio de carros. Tinha parado seu Plymouth,
modelo 1986, a aproximadamente quinze metros dos elevadores.
   Enquanto se dirigia para o carro, ouviu passos na escadaria prxima. Seu corao deu um pulo. Estivera apreensiva desde
que percebera que estava usando o anel de rubi, mas agora estava aterrorizada. A porta da escadaria abriu-se violentamente e
Jlia comeou a correr.
   ? Jlia, espere!
   Ouviu a voz de Michael ressoando pelo estacionamento deserto. Jlia parou e, virando-se, deu de cara com ele vindo em
sua direo. Uma grande onda de alvio chocou-se com a adrenalina que percorria seu sangue.
   ? Ai, graas a Deus  voc! ? Correu na direo de Michael, tirando o anel do dedo. ? Ainda bem que voc se lembrou
do anel ? exclamou sem ar. ? Eu s lembrei quando estava no elevador e tive certeza de que seria roubado.
   Ela jogou o anel na mo dele. Michael agarrou-lhe os dedos e disse irritado:
   ? No estou aqui para pegar o anel. Eu vim acompanh-la at o seu carro.
   ? No precisava ? murmurou ela. ? Embora eu esteja feliz por voc ter vindo. Assim pude devolver o...
   ?  de praxe um cavalheiro acompanhar uma dama at em casa ? interrompeu Michael. ? J que voc veio dirigindo,
o mnimo que eu posso fazer  me certificar de que voc chegue at o carro em segurana.
   ? Especialmente quando eu estou usando a herana da sua av ? disse Jlia secamente, depois sorriu para ele.
   Aquele sorriso o afetou de uma maneira que ele no queria admitir.
   ? Estou cansado de brincar de batata quente com o anel ? reclamou. ? Fica logo com a porcaria do anel no dedo, est
bem?
   Ela comeara a andar em direo ao carro e ele caminhava ao seu lado. Com uma cumplicidade silenciosa, continuaram
segurando os dedos um do outro, apertando o anel entre eles.
   ? Est bem? ? repetiu ele.
   ? No posso me arriscar. Este anel vale mais do que o meu carro, Michael. No posso me dar ao luxo de ser
responsabilizada caso ele seja perdido ou roubado e... ? Jlia interrompeu-se. ? Aqui est o meu carro.
   Michael fitou o pequeno veculo marrom  sua frente. Estava direitinho, mas de seu ponto de vista, era um calhambeque
   ? Realmente, o anel vale mais que este carro ? concordou com brutal sinceridade. ? Espero que voc use parte do seu
bnus para comprar um carro novo.
   ? Vou usar o bnus para fazer uma viagem ao redor do mundo ? disse Jlia petulantemente. ? O carro novo vai ter
que esperar at a prxima vez em que eu for paga para fazer o papel de noiva de algum solteiro cobiado desesperado.
   ? Acho que esta  a sua maneira de me dizer para cuidar da minha vida.
   ? Pensei que estava sendo muito sutil. ? Soltando sua mo da dele, tirou a chave do carro de dentro da bolsa e lanou-
lhe um sorriso demonstrando que o perdoava.
   Os dedos de Michael fecharam-se sobre o anel e seus olhos fixaram-se nela enquanto abria o carro. Fora do escritrio,
Jlia era uma pessoa muito diferente da assistente submissa e pronta a servir. L fora, no apenas no seguia suas ordens
como tambm no aceitava seus conselhos.
   Mas o sorriso dela era irresistvel. Por mais que tentasse, Michael no conseguiu no lhe sorrir de volta.
   ? Ento voc acha que conseguimos enganar Faith? ? perguntou ele, voltando a um assunto mais seguro.
   ? Acredito que sim. Acho que vamos saber amanh quando assistirmos  entrevista.
   ? Se for uma coisa bacana, ela engoliu a encenao. Se ela meter o malho, ns falhamos. ? Michael passou a mo pelo
cabelo. ? Vou dar a voc uma lista de nomes para ligar amanh de manh. Diga a eles para assistir o Canal 3 s cinco e
meia.
   ? No  uma maneira muito tradicional de se anunciar um noivado ? comentou Jlia, encolhendo os ombros. ? Mas
este no  um noivado tradicional.
   ? Definitivamente no! ? concordou Michael.
   Se este fosse um noivado tradicional, ele no estaria ali parado, vendo-a ir embora num carro do tamanho de uma lata de
sardinha. Se este fosse um noivado tradicional, ela estaria usando o anel de rubi de sua av em vez de estar temendo a
possibilidade de ter de reembols-lo por ele.
   E acima de tudo, se este fosse um noivado tradicional, ela passaria a noite com ele. Ele no teria permitido que ela fosse
embora ? ela no teria querido ir embora ? depois do calor sexual que haviam sentido mais cedo na cozinha.
   Michael conseguiu suprimir o desejo que comeava a acender dentro dele ao mero pensamento de fazer amor com Jlia.
Quanto mais longe estivesse dela, melhor seria seu autocontrole.
   Tudo estava correndo de acordo com o plano, assegurou-se. Tudo estava transcorrendo exatamente da maneira que ele
queria. Repetiu isto como um mantra enquanto voltava sozinho para sua cobertura.

   Captulo 8

   Na manh seguinte, Jlia contatou cada nome da lista de Michael. No contou a ningum o que iriam ver e ouvir. Pelos
comentrios de algumas pessoas, ela sabia que estavam achando que a reportagem relacionava-se  propaganda dos produtos
da Fortune.
   S Kristina e Sterling Foster sabiam do segredo. Sterling estava reticente quando garantiu a Jlia que iria assistir ao
programa. Kristina estava exultante e exclamou que no perderia a transmisso histrica por nada.
   Michael voou para Chicago neste dia, de modo que Jlia s o viu rapidamente. Estava acompanhado de outro executivo
da Fortune e cumprimentou-a apenas com um aceno da cabea.
   Contar s suas colegas de apartamento foi to difcil quanto Jlia previra. Talvez ainda mais.
   ? Voc est noiva do seu chefe? ? Jen ficou boquiaberta quando Jlia deu a notcia, logo antes da entrevista das cinco e
meia. ? Mas eu nunca ouvi voc tocar no nome dele, Jlia. Nem sabia que vocs estavam namorando!
   ? Eu no sabia que voc estava namorando ningum ? acrescentou Debby, atnita. ? Isto sim  que  romance secreto!
   Jlia sorriu. Odiava ter de enganar as meninas. Mentir para Faith Carlisle fora to mais simples!
   E quando olhou para Kia, Jlia encolheu-se. As duas moravam juntas h dois anos e ela sabia que Kia no estava
acreditando.
   Jlia ficou pasma, portanto, quando Kia virou-se para Jen e Debby e disse:
   ? Vocs duas no estavam aqui quando Jlia se envolveu com Michael Fortune, no ano passado. Eles terminaram no
vero ? por volta de 4 de julho, no foi, Jlia? ? porque ele no queria se casar. Parece que mudou de idia.
   Jlia engoliu em seco, lanando um olhar de gratido para Kia. Esta era a histria que iria contar s suas colegas de
trabalho, juntamente com a histria de Kristina sobre manter segredo para preservar a privacidade deles.
   ? Eu queria manter nosso, ahn, relacionamento em segredo porque no tinha certeza de como as coisas iam acabar desta
vez ? murmurou Jlia. Pelo menos no tinha que fingir estar apreensiva e desconfortvel ? realmente estava.
   ? Quem pode culp-la? Uma vez dispensada, duas vezes mais tmida ? disse Debby.
   ? Estamos to felizes por voc, Jlia ? gritou Jen.
   Os olhos de Kia encontraram os de sua mais antiga colega de apartamento.
   ? Amiga, no consigo encontrar as palavras para expressar como me sinto a respeito de tudo isto...
   Jlia sabia que ela encontraria as palavras mais tarde, depois que Jen e Debby tivessem sado
   As duas estavam sentadas na sala, tomando caf.
   ? Faith Carlisle fez uma boa histria sobre voc e seu noivo ? disse Kia, destacando a palavra. ? Sempre achei que o
noticirio deveria ser factual, mas at que um pouco de fico pode ser divertido. E voc e Mike Fortune fizeram um
excelente trabalho nos papis de um casal recm-noivado. Quando voc sair da Fortune Corporation, esquea a carreira em
psicologia, Jlia.  melhor se candidatar direto para o departamento de teatro da Universidade de Minnesota. Voc podia dar
aulas aos professores.
   ? Obrigada por no dizer nada a Jen e a Debby ? disse Jlia envergonhada. ? No era para ningum saber que o
noivado  falso, exceto Michael, a irm dele, que foi quem teve a idia, o advogado e eu,  claro.
   ? Bem, prometo que vou manter a boca fechada, embora ache que voc  louca... O que eles esto tramando? Alguma
fraude de seguro? ? continuou Kia, com a testa franzida em sinal de desaprovao.
   Jlia sorriu cheia de remorso.
   ? Nada ilegal, Kia. Juro. ? Ela contou a Kia toda a histria, comeando pela lista dos dez solteiros mais cobiados. No
esqueceu de mencionar o bnus que lhe fora oferecido nem os contratos hermticos redigidos por Sterling Foster a pedido de
Michael.
   ? Voc no devia ter assinado esses contratos, menina ? repreendeu Kia. ? A voc poderia processar o Sr. Solteiro
Gostoso por ter quebrado a promessa de se casar com voc e ganhar uma indenizao suficiente para comprar o centro de
reabilitao onde Joanna est. Mas imagino que passar a perna nos Fortune possa ser perigoso para a sade. Um nico
telefonema e eles poderiam fazer com que voc desaparecesse para sempre ? acrescentou sombria.
   ? Kia, eles no so mafiosos! ? protestou Jlia. ? Eu concordei com os termos de Michael. Ningum me forou.
Agora prometa que no vai contar a ningum.
   ?  Eu prometo, porque no quero que voc tenha que reembolsar o Sr. Milionrio com juros de cem por cento ou algo
assim. Mas voc j parou para pensar que esse joguinho pode acabar saindo pela culatra, Jlia? ? De repente Kia estava
muito sria. ? Eu vi aquelas cenas de vocs dois se beijando e vi tambm a cara do Michael Fortune quando estava olhando
para voc. Ele quer voc, e caras ricos esto acostumados a pegar o que querem.
   O corao de Jlia comeou a bater forte.
   ? Ah, Kia, Michael no quer...
   ? Quer sim ? interrompeu Kia. ? A cmera nunca mente menina. Eu sei o que vi.
   Aparentemente todos que haviam assistido aos trs minutos da reportagem tambm sabiam. A maneira como Faith
apresentara a histria e as imagens que mostrara do casal foram tanto lisonjeiras quanto convincentes ? to convincentes
que todo mundo quis entrar em contato com os felizes pombinhos.
   No dia seguinte, o escritrio de Michael foi inundado por ligaes. Felizmente, o nmero de chamadas no sobrecarregou
o sistema de correio de voz. Deram parabns, conselhos e repreenses por terem mantido o romance em sigilo. Ningum
questionou a validade do noivado.
   ? Tentar fazer qualquer coisa  intil ? reclamou Michael, chamando Jlia ao seu escritrio pouco antes do meio-dia.
? No consigo sair do maldito telefone para ler uma palavra sequer.
   ? Eu sei. ? Jlia examinou-o discretamente. No se parecia em nada com o homem apaixonado e faminto cujos beijos
deixaram-na inconsciente na outra noite. ? Mas hoje deve ser o pior dia ? disse ela tentando acalm-lo. ? Logo a gente
vai virar notcia do passado e vai poder voltar a trabalhar normalmente.
   ? Espero que voc tenha razo.
   Michael tentava arrastar os olhos para longe de Jlia, mas no conseguia. Ela estava usando o cabelo solto, do jeito que
ele gostava. Ele estava feliz por ela ter abandonado a sria trana.
   As memrias de seus beijos o perseguiam. Pensara em Jlia toda  tarde do dia anterior, durante suas reunies em
Chicago, no vo de ida e no de volta. As imagens quentes que criara como continuao do que realmente ocorrera entre eles
o mantiveram acordado pela maior parte da noite anterior.
   ? Todo mundo que conheo na empresa passou para ver o anel. ? Jlia olhou para o anel de rubi que levava no dedo.
Michael o entregara a ela nesta manh. ?  estranho fingir que estvamos tendo um romance secreto j h algum tempo.
No sei dizer se Lynn, Diana e Margaret esto acreditando ou no.
   ?  claro que acreditam ? garantiu-lhe Michael. ? Porque a nica outra explicao possvel para este anncio de
noivado  que a gente est fingindo.
   Os lbios de Jlia contorceram-se num sorriso oblquo.
   ? Acho que isto parece ainda mais improvvel que um romance secreto.
   ? S Kristina poderia pensar numa coisa dessas.
   Jlia riu.
   ?  um alvio poder deixar a fachada de noiva por algum tempo e conversar honestamente com algum.
   ? Espero que sejamos sempre honestos um com o outro, Jlia.
   A alguns passos de distncia, Michael fitou-a, observando as leves manchas azuis de seus olhos. Seus lbios eram
rosados, cheios e macios; ele sabia exatamente o quo macios.
   Michael limpou a garganta.
   ? Eu, ahn, nunca vi voc usando esse vestido antes. Voc sempre usa terninhos, exceto aquele vestido cinza-escuro,
perfeito para um funeral.
   ? Voc odeia as minhas roupas, odeia minha trana embutida e no se importa de me dizer. Mmm, talvez devssemos
repensar este pacto de honestidade ? disse Jlia secamente.
   ? Talvez eu deva dizer algo positivo ? sugeriu Michael. ? Eu gosto do seu vestido.
   ? Gosta? ? Jlia passou as mos pela saia de seu vestido listrado de preto e amarelo, mais curto e justo do que os
terninhos funcionais que costumava usar para o trabalho. ? Comprei numa liquidao no ano passado, mas no linha certeza
se era apropriado para usar no trabalho. Minhas colegas de apartamento acharam que eu devia usar algo diferente para vir ao
escritrio hoje, porque as pessoas estariam esperando depois da reportagem de ontem.
   Mordendo o lbio inferior, Jlia fitou as largas listras do tecido. Estava inexplicavelmente nervosa e no conseguia parar
de falar.
   ? Mas tive minhas dvidas a respeito deste vestido assim que cheguei. Ele me deixa parecendo uma abelha?
   ? Uma abelha? ? Michael fitou as listras brilhantes e soltou uma risada. ? Agora que voc mencionou, as cores e as
listras tm um certo aspecto "abelhesco".
   ? Eu sabia! ? Jlia estava arrasada. ? Nunca compre nada que esteja com um desconto de setenta e cinco por cento.
Existe uma razo para estar to barato, ningum mais quer!
   ? Abelha ou no, eu disse que gostei dele! ? Michael aproximou-se e colocou a mo na cintura de Jlia. ? Pelo menos
ficou justinho. ? Suas mos deslizaram pela curva do quadril dela.
   A respirao de Jlia ficou presa na garganta. Num reflexo, seus olhos voltaram-se para o rosto dele, e ela viu as chamas
azuis que ali queimavam. Antes que ela pudesse falar, mover-se ou at mesmo respirar, ele colocou a outra mo em sua nuca
e comeou a pux-la para si...
   ? Vamos contar at cinco para vocs pararem de se agarrar e se recomporem, depois vamos entrar! ? A ameaa jovial
foi feita por Nate Fortune, parado do outro lado da porta, no escritrio de Jlia. ? Um... dois...
   ? Entre, pai ? disse Michael.
   Jlia afastou-se rapidamente e foi para a janela observara luz do sol de outubro. Quando a porta do escritrio de Michael
abriu-se e quatro Fortune entraram, Jlia desejou ter um pra-quedas. Se tivesse um, teria escapado pela janela.
   Nate e a esposa. Brbara, entraram no escritrio acompanhados por Jake e Erica.
   ? Mike, querido, parabns! ? disse Brbara, abraando o enteado.
   Erica dirigiu-se para Jlia.
   ? Jlia, querida, estou encantada com a notcia do noivado.
   Jlia conseguiu produzir um sorriso nervoso. Estava desconcertada. O que se dizia para os principais executivos e suas
esposas quando se estava enganando-os?
   ? Jlia  uma garota maravilhosa! ? disse Jake entusiasmado, talvez at demais! ? A empresa tem sorte de t-la como
funcionria tambm!
   Seus elogios tambm foram um pouco exagerados. Jlia sabia que ele se lembrava de t-la chamado de bajuladora idiota e
estava tentando compensar.
   ? Obrigada, Sr. Fortune ? disse ela.
   ? Nada de Sr. Fortune! ? Jake envolveu Jlia num abrao de urso. ? De agora em diante, me chame de Jake ? ou tio
Jake, se preferir.
   Jlia sabia que nunca poderia cham-lo assim. Ele sempre seria Sr. Fortune para ela. E quando ela achou que as coisas
no poderiam ficar mais estranhas, Nate Fortune cruzou o escritrio para desvencilh-la do abrao de Jake.
   ? Voc j ficou com ela tempo suficiente, Jake. ? Os olhos de Nate exibiam seu costumeiro brilho competitivo quando
ele puxou Jlia para longe do irmo.
   ? Brbara e eu queremos parabenizar nossa nova nora ? disse Nate, arrastando-a para onde estavam sua esposa e
Michael.
   ? Jlia, querida, estamos super emocionados! ? exclamou Brbara. ? E gostamos tanto de assistir ao anncio ontem no
Canal 3. Vocs dois estavam adorveis juntos!
   Jlia e Michael se entreolharam, mas desviaram os olhos rapidamente para no rir.
   ? Foi uma publicidade excelente para a empresa, Mike ? disse Jake em tom de aprovao. ? Aposto que vai ter um
monte de gente atrs dos cosmticos da Fortune. Todas aquelas garotas querendo compr-los, esperando agarrar seus chefes,
como Jlia.
   ? Francamente, Jake. Que coisa mais indelicada para se dizer! ? repreendeu-o Erica. Ela virou-se para Jlia e Michael
com um sorriso largo e falso, seus olhos verdes brilhando maliciosamente. ? Espero que voc perdoe a... bem, vou ser
boazinha e chamar de falta de diplomacia de Jake. Jlia, ns sabemos que voc no agarrou o Mike. Uma mulher hoje em dia
no est sob presso para encontrar um marido
   ? Ningum pressionou voc a se casar, Erica ? interrompeu Jake. ? Para dizer a verdade, voc estava louca para virar
a Sra. Jacob Fortune, e durante anos estava feliz em ser definida assim.
   Os olhos de Erica estreitaram-se e ela lanou um olhar furioso para o marido.
   J os olhos de Jlia arregalaram-se aterrorizados. Eles iam brigar e mais uma vez ela estava bem no meio do campo de
guerra! Instintivamente, ela aproximou-se de Michael. Ou ele sentiu a apreenso dela ou tambm no queria testemunhar um
quebra-pau entre Jake e Erica.
   ? Como vocs sabem, eu dei a Jlia o anel que a vov me deixou. ? Michael tomou a mo de Jlia e mostrou o anel de
rubi.
   ? O anel da mame ? disse Jake em voz baixa, fitando a jia.
   A tenso foi dissipada. Os dois irmos fitavam o anel, consumidos por memrias de sua falecida me. Erica e Brbara,
tristes e quietas, tambm se lembravam de Kate.
   Jlia, sentindo-se uma farsante, tentou consolar todos.
   ? Vou cuidar muito bem do anel ? prometeu.
   ? Ns sabemos que vai, querida. ? Michael franziu levemente a testa quando Jlia removeu sua mo de cima da dele.
Estava gostando de segur-la. ? Jlia est to preocupada que algo acontea com o anel que tem medo de lev-lo para casa 
noite ? explicou ele aos outros.
   Talvez devesse pedir a Sterling que adicionasse uma clusula ao contrato, isentando-a legalmente de responsabilidade
pelo anel.
   A idia, porm, no lhe parecia muito atraente. Quando conversara com Sterling no dia anterior, o advogado fora spero,
fazendo referncias mordazes a "idiotas litigiosos, movidos a mesquinhez e parania". Michael tinha a leve impresso de que
Foster pudesse estar se referindo a ele.
   ? Toda mulher se preocupa com suas jias, Mike ? explicou Erica. ? Voc tem um sistema de segurana, Jlia? Ou
talvez um pequeno cofre?
   ? Minhas colegas de apartamento e eu mantemos um taco de beisebol no corredor ? disse Jlia. Percebendo o olhar
alarmado de Erica, acrescentou de maneira tranqilizadora ? Mas nunca tivemos que us-lo.
   Todos os cinco Fortune a encararam. Jlia estremeceu. No se dera conta de que seu tipo de sistema de segurana poderia
interromper a conversa daquela maneira.
   ? Como precauo, vou devolver o anel a Michael toda noite. O apartamento dele tem um sistema de segurana de
ltima gerao.
   ? Mas e voc, querida? ? Brbara parecia preocupada. ? Meu Deus! Ns estamos muito mais preocupados com a sua
segurana.
   ? Brbara tem razo, Mike ? disse Nate dirigindo-se ao filho. ? Como sua noiva, Jlia vai precisar de mais proteo
do que um basto de beisebol pode oferecer.
   ? Seqestro  uma ameaa real, que a famlia Fortune leva extremamente a srio ? entoou Jake sombriamente.
   ? Ningum vai me seqestrar! ? Jlia estava horrorizada. ? Minha vizinhana  bastante segura. Moro perto do
campus da Margem Leste, prximo ao...
   Os dois casais mais velhos comearam a falar ao mesmo tempo, com as vozes exaltadas e gesticulando os braos. Era
como se ela tivesse acabado de anunciar que morava num esconderijo de piratas assassinos.
   ? No posso acreditar que um filho meu seria burro o suficiente para ostentar a noiva na televiso, depois deix-la
indefesa numa vizinhana duvidosa! ? exclamou Nate.
   ? Todos os ladres, seqestradores e viciados de Minneapolis e de St. Paul provavelmente j marcaram o endereo da
garota na lista telefnica e esto planejando quando e como atacar ? acrescentou Jake.
   ? Jlia, voc notou algum seguindo seu carro quando veio para o escritrio hoje de manh? ? interrogou Nate num
tom detetivesco.
   ? Eu no venho de carro para o trabalho, pego o nibus. E no, ningum estava me seguindo ? respondeu Jlia, quase
sem ar.
   ? O que quer dizer  que no percebeu ningum seguindo voc ? corrigiu Jake.
   ? nibus! ? exclamou Erica. ? Meu Deus, como  que algum consegue andar de nibus?
   ? Eu entendo a necessidade de ser cuidadosa ? disse ela, tentando amenizar a contenda. ? Minha me costumava se
preocupar com serial killers, e insistia para que minha irm e eu decorssemos uma lista de dicas do FBI sobre como evit-
los.
   ? Isso  tudo muito bom, mas voc precisa de proteo mais intensiva agora ? disse Nate. ? Todo mundo sabe que
voc  a noiva de Mike Fortune e isto a torna um alvo, Jlia.
   ? Jlia, querida, por que voc no se muda para a nossa casa at o casamento? ? Brbara tomou a mo de Jlia. ? Ns
adoraramos passar um tempo conhecendo melhor nossa adorvel futura nora.
   ? Que idia maravilhosa! -exclamou Erica.
   ? Ah, eu no poderia! ? disse Jlia ao mesmo tempo. ? Eu... eu... ? Ela sentiu uma vontade incontrolvel de sair
correndo do escritrio.
   ? Vocs quase a mataram de susto! ? disse Michael, repreendendo seus parentes. Ela parecia to jovem e to alarmada
que ele sentiu vontade de proteg-la. ? Ela provavelmente quer terminar o noivado agora mesmo.
   Jlia se perguntou se aquilo era uma deixa. Rapidamente aproveitou-a, dizendo:
   ? Sim, eu quero ? e tirou o anel do dedo.
   Todos comearam a rir.
   ? E ela tem um timo senso de humor! Voc  um cara de sorte, Mike. ? Jake deu um tapinha nas costas do sobrinho.
   ? Sou mesmo ? concordou Michael. ? Jlia adora brincar. ? Ele passou o brao ao redor da cintura dela e puxou-a
para si. ? Ns adoramos a piada, querida. Agora coloque o anel de volta no dedo.
   Era uma ordem de Michael Fortune. Ali no escritrio, Jlia, a fiel funcionria, instantnea e automaticamente cumpriu o
comando.
   ? No queremos assust-la, Jlia. No acredito que voc esteja correndo perigo iminente, mas queremos mesmo mant-
la em segurana ? Brbara tranqilizou-a.
   ? Talvez tenhamos a tendncia de nos exaltar demais quando se trata de seqestro ? explicou Jake. ? Sabe, a nossa
famlia teve uma experincia traumatizante. A gmea da Lindsey, minha irm mais nova, foi seqestrada quando era recm-
nascida. O resgate foi pago, mas o beb nunca foi devolvido.
   ? Um beb seqestrado? ? gritou Jlia. ? Que horror! Eu no imaginava!
   ? Jake e eu ramos adolescentes, mas  algo que nunca esqueceremos ? disse Nate.
   ? No  de estranhar! O pesadelo de qualquer pai ou me  perder um filho para sempre. ? Brbara colocou o brao no
ombro do marido. ? Mike, ainda estamos tentando lidar com a morte da sua av e no queremos mais nenhuma perda
trgica nesta famlia.
   ? Voc tem que tomar as medidas necessrias para garantir a segurana da sua noiva, Mike ? interps Jake em seu tom
autoritrio de presidente. ? Mas entendo por que voc e Jlia podem no querer que ela se mude para a casa dos seus pais.
Quem precisa de babs, ahn? Eu me lembro muito bem de como  ser jovem e estar apaixonado... ? Sua voz dissipou-se e
ele olhou para sua esposa com uma expresso faminta.
   Erica no retribuiu o olhar.
   ? Ns somos todos adultos, ento vou ser direto ? interps Jake. ? Mike, por que voc no leva a Jlia logo para a sua
casa?
   ? Isso resolveria o problema da segurana ? concordou Brbara.
   E criaria inmeros outros! Jlia fitou Michael com uma expresso desesperada, implorando que ele olhasse para ela.
   ? Talvez vocs estejam certos ? ouviu-o dizer. ? Jlia pode se mudar para a minha casa.

   ? Voc perdeu a cabea? ? gritou Jlia.
   No era uma pergunta que ela teria ousado fazer vinte e quatro horas antes. Mas sua calma habitual havia evaporado
juntamente com sua usual diplomacia. Em vez assistente obediente e chefe autoritrio, agora eram conspiradores em posio
igual.
   E naquele momento, ela era uma co-conspiradora extremamente agitada, irada com seu cmplice.
   Andava de um lado para o outro do escritrio de Michael, da mesa para as janelas e de volta para a mesa.
   ? Eu no vou me mudar para a sua casa! Por que voc disse  sua famlia que eu ia?
   ? Porque eu os conheo. ? Michael sentou-se, inclinou-se para trs na cadeira e ps os ps em cima da mesa. ? Eu
sabia que no iriam sair daqui at que eu concordasse em proteger voc.
   ? Espero que eles no tenham ficado zangados por no termos aceitado o convite para almoar.
   Michael no apenas no aceitara o convite, mas o recusara terminantemente, declarando que Jlia e ele j tinham outros
planos.
   ? Eu senti que voc no ia gostar de se juntar a eles num almoo comemorativo.
   Jlia estremeceu s de pensar.
   ? Agora a gente tem que fingir que eu estou morando no seu apartamento? ? murmurou ansiosa.
   ?  Pena que o assunto do seqestro surgiu. ? Michael bateu com a ponta dos dedos no brao da cadeira. ? Quem
poderia ter previsto aquilo?
   ? Eu queria que voc tivesse previsto! Por que voc tinha que dizer a eles que a gente estava tentando manter o anel em
segurana?
   ? Eu no estou preocupado com a segurana do anel nem nunca estive ? retrucou Michael indignado. ? Foi voc quem
mencionou o basto de beisebol, que deixou os quatro aterrorizados.
   ? Eu disse que nunca precisamos usar.
   ? No foi bom o suficiente, Jlia. Tio Jake estava certo quando disse que a famlia fica louca quando se trata do perigo
de seqestro. E eles tm razo. Como minha noiva, voc  um alvo atraente.
   ? Eu vou ficar no meu apartamento, Michael ? informou Jlia. ? No vou ser seqestrada. Eu nem sou sua noiva de
verdade, lembra?
   ? Mas aqueles manacos no sabem disso, Jlia. Minha prpria famlia acha que somos "to adorveis juntos. E to
apaixonados". ? Ele soltou um riso de escrnio.
   ? No tem graa ? repreendeu-o Jlia. ? Me senti pssima mentindo para a sua famlia. No pareceu to ruim quando
estvamos inventando essa histria para desanimar suas fs e ajudar a empresa, depois virou um desafio enganar Faith
Carlisle. Mas ter que mentir para minhas colegas de apartamento e agora para os seus parentes... ? Ela soltou um suspiro. ?
Estou me sentindo uma canalha.
   ? Voc no  adepta da teoria de que os fins justificam os meios.
   Jlia pensou no pagamento do bnus que aceitara, o meio para alcanar seu fim ? o tratamento e a recuperao definitiva
de Joanna.
   ? Receio que seja. Mas nem sempre fui assim ? acrescentou com tristeza.
   ? Comigo  a mesma coisa. At que fiz oito anos e fiquei esperto.
   ? O triste  que voc provavelmente no est exagerando ? murmurou Jlia. ? Seria difcil o filho de Nate e Sheila
Fortune no virar um ctico ainda criana.
   ? Prefiro chamar de prtico. E falando da minha boa e velha me, ela ainda no telefonou, o que pode significar que ela
vir me dizer pessoalmente.
   ? Ai,  s o que me falta hoje! ? suspirou Jlia. ? Ficar cara a cara com Sheila Fortune e tentar convenc-la de que seu
precioso filhinho est noivo de mim, uma pobretona com um vestido de abelha comprado numa liquidao.
   ? No seu filhinho precioso, seu filhinho mais comercializvel ? corrigiu Michael com uma risada. ? E voc fica
tima com esse vestido. Voc parece uma abelhinha trabalhadora zumbindo sem parar pelo escritrio.
   Jlia parou de andar para encar-lo.
   ? Voc est bem tranqilo, considerando as circunstncias. Que so srias, alis.
   ? No so to srias assim. Voc precisa se soltar, Jlia. Onde est o seu senso de humor?
   ? Ou eu perdi ou o seu senso de humor est totalmente desvirtuado, porque eu no estou achando a menor graa em...
ahn! ? Jlia ofegou quando ele se levantou e agarrou-lhe os pulsos, puxando-a enquanto afundava novamente na cadeira.
Ele segurou-a com fora, e ela foi pega totalmente de surpresa. Jlia caiu bem em cima do colo dele.
   Seus rostos estavam muito prximos. Jlia viu o brilho faminto nos olhos azuis de Michael, sua boca ficou seca.
   ? O que voc estava dizendo? ? O tom de Michael era zombeteiro, mas sua voz era grave e sensual. Ele separou os
joelhos e ps as mos nos quadris de Jlia, para melhor encaix-la em seu colo.
   ? Michael ? choramingou. Podia ter sido tanto uma splica quanto um protesto. Talvez uma combinao de ambos.
Com o polegar, ele acariciou-lhe o lbio inferior e ela estremeceu, cedendo completamente.
   Sentindo sua aquiescncia, ele inclinou a cabea para beij-la. O beijo foi quente e ardente e ela reagiu de modo
selvagem, provocando-o.
   Agarrando-se a ele, Jlia arqueou as costas e deixou cair sua cabea contra o ombro de Michael. Ele aceitou o silencioso
convite intensificando ainda mais o beijo, colocando a mo firmemente sobre o seio dela e apalpando-o gentilmente.
   O prazer doce e feroz que tomava conta dela era to intenso que beirava a dor. Ela queria que aquilo parasse; queria que
durasse para sempre.
   Michael abriu os botes do vestido de Jlia e deslizou sua mo para dentro. Seus dedos mergulharam dentro do suti de
renda preto e acariciaram o mamilo intumescido.
   Jlia sentiu os efeitos da carcia em todo o seu corpo. Quando ele a mudou de posio e empurrou o vestido para o lado
para beijar-lhe o seio, ela segurou com fora a cabea dele, incentivando-o.
   Perdida numa nvoa de desejo, s percebeu que ele abrira o fecho dianteiro de seu suti quando sentiu os lbios tocando
seu mamilo trgido. Gemeu de prazer quando ele sugou-o. Ela contorcia-se nos braos dele, exigindo que ele a possusse.
   Ela desejava ardentemente ser penetrada; ele precisava penetr-la. Sua virilidade pulsava loucamente; seu corpo emanava
um intenso calor sexual. Sugava-lhe o seio enquanto deslizava a mo sobre seu abdome, pela curva de seu quadril, at chegar
em sua coxa. Ele levantou o vestido at os quadris de Jlia, ento virou o rosto para olhar suas pernas.
   Ele a fitava com um olhar faminto. Seus seios eram redondos, firmes e empinados; suas coxas torneadas abriam-se para
que as mos dele deslizassem por entre elas. Sob a meia-cala, ela usava uma calcinha de renda preta. Quem poderia
imaginar que a engomada Jlia teria uma predileo por lingerie sexy!
   Os dedos de Michael deslizaram sob a borda da calcinha e enroscaram-se levemente com a penugem no vrtice das coxas
dela. Jlia gritou o nome de Michael e arqueou os quadris, abrindo-se para ele. Ele sorriu ao tocar-lhe o sexo intumescido,
saboreando a prova fsica de que ela o queria tanto quanto ele a queria.
   Agora ele queria-a nua, quente e aberta para ele. Queria penetr-la profundamente.
   Seus pensamentos estavam to confusos quanto um computador em curto-circuito. E ento no conseguia mais pensar,
apenas gemer de prazer, sentindo a pequena e delicada mo de Jlia pressionando a parte da frente de sua cala.
   ? Eu quero voc ? disse ele num tom rspido, beijando-a com uma urgncia desesperada.
   Ela apertou-o delicadamente. Sua cabea estava girando. Mal conseguia respirar. O jeito como ele a estava tocando, como
ela o estava tocando, fazia com que Jlia se sentisse indefesa e poderosa ao mesmo tempo. Estava chocada com sua ousadia,
e igualmente chocada com seu apetite sexual.
   ? Eu tambm quero voc ? Jlia ouviu-se sussurrar. A cadeira estava ficando muito apertada. O sof de couro no canto
do escritrio os chamava, e Michael ps-se de p, levantando Jlia em seus braos, enquanto ela se agarrava a seu pescoo.
   Ele carregou-a para o sof e, nele chegando, parou por um momento, segurando-a sobre o mvel para observ-la. Ela
levantou a cabea e fitou-o. Seus olhos pareciam estar sonhando, brilhavam de paixo.
   Estavam to absortos um no outro que nenhum dos dois percebeu quando a porta do escritrio de Michael abriu-se.
Nenhum dos dois viu Kristina entrar, mas quando ela soltou um ? Uau! ? de surpresa, ambos escutaram.
   Ainda segurando Jlia em seus braos, Michael virou rapidamente a cabea para encarar a irm, que estava parada na
porta boquiaberta.
   Jlia encolheu-se, completamente mortificada.
   ? Michael, ponha-me no cho.
   Sua voz estava rouca de desejo no saciado, e o som f-lo estremecer. As mos de Michael apertaram-se em torno dela.
Mesmo com a irm ali os observando, parecia no conseguir soltar Jlia.
   Kristina deu um sorrisinho malicioso.
   ? Desculpem-me, eu deveria ter batido. Mas nunca imaginei que pudesse pegar vocs dois prestes a transar, ainda mais
bem aqui no escritrio.
   ? Cala a boca, Kristina! ? ordenou Michael asperamente. ? E sai daqui!
   Kristina nunca fora de fazer o que lhe mandavam. Ela fechou a porta atrs de si e saracoteou na direo deles.
   ? Vocs deveriam trancar a porta ? sugeriu. ? Vocs tm sorte de ter sido eu quem entrou.
   ? Eu estou sentindo vrias coisas neste momento, mas estar com sorte no  uma delas ? retrucou Michael.
   Jlia contorceu-se to vigorosamente em seus braos que ele quase a derrubou. Relutantemente, colocou-a no cho e ela
saiu correndo para o banheiro do escritrio.
   Michael afundou-se no sof, apoiando os cotovelos nos joelhos e segurando a cabea com as mos. Kristina veio sentar-se
ao lado dele.
   ? Acho que sou uma boa casamenteira ? disse, contente consigo mesma. ? Voc e Jlia so...
   ? Foi tudo parte da encenao, irmzinha. Jlia eu ouvimos voc chegando e fizemos essa cena para voc. Pensamos
que, se consegussemos enganar voc, conseguiramos enganar qualquer um. Acho que conseguimos.
   No banheiro, Jlia ouviu a explicao sarcstica e desejou que fosse verdade. Mas ela no estava atuando, e sabia que
Michael tambm no estava. Nenhum dos dois poderia ter forjado a prova fsica de seu desejo. A exploso de paixo fora
bastante real, e se Kristina no tivesse aparecido, estariam deitados naquele sof neste exato momento...
   Jlia estremeceu e bloqueou as imagens que tremeluziam em sua mente. Olhou-se no espelho e tentou pentear o cabelo
com os dedos, mas s conseguiu deix-lo ainda mais desgrenhado. Sua boca estava inchada e o batom completamente
borrado.
   Michael observou a porta fechada do banheiro onde Jlia se escondera. Kristina deu-lhe um tapinha amigvel no ombro.
   ? Voc no precisa fingir comigo, Mike. Acho legal voc estar apaixonado por Jlia. O que poderia ser mais simples?
   ? No seja ridcula! ? Michael levantou-se num pulo, como se tivesse sido ejetado por uma mola. ? Eu no estou
apaixonado!
   A porta se abriu e Jlia reapareceu. Ele a fitou com olhar esfomeado. O rosto de Jlia ainda estava corado, a boca inchada
e, embora o vestido estivesse novamente lugar, Michael conhecia os segredos que se escondiam debaixo dele. O fogo ainda
aceso em seu sexo ameaava transformar-se novamente em um incndio completo.
   Sentiu-se furioso consigo mesmo por quer-la tanto e com Jlia por faz-lo quer-la. O que poderia ser mais simples!,
perguntara sua irm insolente. Ele, porm, sabia que no havia nada mais complicado, que esta era a armadilha mais
ameaadora na qual j se metera.
   ? Vou almoar ? disse Jlia, sentindo-se aliviada de sua voz pelo menos soar calma e tranqila.
   ?  melhor voc ir com ela. Mike ? aconselhou Kristina.
   ? No! ? gritaram Jlia e Michael em unssono.
   ? Eu vou fazer umas compras depois de comer um lanche rpido ? mentiu Jlia.
   No estava com apetite nem com vontade de fazer compras, mas tinha que sair de perto de Michael. Sentia-se numa
montanha-russa emocional. Estava desorientada e queria sair dali o mais rpido possvel.
   ? Vou tirar uma hora de folga mais do que necessria das minhas funes de noiva ? acrescentou.
   ? Tire duas. ? A voz de Michael estava calma e cida, seus olhos brilhavam com uma raiva mal reprimida. ? A gente
precisa mesmo de uma folga.
   ? Bem, independentemente de vocs sarem juntos ou separados, sugiro que saiam rpido, porque a sua me est no
prdio, Mike ? disse Kristina. ?  por isto que estou aqui. Primeiro Sheila passou no departamento jurdico para torturar o
papai, mas, felizmente, eleja tinha sado para o almoo. Ento eu pedi a Caroline que desse um jeito de segur-la enquanto eu
vinha aqui avisar vocs dois. Caroline  uma verdadeira tagarela, mas por quanto tempo ela vai conseguir segurar a Bruxa
M eu no sei. E melhor vocs darem o fora, a menos que queiram fazer o papel de casal apaixonado para ela.
   ? Eu j fui. Obrigada, Kristina ? gritou Jlia, saindo correndo do escritrio.
   Desceu pelas escadas, sabendo que Sheila Fortune nunca sonharia em us-las. Pegou o elevador no vigsimo sexto andar
e chegou  recepo sem ser perturbada.
   Michael no teve tanta sorte. Estava parado em frente a um dos elevadores quando a porta do elevador do lado abriu-se.
   ? Voc est noivo da sua assistente?! ? foi o cumprimento indignado que Sheila ofereceu ao filho. A partir da, o
monlogo foi de mal a pior.


   Captulo 9

    Deve ser bom estar noiva do chefe ? disse Felicia, uma das recepcionistas, quando Jlia voltou ao escritrio mais
tarde naquele dia.
   Michael lhe dissera para tirar duas horas de almoo e ela o fizera, precisando do tempo longe dele para tentar espairecer
sua mente confusa. Engolira um sanduche de queijo e depois vagou pelas lojas do shopping.
   Toda vez que pensava em Michael, seu corpo doa de desejo. E frustrao. No entendia o que estava acontecendo com
ela. Trabalhara para Michael durante quatorze meses sem que nenhum dos dois jamais tocasse o outro, ou sequer quisesse
faz-lo. Mas desde que ele a beijara parecia que no podiam ficar sozinhos por muito tempo sem se tocar. Sem se beijar. E
querendo mais.
   Jlia afundou-se em sua cadeira, sentindo todo o corpo inundado por uma combinao inquietante de teso e vergonha.
No apenas respondera aos avanos de Michael, como tambm o encorajara.
   O que iria acontecer agora?, perguntou-se. Michael deixara claro que no era contra um pouquinho de sexo enquanto
fingiam ser noivos. Ela lhe dera todas as razes do mundo para acreditar que tambm no era nem um pouco contra.
   Os pensamentos deixaram-na bastante abalada. Aquele falso noivado tinha o potencial para espelhar todos os outros
relacionamentos temporrios de Michael ? relacionamentos limitados a sexo e a sadas sociais ocasionais por um tempo
limitado. E enquanto para ele isso no tinha qualquer problema, para ela as conseqncias seriam desastrosas. Se se
entregasse a seus impulsos e tivesse um verdadeiro caso com Michael Fortune, como conseguiria continuar trabalhando para
ele quando o relacionamento acabasse?
   De que acabaria Jlia no tinha a menor dvida. Tivera quatorze meses para aprender que Michael no tinha a menor
inteno de se comprometer, e se fosse tola o suficiente para tentar se convencer de que ele poderia abrir uma exceo para
ela, tudo o que tinha a fazer era revisar a cpia do contrato de noivado.
   Nunca estivera to confusa em toda a sua vida. Pensava que se conhecia bem para saber que nunca poderia fazer amor
com um homem a menos que estivesse apaixonada por ele. No entanto, estivera prestes a pr seus valores e seu juzo de lado
para fazer amor com Michael naquela manh.
   Aquilo no era amor, era puro teso!
   Jlia suspirou alto e cobriu o rosto com as mos. Estava sentindo um teso louco por Michael Fortune e ele estava mais
do que disposto a satisfazer-lhe os desejos, pelo menos por enquanto. E se ela estivesse disposta a seguir a filosofia de "
divertido enquanto dura" dele, poderiam ter um affair quente e de curto prazo.
   Se. Uma pequena palavra, mas um grande obstculo. Se ela vivesse de acordo com a poltica de " divertido enquanto
dura", no teria permanecido virgem por vinte e seis anos. Mas ali estava, provavelmente a virgem mais velha de todo o
estado de Minnesota, que no era avessa a diverso, mas que tambm queria algo mais. Queria um relacionamento
duradouro.
   Jlia previu o que aconteceria caso se entregasse  atrao sexual que sentia por Michael. Embora seus hormnios a
deixassem pronta e disposta para transar com ele, sua cabea faria com que se apaixonasse por ele antes. E depois que
fizessem amor, ela estaria na terrvel condio de estar profundamente apaixonada por um homem que no a amava. Jlia
sabia que era uma situao deprimentemente comum. A seo de auto-ajuda nas livrarias tinha prateleiras e mais prateleiras
de livros que tratavam de amor no correspondido e necessidades no satisfeitas.
   E ela seria um caso para um livro didtico, porque quando Michael decidisse que a farsa do noivado tinha servido a seus
propsitos, acabaria com ela juntamente com o relacionamento sexual entre eles. No importaria o que ela sentisse por ele,
teria que seguir adiante normalmente, trabalhando para ele. Jlia imaginou o cenrio sombrio. V-lo todos os dias. Quer-lo
sem poder t-lo. Fazer reservas em restaurantes para ele e sua mais nova namoradinha.
   Jlia sabia que no suportaria. Alm do mais, no precisava de seu diploma em psicologia para saber que a maneira mais
fcil de curar uma dor emocional era evitar sua causa. O que significaria deixar seu trabalho para se afastar de Michael.
   Vendo desse ngulo, o dilema desapareceu. A confuso de Jlia foi banida, substituda por uma viso clara da realidade.
No podia largar o trabalho, no com Joanna dependendo dela. No faria nada para pr em risco o bem-estar da irm, e isto
significava agarrar-se a seu emprego.
   Significava tambm o fim daqueles joguinhos sensuais entre ela e Michael. No haveria mais trocas de olhares
demorados, mais toques ou beijos, e ela no se colocaria mais no caminho da tentao...
   ? Que gentil da sua parte nos honrar com a sua presena ? A voz de Michael soou, fazendo-a pular. Estava to
preocupada que no o ouvira entrar no escritrio, mas ele estava se dirigindo para ela, parecendo bastante irritado.
   Jlia ps-se de p, posicionando a cadeira entre Michael e ela.
   ? Voc me disse para tirar duas horas de almoo ? lembrou-o.
   ? Voc sabe que eu no estava falando srio. O que voc queria que eu dissesse depois daquele seu comentrio sobre
estar precisando de uma folga das suas funes de noiva?
   ? E voc disse que precisava de uma folga da nossa "proximidade sufocante" ? retorquiu Jlia. ? Voc estava
brincando quando disse isso tambm?
   ? O que voc acha? ? perguntou ele num tom spero. A maneira como ele a olhava a fez tremer de ansiedade.
   A tenso sexual pairava pesadamente entre eles. Jlia lembrou-se da promessa  irm.
   ? O que eu acho  que... que seria um grande erro retomarmos de onde paramos quando Kristina... nos descobriu ?
disse bravamente.
   ? Suponho que voc tenha passado as duas ltimas horas tentando se convencer disso.
   ? Sim ? admitiu Jlia.
   Michael franziu a testa. Ela estava certa. Depois da breve visita de sua me, passara o tempo longe de Jlia tentando
recuperar seu equilbrio. Lembrou-se de sua poltica: sexo e trabalho eram duas esferas diferentes, que nunca deviam se
encontrar.
   Mas ouvir Jlia declarar-se como estando fora dos limites dele trazia  tona instintos atvicos que nunca imaginara
possuir. Sua capacidade de racionalizar abandonou-o. Queria tomar Jlia em seus braos, carreg-la de volta para seu
escritrio e deit-la no sof; queria escutar as splicas apaixonadas e famintas que haviam incendiado seu sangue.
   Uma onda de calor aqueceu seu corpo. Michael lutou contra ela, determinado a no ceder  traioeira tentao.
   ? Bem, eu concordo com voc. ? Seus lbios separaram-se levemente, deixando os dentes  mostra.
   Jlia entendeu aquilo como uma tentativa de sorriso, mas na verdade era uma cpia bastante assustadora de um sorriso.
   ? Seria estpido cometer o mesmo erro de alguns daqueles atores de Hollywood e confundir os papis que estamos
representando com a vida real ? continuou Michael, enquanto seu sorriso de tubaro permanecia intacto.
   ? E j que nossa locao de filmagem  um escritrio no prdio da Fortune, vai ser fcil manter nossas cabeas no lugar.
Quer dizer, ns no vamos estar fazendo os nossos papis em um lugar romntico, como Paris ou o Taiti ? acrescentou
Jlia.
   ? Exatamente. Ser o trabalho de sempre, exceto quando estivermos na presena de outras pessoas.
   Jlia concordou balanando a cabea.
   ? Agora vamos tentar aproveitar o que sobrou da tarde. Ligue para Steve Gelman, em Washington, e pergunte se ele j
sabe quando a equipe da FDA vai poder se reunir com a gente. Se ele tiver uma data definitiva, me passe a ligao para eu
marcar uma reunio.
   Estava aliviada. Era assim que ela queria que as coisas fossem, assim que deviam ser.
   Michael voltou para seu escritrio, mas parou na porta.
   ? Ah, Jlia, faa reservas para a gente jantar amanh  noite. Kristina acha que  bom a gente ser visto juntos.
   ? Algum lugar especfico? ? perguntou Jlia num tom impessoal e eficiente.
   Michael sentiu uma dor peculiar. Quando olhou para Jlia, no viu nenhum vestgio de sua sorridente cmplice, nenhum
trao da mulher ardente e apaixonada que gemera em seus braos.
   Era melhor assim, insistiu consigo mesmo.
   ? Onde voc quiser ir. Para mim tanto faz. ? Encolheu os ombros indiferentemente. ? Fique  vontade para programar
uma noite de primeira classe na cidade. Voc sabe, o de sempre. No poupe dinheiro. ? Ele entrou no escritrio e fechou a
porta.
   ? Uma noite de primeira classe na cidade. Voc sabe, o de sempre ? repetiu Jlia em voz baixa. ? Traduo: ser vista
com um Fortune  certamente a maior emoo que uma plebia como voc pode ter na vida, embora para mim seja o de
sempre.
   Ela olhou furiosa para o teclado do computador. Quanto mais pensava a respeito, mais irritada ficava.
   ? No poupe dinheiro ? resmungou alto. ? Traduo: Tenho certeza que me fazer pagar um jantar no restaurante mais
caro da cidade seria o ponto mais alto da sua humilde vida de pobretona, ento v em frente, fique  vontade.
   Jlia estava tomada de indignao. Ser que era assim que ele a via?
   Quando final mente conseguiu completar a ligao para a FDA ? Steve Gelman est viajando, ligue novamente semana
que vem ? tinha se acalmado o suficiente para admitir que Michael no a insultara intencionalmente.
   Obviamente, ele pretendia que aquele falso noivado seguisse o mesmo padro chato e previsvel de seus outros
relacionamentos. Comeando com uma noite de primeira classe na cidade.
   Ele tivera centenas, talvez milhares, de noites assim. Jlia nunca tivera nenhuma, e o que seria uma novidade memorvel
para ela, para ele no seria nada extraordinrio.
   ? Onde voc quiser ir. Para mim tanto faz ? dissera Michael.  claro, ele no esperava que ela levasse o comentrio ao
p da letra.
   Onde voc quiser ir. Jlia decidiu que em vez de programar uma noite de primeira classe na cidade, programaria um outro
tipo de noite totalmente diferente.

   Michael chegou  porta do apartamento de Jlia na noite seguinte s sete horas em ponto. Fazia um calor fora de poca e
diversos estudantes passeavam pelas caladas, conversando, rindo e gritando para outros estudantes.
   Michael os observava como se fossem aliengenas de um planeta distante. Mesmo quando era ele prprio universitrio,
fora muito srio e controlado.
   A porta do apartamento abriu-se e uma jovem negra, com uma cala legging verde-oliva e uma longa camiseta de
algodo, apareceu diante dele.
   ? Eu estou reconhecendo voc da TV. Voc  o Sr. Dinheiro, chefe da Jlia.
   ? Fortune, meu sobrenome  Fortune ? corrigiu Michael, com seu sorriso mais simptico. ? Mike Fortune. E,  claro,
eu sou tambm o noivo da Jlia.
   ? , est bem! Isso tambm. ? Kia deu uma risada desdenhosa. No o convidou para entrar.
   Michael estava se sentindo extremamente desconfortvel diante da moa que o examinava sem piscar.
   ? Vou levar Jlia para jantar ? disse ele. ? Voc pode dizer a ela que eu estou aqui?
   ? Voc vai vestido assim? ? perguntou Kia incrdula. Michael olhou para seu terno azul-escuro, que estava vestindo
pela primeira vez. ? Essa cor e esse tecido s deveriam ser usados em uma sala fechada ? observou Kia. Ela encolheu os
ombros e acrescentou: ? Bem, voc  quem paga a conta da lavanderia. Jlia, seu pretendente est aqui.
   Michael pensou que ela usaria o mesmo tom se um morcego com raiva tivesse voado porta adentro. Observou-a sair da
sala de estar, ento entrou e olhou em volta. Quase no havia mveis ? um sof velho e trs cadeiras esfarrapadas. S a
televiso e o videocassete pareciam ser relativamente novos.
   Ele concluiu que o apartamento e a vizinhana eram adequados para estudantes duros, mas o que Jlia estava fazendo ali?
O salrio que ela ganhava era suficiente para que tivesse um apartamento prprio num bairro melhor. A menos que ela
gostasse da atmosfera...
   Michael deu-se conta do quo pouco realmente sabia sobre sua assistente/falsa noiva. Nem mesmo sabia que Jlia tinha
uma colega de quarto.
   Jlia entrou na sala, vestindo jeans e uma camiseta branca. Seus cabelos estavam soltos e brilhantes, e ela sorriu ao v-lo.
   O corao de Michael balanou de uma maneira estranha. Foi necessrio um minuto ou dois antes que ele percebesse a
diferena entre seus vesturios. Quando finalmente se deu conta, a colega de quarto de Jlia j se havia juntado novamente a
eles e apontado a discrepncia.
   ? Nunca vi ningum vestir terno para ir para o Festival de Arte. ? Kia balanou a cabea. ? Bem, acho que existe uma
primeira vez para tudo. E pessoas como voc fazem suas prprias regras.
   ? Acho que houve um mal-entendido ? disse Michael. Ele fez um esforo para manter a voz calma e amigvel.
   Pessoas como voc fazem suas prprias regras. As palavras dela ecoavam desagradavelmente em seus ouvidos.
Perguntou-se se Jlia tambm o via assim ? como um homem rico e mimado, acostumado a conseguir tudo o que queria.
   ? Voc disse que iramos aonde eu quisesse hoje ? lembrou Jlia num tom to amigvel quanto o dele. ?  o Festival
de Arte do bairro e  para l que eu quero ir. Kia vai com a gente. Eu disse a ela que voc no se importaria.
   ?  claro que no ? garantiu-lhe Michael, a simpatia em pessoa. ? Embora ainda no tenhamos sido propriamente
apresentados.
   Jlia apressou-se a fazer as apresentaes.
   ? Ah, e ns no precisamos nos preocupar em fingir nosso noivado perto de Kia. Ela sabe a verdade.
   Michael desistiu de qualquer tentativa de sorriso.
   ? Jlia, ns concordamos em no contar a ningum sobre...
   ? Seu advogado e sua irm sabem ? interps Kia categoricamente. ? Com isso so duas pessoas do seu lado que
sabem da verdade. Voc no acha que Jlia tem direito a pelo menos uma pessoa do lado dela que conhea todos os fatos?
   Michael percebeu a lgica do argumento, mas no gostou nada. E o fato de Jlia ter sentido a necessidade de contar a
algum a verdade sobre o noivado o deixou apreensivo. Parecia provar que ela no confiava plenamente nele. Isto o
incomodava.
   ? No se preocupe, Kia jurou manter segredo ? prometeu Jlia. ? Ela  to confivel quanto Kristina ou Sterling, eu
garanto.
   ? Eu gosto de pensar que sou muito mais confivel do que riquinhos maquinadores que usam seu dinheiro para espalhar
mentiras ? resmungou Kia.
   ? Kia, sem discurso, por favor ? interps Jlia. Ela virou-se para Michael, toda sorrisos e delicadeza. ? Kia e eu
concordamos em discordar a respeito do nosso falso noivado. Agora podemos ir? Voc no perde por esperar, Michael. Este
 o segundo Festival de Arte anual do bairro e est duas vezes maior que o do ano passado.
   ? Nunca ouvi falar ? confessou Michael. ? Imagino que tenha barraquinhas de comida alm das de arte? -perguntou
resignado.
   ? Ah, claro! ? exclamou Jlia. ? Jen e Debby, que tambm dividem o apartamento conosco, disseram que este ano tem
mais barracas de comida do que artistas!
   ? Deixe-me adivinhar o que eles esto oferecendo ? disse Michael. ? Bolos com cobertura, batatas fritas gordurosas
com chili ou queijo, uma extravagncia de calorias.
   ? J estou com gua na boca! ? exclamou Jlia. ? Vamos!
   ? Voc poderia ter me comunicado sobre esta mudana de planos, Jlia ? murmurou Michael enquanto se
aproximavam dos quarteires fechados para o trfego onde o festival estava sendo realizado.
   Estavam a p. Ele deixara o Corvette estacionado em frente ao apartamento de Jlia, onde o carro atraiu olhares de
admirao dos estudantes que passavam. Michael s esperava que eles se limitassem a olhar, sem tocar.
   ? Mas voc no me perguntou aonde a gente ia ? respondeu Jlia. ? Se tivesse perguntado, eu teria dito com prazer.
   ? Mas no com tanto prazer quanto voc est sentindo agora, se divertindo me vendo usando terno num festival de
comida. ? Michael sentiu um sorriso puxar os cantos de sua boca. Jlia conseguira pregar-lhe uma pea, e embora estivesse
um pouco aborrecido, admirara o feito dela.
   ? Correo,  um festival de arte ? lembrou Jlia.
   ? Claro! A gente acaba esquecendo dos artistas com todas essas calorias, mas olha s aquela banca de esculturas feitas
de serras. Isto  o que eu chamo de arte!
   ? Dizem que a arte est nos olhos de quem v. ? Jlia sorriu. ? Ser que aquele pssaro feito de serra no seria uma
adio interessante  sua sala de jantar? Voc poderia coloc-lo ao lado da sua gaiola.
   ? Isso foi golpe baixo, Jlia.
   Kia adiantou-se para juntar-se a um grupo de amigos.
   ? Vejo voc mais tarde, Jlia. Espero que goste do jantar, Michael ? gritou rindo.
   ? Voc acha que ela percebeu que odeio essas comidas de festivais e espera que eu morra engasgado? ? perguntou
Michael.
   ? Como voc pode odiar?  delicioso! ? Jlia dirigiu-se para uma banca que vendia algo chamado maravilha de frango,
feito com frango assado com queijo lquido, champignons, cebolas fritas, alface, tomate e uma espcie de molho branco.
   ? Mesmo quando eu era criana me recusava a comer em parques de diverso ? disse Michael, observando-a morder a
mistura. O molho esguichava para fora e escorria pelos dedos de Jlia. Com um guardanapo de papel ? ele pegou vrios na
barraquinha ? Michael comeou a limpar o lquido das mos dela. ? Eu me lembro do meu pai comprando almoo para a
gente num parque. S de ver um daqueles salsiches no palito eu ficava com os cabelos em p. Ainda fico.
   ? Pobre Michael! Eu no fazia a menor idia ? riu Jlia.
   ? No? ? Ele enfiou o dedo em um dos passadores de cinto da cala de Jlia e puxou-a, desviando-a de um garotinho
que brandia um enorme algodo-doce azul como se fosse uma espada.
   Mas mesmo depois que a ameaa grudenta havia passado, Michael no a soltou. Em vez disso, ele a puxou mais para
perto ? to perto que Jlia podia sentir o calor do corpo dele. Estava completamente zonza.
   Como a camiseta que ela usava no estava enfiada dentro da cala, o dedo de Michael deslizou facilmente sob o tecido
para acariciar seu abdome. Jlia ficou grudada no cho. O toque do polegar spero em sua pele nua era provocante. Ela
tentou se lembrar de todas as razes para manter Michael  distncia, mas seu corpo tinha suas prprias razes e bloqueou
todas as objees racionais.
   Jlia deixou-se encostar nele. Podia sentir os lbios de Michael em sua testa, a respirao dele mexendo seus fios de
cabelo... mexendo com ela. Se virasse a cabea um centmetro e levantasse o queixo, seus lbios ficariam prximos o
suficiente para se beijarem. E ela queria faz-lo, admitiu doloridamente.
   Michael estava perto o suficiente para sentir aquele tremor sensual percorrendo o corpo de Jlia.
   ? Est com frio? ? murmurou no ouvido dela, com uma voz profunda.
   A pergunta pareceu-lhe ridcula e ela deu uma risadinha rouca.
   ? No ? sussurrou ? no estou com o menor frio.
   ? Com calor, ento? ? murmurou ele. O gemido sensual com que ela respondeu fez com que o corao de Michael
batesse loucamente em seu peito. Ele queria desesperadamente sair do meio da multido, daquelas horrveis comidas e da
suposta arte e ficar sozinho com ela. Queria estar perto dela, toc-la...
   ? Jlia ? comeou ele roucamente.
   Mas no teve chance de terminar, porque vindo na direo deles estava sua prima mais nova, Rachel, filha de Jake e
Erica, a gmea idntica de Allison.
   ? Mike? ? A expresso de Rachel refletia divertimento e incredulidade. ?  voc mesmo ou eu estou ficando louca?
   ? Sou eu mesmo, Rocky ? disse Michael, tratando-a por seu apelido de infncia.
   ? Poderia ser um impostor ? brincou Rocky. ? Ningum que conhece Mike Fortune esperaria encontr-lo num
Festival de Arte.
   ? Pensei que voc estivesse em Wyoming, Rocky. -Os dedos de Michael continuavam presos aos passadores da cala de
Jlia, segurando-a firmemente. ? Que surpresa encontrar voc aqui.
   ? Era justamente o que eu ia dizer. ? Rocky sorriu. ? Este  o ltimo lugar em que eu esperaria encontrar voc, Mike.
Cercado de salsiches e churrasquinhos. Sem falar nas mas do amor e nos sorvetes de casquinha. ? Ela desviou seus
olhos sorridentes para Jlia. ? Foi voc quem o convenceu a vir aqui? Agora eu sei que ele est realmente apaixonado!
   ? Minha influncia  limitada ? disse Jlia devolvendo a brincadeira. ? Ele est presente aqui em corpo, mas no em
esprito.
   Nunca conhecera a gmea de Allison, mas ouvira falar muito de Rocky. Embora Allie fosse a porta-voz "top model" da
empresa, sua gmea idntica escolhera uma carreira bem diferente. Rocky, uma excelente pilota, herdara os avies e
helicpteros da av e fundara seu prprio servio de busca e resgate em Wyoming.
   ? Fiquei sabendo do seu noivado pela famlia, mas ainda no tive a chance de lhes dar os parabns ? exclamou Rocky.
? Mike, quero que voc me apresente imediatamente  sua noiva!
   Michael fez as apresentaes de maneira prtica e rpida.
   ? Jlia, minha prima Rocky. Rocky, Jlia.
   ? Allie me disse que voc trabalha para Mike. Quando vocs comearam a namorar? Como conseguiram esconder o
segredo de todo mundo at decidirem anunciar o noivado? ? Rocky encheu Jlia de perguntas.
   Jlia tentou lembrar-se do que haviam dito a Faith Carlisle e no conseguiu. A entrevista da TV parecia uma mancha
distante.
   ? Quando comeamos a namorar, Michael? ? Ela virou-se para ele com os olhos cinza brilhando. ? Parece que
estamos juntos desde sempre ? acrescentou com um suspiro.
   ? Boa, querida! ? murmurou Michael no ouvido dela. ? Jlia e eu decidimos que nosso caso foi amor  primeira vista
? disse ele  prima. ? Quanto a manter em segredo, foi fcil. Fomos muito, muito discretos. Agora eu quero saber de voc,
Rocky. Quando voc voltou para Minneapolis?
   ? Ontem ? disse Rocky. Seus olhos entristeceram-se subitamente. ? Minhas irms ligaram e me pediram para vir para
casa por alguns dias para conversarmos com mame e papai. Voc sabe que o relacionamento deles... ? ela pausou,
abaixando a voz ? ... no anda muito bem. Hoje, no caf da manh, eles estavam to frios um com o outro, como se mal se
conhecessem.
   Jlia estava desconfortvel, sentindo-se como uma bisbilhoteira que no deveria estar ouvindo aquelas informaes to
pessoais. Rocky no hesitara em contar aquilo a Michael na frente dela pois a considerava, como noiva de Michael, sendo
quase parte da famlia.
   ?  uma pena ? murmurou Michael. ? Mas acho que era de se esperar. A nica surpresa  o fato de eles terem ficado
tanto tempo juntos. ? Ele balanou a cabea e soltou um suspiro desgostoso. ? Casamento! Que instituio impraticvel!
   Rocky olhou-o com estranhamento.
   ? Essa  uma atitude pssima para um homem recm-noivado, Mike. ? Ela olhou para Jlia, penalizada. ? E deve ser
difcil para Jlia ouvir voc dizer essas coisas.
   Jlia e Michael se entreolharam. Precisavam urgentemente reparar aquele dano, mas nenhum dos dois estava bem certo de
quem devia dizer o qu.
   ? Ele s est falando da boca para fora ? murmurou Jlia.
   Ao mesmo tempo, Michael disse:
   ?  difcil mudar antigos hbitos. Eu costumava pensar assim, mas mudei de idia.
   ? s vezes Michael solta seu discurso anti-casamento mecanicamente ? continuou Jlia. ? Ele consegue esquecer que
o pai dele tem um casamento feliz e que meus pais tambm tiveram um casamento longo e feliz.
   Rocky levantou a sobrancelha, desconfiada.
   ? Sugiro que voc mude esse disco na sua cabea Mike.
   ? Eu concordo. Ns somos o que pensamos ? disse Jlia.
   ? Bom, eu acho que cansei de ficar aqui ? interps Michael, com um sorriso encantador. ? Ser que consigo
convencer vocs a ir embora?
   ? Desculpa, eu estou com uns amigos e a gente vai ver um filme depois de comer? disse Rocky. Ela olhou o primo de
cima a baixo e deu um sorriso largo. ? Voc certamente est elegante hoje, Mike. Um terno escuro  a roupa perfeita para
usar num...
   ? Eu sei, eu sei. J ouvi isso antes.
   ? Ns estvamos brincando de verdade ou conseqncia e a conseqncia que eu impus a ele foi usar um terno hoje ?
improvisou Jlia, rindo de Michael. ? No pensei que ele fosse usar, mas aqui est.
   ? Eu disse a voc que no ia fugir das conseqncias, querida ? disse Michael, entrando na brincadeira.
   ? Ah, Jlia, da prxima vez manda ele comer as batatas fritas com queijo e molho! ? implorou Rocky, rindo. ?
Seguidas do favorito da garotada, o salsicho no palito!
   ? Ela no quer me matar, s me dar uma lio ? interps Michael. ? No  verdade, Jlia?
   Jlia olhou para ele. Seus olhos a observavam intensamente. Ela abaixou o olhar para seguir as linhas sensuais da boca
dele. A lembrana de seu beijo fez com que a mente de Jlia virasse um branco.
   ? Bem, voc conseguiu ? continuou Michael. Os olhos de Jlia estavam nebulosos e desfocados, seus lbios levemente
separados. Sua aparncia era a mesma de quando ele estava prestes a beij-la ? sensual e gulosa.
   Michael suspirou profundamente.
   ? Quando se tratar de reservas para jantar, vou fazer pessoalmente. Nada de mandar minha assistente fazer.
   ? Acho que perdi alguma coisa, mas vocs parecem estar se entendendo muito bem ? disse Rocky alegremente. ? E
como dois  bom e trs  demais, vou procurar meus amigos e dar uma passada na barraquinha de cheesecake.
   ? Prefiro morrer do que comer qualquer coisa dessas barracas ? retrucou Michael. ? O risco de ter uma intoxicao
alimentar...
   ? Esse chato est me fazendo lembrar de umas frias que a gente passou na Disneylndia, quando Allie e eu tnhamos 8
anos ? interrompeu Rocky. ? Mike fez a gente sair do parque todas as noites para jantar nos restaurantes nutricionalmente
saudveis. At hoje no acredito que a gente foi atrs dele ? e ele s tinha 12 anos!
   ? Michael tem um jeito de conseguir que as pessoas faam o que ele quer ? concordou Jlia. Uma observao que
serviu como um lembrete para desvencilhar-se dele. E foi o que ela fez, afastando-se alguns passos dele e procurando Kia no
meio da multido.
   Ela precisava de Kia, a ncora que a prendia  realidade, que no hesitava em apontar que, ao concordar com esse falso
noivado, Jlia se tornara um mero peo no tabuleiro da vida dos Fortune.
   ? Minha colega est em algum lugar por aqui, mas no estou conseguindo v-la ? murmurou Jlia.
   ? Talvez ela esteja se empanturrando na barraca de ma do amor ? sugeriu Rocky. ? Ouvi dizer que elas esto
deliciosas, acho que vou l em vez de na de cheesecake. ? Tomando a mo de Jlia, disse: ? Estou to feliz por termos nos
conhecido, Jlia. Voc  perfeita para o meu primo. Parabns mais uma vez, Mike. ? Rocky deu um rpido beijo no primo.
? Vou voltar para Wyoming depois de amanh, mas vou estar aqui para a festa de noivado de vocs. Voc sabe que eu no
perderia de jeito nenhum!
   Rocky saiu correndo e sumiu no meio da multido, deixando Jlia e Michael olhando um para o outro. Por um momento,
nenhum dos dois disse uma palavra sequer.
   De repente, suas vozes soaram em coro:
   ? Festa de noivado?!


   Captulo 10

   ?  como tentar cancelar o Dia da Independncia ou de Ao de Graas ? reclamou Michael enquanto andava de um
lado para o outro do escritrio. ? Nunca vi minha madrasta e minha tia to determinadas. Elas esto decididas a fazer essa
festa de noivado para a gente. A festa est marcada para sexta  noite, na vspera do Halloween.
   ? Ento eu acho que  melhor a gente comparecer ? disse Jlia.
   Fazia pouco mais de duas semanas que Jlia e Michael haviam anunciado seu falso noivado. No comeo, Jlia no
percebera que a posio de noiva de Michael Fortune exigiria uma considervel mudana de imagem de sua parte.
   ? Jlia, voc precisa vestir algo... Como posso dizer isto sem ferir seus sentimentos? OK, vou ser direta: algo menos
desleixado para vir trabalhar ? anunciara Kristina no quinto dia do falso noivado.
   ? No tem nada de errado com as minhas roupas de trabalho ? declarara Jlia com franqueza semelhante. Desde o
anncio, ela comeara inconscientemente a tratar Kristina mais como uma igual.
   Jlia j fizera uma concesso em sua aparncia ? no usava mais a trana embutida que Michael odiava tanto. Mas no
iria gastar seu dinheiro em novas roupas para usar no trabalho enquanto estivesse representando seu papel de noiva de um
Fortune, e ningum iria convenc-la do contrrio.
   ? Os meus ternos so bem-feitos ? acrescentara.
   Kristina e Michael fitaram o terno bege e a blusa branca de Jlia, depois entreolharam-se.
   ? Jlia, os ternos que voc usa para vir trabalhar estariam perfeitos se voc tivesse 50 anos ? disse Kristina franzindo a
testa. ? No, no estou sendo justa com a minha me e com a tia Erica, que tm mais de 50 anos e nunca usariam um terno
como os seus. Eles seriam perfeitos se voc tivesse 65 anos e fosse uma freira.
   Jlia rira. A tendncia de Kristina de exagerar a divertia.
   ? Tudo bem, concordo que as minhas roupas so sem graa, mas so de bom gosto e apropriadas para se usar no
trabalho. Pergunte a Michael o que ele acha de assistentes que ficam correndo para l e para c de minissaias e blusas de
frente nica.
   ? Acho que Michael adoraria ver voc correndo para l e para c de minissaia e blusa de frente nica ? dissera Kristina
maliciosamente. ? Que homem quer ver a noiva vestida como uma freira de 65 anos?
   ? Eu no sou noiva dele ? declarara Jlia calmamente. ? Este noivado  s de mentirinha, lembra?
   ? Kristina tem razo. ? Michael pronunciara-se, surpreendendo Jlia. ? S tem cinco pessoas que sabem que este
noivado no  real, ento voc tem que realmente encarnar a personagem e se vestir como minha noiva, Jlia. E a minha
noiva vestiria algo mais, ahn... ? Sua voz morrera e seu rosto ficara corado.
   ? Algo mais sexy! ? gritara Kristina. ? Quem pode culpar Mike por querer que voc se valorize ao mximo, Jlia?
Voc tem um rosto lindo e um super corpo, embora faa de tudo para esconder. Agora chega! Vamos embora. Vamos fazer
umas comprinhas.
   ? No vamos no! ? declarara Jlia. ? Eu no preciso de mais roupas, tenho um armrio cheio.
   ? Acho que est na hora de fazer uma limpa nesse armrio, Jlia. ? Michael tirara diversos cartes de crdito da carteira
e os entregara  irm. ? E renov-lo. Kristina, leve-a para fazer compras.
   ? Uma ordem!? Kristina agarrara o brao de Jlia, arrastando-a para fora do escritrio. ? Quando o vice-presidente da
Fortune manda, ns compramos.
   ? Esta  a primeira vez que vejo voc to disposta a seguir ordens ? resmungara Jlia, que acabara cedendo.
   Enquanto sentava na cadeira de Michael nesta tarde, observando-o e ouvindo-o descarregar sua irritao com a tal festa de
noivado, Jlia olhou para seu novo terninho verde musgo, que era uma das roupas mais caras e bonitas que j tivera. As
outras duas tambm tinham sido cortesia dos cartes de crdito de Michael e do gosto de Kristina. Todas as trs tinham
estilos parecidos, com a parte de cima justa na cintura e saia reta e curta, o tipo de terninhos que ela vira em catlogos,
usados por modelos de pernas compridas que nunca haviam estado perto de um escritrio.
   Embora Kristina insistisse para que ela os comprasse, Jlia temera que os ternos fossem imprprios para uma funcionria.
   Mas Michael fora todo elogios e entusiasmo, e at a encorajara a comprar mais! Jlia rapidamente recusara a oferta de
mais uma farra de compras. Ainda estava tentando se perdoar por ter aceitado a primeira.
   Michael tinha padres diferentes para suas funcionrias e para sua noiva ? mesmo que ela fosse falsa. E no se
importava de pagar para alcanar esses padres.
   Ele parou de andar de um lado para outro e virou-se para Jlia.
   ? Voc parece bastante otimista a respeito dessa festa ? disse ele.
   ? Provavelmente porque ainda faltam dez dias e ela no parece real ? confessou Jlia. ? No consigo me imaginar
numa festa na manso Fortune.
   ? A manso Fortune ? repetiu Michael. ? Nunca penso nela nesses termos.
   ? Todo mundo que no faz parte da famlia pensa ? garantiu-lhe Jlia. ?  um ponto de referncia em Minneapolis,
pelo tamanho e pelo luxo. As pessoas dizem coisas como "Bom, esta casa  boa, mas comparada com a manso Fortune, 
um barraco". Eu ouo falar na manso Fortune h anos. Parte de mim est ansiosa para conhec-la ? admitiu timidamente.
   ? Voc j poderia ter conhecido. Eu convidei voc para ir l nas duas ltimas semanas e voc recusou. ? Michael
franziu a testa, ainda descontente com as recusas. Jlia declarara veementemente que no podia fazer o papel de sua noiva
aos sbados e domingos, e nada a faria mudar de idia.
   At mesmo Brbara e Erica, determinadas a dar aquela festa, submeteram-se  vontade de Jlia com respeito  data. Elas
queriam marcar o evento para o dia de Halloween, que caa num sbado. Quando Jlia disse que qualquer sbado era
inaceitvel, sua expresso era de tamanha determinao que a madrasta e a tia de Michael, acostumadas a lidar com pessoas
obstinadas e sabendo quando negociar um ponto, imediatamente transferiram a festa para a noite de sexta.
   Michael achou impressionante que, embora tivesse reclamado continuamente sobre a festa, as duas ignoraram
completamente a sua resoluo e determinao de no fazer a festa e ponto.
   ? Ns entendemos que voc seja introvertido, Mike, mas esta festa tem que acontecer ? dissera a tia, ignorando seus
protestos como se ele fosse um adolescente.
   ? Ns queremos que todo mundo, incluindo Jlia, saiba que ela  aceita pela famlia ? declarara sua madrasta. ? 
importante que a gente interfira e preencha a lacuna j que a pobrezinha  rf. Sterling nos contou sobre a morte trgica dos
pais dela.
   Sterling no lhes contara mais nada sobre Jlia, mas a informao sobre sua orfandade mobilizara a famlia. A imagem da
Pequena rf Jlia ganhando os bondosos Fortune como famlia substituta agradava a todos eles... com a bvia exceo da
me de Michael. Sheila ainda estava lamentando as chances perdidas de Michael de agarrar uma herdeira. O fato de que
nenhuma filha de um bilionrio podre de rico tivesse aparecido ainda no importava; Sheila estava convencida de que ela
estava em algum lugar, pronta e disponvel para dividir sua fortuna.
   ? Eu no estou livre aos sbados e domingos, Michael. ? Jlia interrompeu-lhe o devaneio com a mesma resposta que
dera quando ele a convidara para andar de barco.
   ? Por que no? ? pressionou Michael.
   ? No posso contar ? respondeu Jlia.
   Michael foi tomado por uma forte frustrao. O que havia de to sagrado nos sbados e domingos? O que ela fazia, aonde
ia e por que classificava esses fatos como informaes confidenciais?
   Ele agarrou-se  sua irritao e frustrao e imaginou o que Jlia fazia em seus to preciosos fins de semana. Ser que
estava se encontrando com outro homem? Um homem cuja posio na vida dela era autntica, no uma farsa? Que no
precisava pag-la por seu tempo e sua companhia?
   Aqueles pensamentos eram to desagradveis que Michael imediatamente os bloqueou. Recusava-se a ficar remoendo
sobre ela e um fantasma.
   Enfiou as mos no bolso da cala e olhou meditativamente para Jlia. Ela estava vestindo um de seus novos terninhos.
   A roupa a deixava linda, admitiu Michael, sentindo seu corpo retesar-se. O tecido justo delineava perfeitamente seus seios
firmes e redondos e ele se lembrava muito bem daqueles seios, de toc-los e prov-los durante aqueles breves momentos de
xtase ali mesmo naquele escritrio.
   A lembrana aqueceu-lhe o sangue e sua mente comeou a ficar confusa. Sentiu o suor formando-se em sua testa, embora
a sala estivesse fria. Sabia que teria que nadar algumas voltas na piscina, depois correr alguns quilmetros, at conseguir
liberar sua crescente e contida energia sexual.
   Jlia parecia calma, no demonstrando nem um pouco daquele desejo apaixonado, pensou ele ressentido. Ela no estava
ardendo de vontade de toc-lo ? ou de ser tocada por ele. Os pensamentos de Michael o levaram para a ltima vez em que a
tocara, naquela noite em que foram ao Festival de Arte, e a lembrana o excitou.
   Jlia se mantivera fora de alcance desde aquela noite. Toda vez que ele se aproximava, ela se afastava. Seus movimentos
eram lentos e sutis, mas ela sempre dava um jeito de se distanciar. O fato de terem passado diversas noites juntos tornara a
situao ainda pior, porque quanto mais tempo passava na companhia dela, mais precisava toc-la.
   Ele fizera reservas para cinco noites de semana nos melhores restaurantes. Jlia parecia ter se divertido nessas noites, e
ele se surpreendera com o quanto gostara de estar com ela. Ela era tima companhia, tinha uma conversa inteligente e
divertida, bem diferente de sua eficiente personalidade no escritrio.
   Mas os jantares foram platnicos. Nada de dar as mos, de roar as pernas de maneira provocativa debaixo da mesa, de
olhar apaixonadamente nos olhos um do outro. Em todas as cinco noites ele deixara Jlia em casa depois do jantar e eles se
despediram sem sequer um beijo no rosto.
   O que era lgico e correto, j que no eram amantes nem se tornariam amantes. Michael lembrava-se deste fato diversas
vezes por dia. Depois dizia a si mesmo como estava contente por Jlia estar sendo to sensata. Nada poderia ser mais
inconveniente que uma falsa noiva que quisesse aprofundar o relacionamento.
   Que confuso seria! O contrato que Sterling redigira provavelmente poderia ser anulado se ele e Jlia fossem para a cama.
Mas ele no precisava se preocupar com isto, graas a Jlia.
   ? Vou para a academia ? anunciou Michael, e saiu correndo como se os ces do inferno o estivessem perseguindo.
   Jlia ficou olhando pensativa para a porta que ele esquecera de fechar ao sair. Ela levantou-se da cadeira e voltou para sua
sala. Por mais que Michael detestasse a idia da festa de noivado, e embora ela no conseguisse se imaginar como uma
convidada na manso Fortune, gostava das conversas dirias que estavam tendo sobre o evento.
   Gostava de estar com Michael, admitiu Jlia. Gostava demais. Tanto que no confiava em si mesma para ficar perto dele.
Tivera muitos devaneios e muitas noites de insnia revivendo cada momento em que ele a tocara.
   Jlia pensou nos jantares que tiveram, nas reservas feitas pelo prprio Michael para que fossem vistos juntos. Para ele era
simplesmente parte do contrato, mas para ela, estar sentada com Michael numa mesa  luz de velas, com um excelente vinho
e uma comida deliciosa, era deix-la tentada ao ponto de tornar-se quase impossvel resistir.
   Tinha que ser forte, disse Jlia a si mesma. Tinha que ignorar as fascas de desejo que acendiam nela toda vez que
Michael estava perto. Tinha que se lembrar que a qumica e o carinho entre eles era to efmero quanto um sonho.
Felizmente suas visitas de fim de semana a Joanna tornavam impossveis quaisquer encontros aos sbados e domingos,
dando-lhe quarenta e oito horas para restaurar sua fora de vontade.
   Jlia soube que estava em perigo quando ficara tentada a aceitar os convites de Michael para passear de barco. At ento,
nunca sonhara em cancelar uma visita a Joanna, mas naquelas duas ltimas semanas, tivera que lutar para no fraquejar...
passear de barco com Michael ou visitar Joanna no hospital? Sua tentao lhe parecera um sinal muito perigoso. Um aviso a
ser escutado.
   Michael estava passando tempo com ela para sustentar a iluso do falso noivado. Ela concordara com a farsa porque traria
benefcios para Joanna. Nunca deveria se esquecer desses fatos, mesmo que quisesse.
   E ela queria. Desesperadamente!

   A manso Fortune estava completamente iluminada na vspera de Halloween e um fluxo contnuo de convidados chegava
para celebrar o noivado de Michael Fortune e Jlia Chandler.
   Michael mantinha o brao em torno da cintura de Jlia enquanto a guiava pelo meio da multido, apresentando-a a
pessoas cujos nomes ela ouvira e vira em colunas sociais, mas que nunca esperava conhecer pessoalmente. Toda a situao
parecia-lhe irreal.
   Jlia cumprimentou seus anfitries ? Jake e Erica, Nate e Brbara ? com a segurana e o entusiasmo de uma noiva
verdadeira. Eles realmente pareciam gostar dela, e Jlia sentiu mais uma pontada de culpa por os estar enganando. Comeara
a v-los como pessoas, no mais como semideuses, e esperava que nunca descobrissem a respeito da farsa depois do
rompimento predeterminado do noivado. Seria muito melhor deixar que os Fortune mais velhos achassem que ela havia sido
dispensada por Michael do que descobrissem que tinham sido enganados pelos dois.
   Para Michael a festa era real at demais, uma repetio de inmeros eventos sociais dos quais j participara ? e viera a
odiar ? no decorrer dos anos. Embora fizesse as apresentaes e conversasse com desenvoltura com os convidados, dividia
seus verdadeiros sentimentos com Jlia.
   ? Eu odeio festas como esta. Odeio os papos insignificantes e as piadas fteis. Preferia estar comendo salsicho e
algodo-doce no Festival de Arte ? anunciou, recusando uma mini-torta de aspargo oferecida por uma das garonetes. Mas
no desprezou a taa de champanhe que um garom lhe ofereceu.
   Jlia observou-o virar a taa e coloc-la, vazia, em outra bandeja que passava. No era o primeiro copo que Michael
tomava nesta noite. Ela no tinha certeza se era o terceiro ou o quarto, mas concluiu que sua mente j devia ter sido afetada
pela bebida para que ele desejasse estar no meio das barraquinhas de comida do festival.
   ? Acho que voc est esquecendo o quanto odiou o Festival de Arte, Michael ? lembrou-o Jlia.
   ? Pelo menos o festival tinha esculturas feitas de serra. ? Michael lanou-lhe um sorriso cmico. ? Me mostra alguma
coisa aqui que se compare com aquilo.
   ? Voc pode no dar valor a este lugar, mas eu estou me sentindo como se estivesse num cenrio de filme. ? A Manso
da Ilustre Famlia, Cena I, Tomada I.
   Michael achou a comparao divertida, mas ela estava falando srio. Aquilo no era a vida que ela conhecia. Mais uma
vez, Jlia deu-se conta da ridcula pretenso daquele falso noivado. Ela e Michael no eram apenas de classes sociais
diferentes, eram de mundos diferentes. Como algum podia acreditar que ele ficaria noivo de algum como ela? Todos os
fatos revelavam o absurdo de um noivado entre Michael Fortune e Jlia Chandler.
   Quando Erica e Brbara lhe perguntaram os nomes das pessoas que ela gostaria de convidar para a festa, Jlia no lhes
deu nenhum. O motivo era que no queria envolver mais ningum naquela farsa. A prpria Kia optara por ficar de fora,
dizendo que "recusava-se a participar de uma celebrao fraudulenta".
   Ningum questionara a falta de convidados de Jlia. As pessoas simplesmente sorriam e lhes desejavam tudo de bom.
   Ela bebericava a segunda taa de champanhe que Michael lhe entregara. Raramente bebia aquilo, e nas poucas vezes em
que o fizera, achara o gosto desagradavelmente amargo. Este, contudo, parecia-lhe leve e adocicado, e descia suavemente.
   ? O meu rosto est prestes a rachar de tanto sorrir ? resmungou Michael enquanto se afastavam da ltima roda de
convidados que haviam cumprimentado. ? E se algum fizer mais alguma analogia com a Cinderela, no vou responder
pelos meus atos.
   ? Todo mundo est sendo muito gentil. Mas quando se trata de contos de fadas, Alice no Pas das Maravilhas 
provavelmente o que chega mais perto.
   ? Esta cena especfica seria a festa de ch do Chapeleiro Maluco ? resmungou Michael.
   ? E talvez tenha um pouco da histria da Cinderela tambm ? disse Jlia alegremente. ? Eu sei que voc no gosta de
ser escalado como fada madrinha, mas o seu carto de crdito foi a varinha mgica que fez aparecer este vestido.
   Ela deu uma olhada para o vestido vermelho curto, sexy, porm elegante, que estava vestindo. Michael insistira que era
sua responsabilidade providenciar um vestido para Jlia, chegando at a ameaar trazer Sterling ao escritrio para redigir um
novo contrato especificando um vestido para a festa de noivado como parte do acordo. Jlia, lembrando-se do quo longo e
tedioso um contrato especificado por Michael podia ser, deixara que ele lhe comprasse o vestido.
   ? Voc est maravilhosa com este vestido ? disse Michael com a voz rouca. O plano de Kristina fora focar a ateno no
anel de Kate, destacando-o por meio da duplicao da cor rubi com o vestido, e mantendo assim a memria de sua av no
centro daquela noite especial.
   Mas para Michael a cor rubi no trazia lembranas de sua av. Sua cabea estava cheia com pensamentos sobre Jlia.
Pensamentos de admirao, de luxria, obsessivos, sobre Jlia. Ela estava deslumbrante com aquele vestido, exibindo uma
elegncia sensual que o deixava tonto. Ele aceitara os cumprimentos dos homens presentes; tambm teve vontade de socar
alguns deles por babarem abertamente por Jlia.
   ? L est sua tia Rebecca ? disse Jlia, agarrando-lhe o antebrao. Estava feliz em ver um rosto conhecido, algum a
quem no precisaria ser apresentada.
   Michael foi tomado de um calor intenso. Esta era a primeira vez que Jlia o tocava em semanas e Michael lembrou-se do
momento em que ela tocara uma parte bem mais ntima de seu corpo. Neste momento, ele no estava a fim de conversar com
sua tia preferida. Queria ter uma conversa privada com Jlia. E queria que a conversa levasse a algo ainda mais privado...
   Rebecca estava sorrindo e caminhando na direo deles. Ela estava acompanhada de um homem alto e musculoso, que
Michael reconheceu como sendo Gabriel Devereaux, um detetive particular que Rebecca contratara para investigar o
acidente com o avio de Kate.
   ? Jlia! ? exclamou Rebecca, tomando-lhe as mos. ? Voc est linda, est parecendo...
   ? Por favor, sem referncias  Cinderela, Rebecca ? advertiu Michael. ? J ouvimos o suficiente por hoje.
   ? Eu nunca faria uma coisa dessas ? disse Rebecca. ? Eu acho que a histria de vocs est mais prxima de A Bela e a
Fera.
   Rebecca apresentou Gabe a Jlia, explicando que ele era um detetive particular, no seu acompanhante.
   ? Sei ? disse Jlia, intrigada. ? Voc est aqui esta noite trabalhando num caso, Sr. Devereaux?
   Devereaux encolheu os ombros.
   ? Na verdade no.
   Ele era um homem de poucas palavras. Depois de trocar mais alguns gracejos com Rebecca, Jlia e Michael afastaram-se
lentamente.
   ? Esta noite no est sendo to ruim quanto pensei que seria. Eu me lembro de um encontro muito ruim que tive, em que
o cara no falava nem fazia contato visual. ? Jlia riu recordando-se. ? Ele disse oi quando chegou na porta e depois no
disse mais nada durante toda a noite. Eu tive que falar pelos dois, e, voc sabe, eu tambm no sou o que se pode chamar de
uma grande conversadora.
   ? Voc sempre conseguiu segurar muito bem seu lado da conversa comigo ? disse Michael, virando mais uma taa de
champanhe.
   ? Ah, mas isso  diferente ? disse Jlia, terminando sua prpria taa. ? Voc  meu chefe. E a gente no est
namorando de verdade, ento no tem... bem, voc sabe... aquela presso.
   ? Os caras com quem voc sai te pressionam para transar? ? O pensamento deixou-o indignado.
   ? No! ? O rosto de Jlia ficou da cor de seu vestido. No foi isto que eu quis dizer. Eu estava falando da presso
social, sabe, de manter a conversa e...
   ? Michael, quando  que voc pretende me apresentar  sua noivinha? ? A voz inconfundvel de Sheila Fortune soou
atrs deles.
   ? O-ou! ? resmungou Michael em voz baixa. ? Falando em presso social, prepare-se para uma dose cavalar.
   Os Fortune no queriam convidar Sheila para a festa de noivado, mas depois da insistncia de Michael, cederam s regras
da etiqueta e estenderam um convite  me do futuro noivo. Embora ele estivesse ciente da propenso de Sheila para agitar
as coisas, como filho no poderia esnob-la publicamente.
   Ele e Jlia viraram-se e a encararam sorridentes.
   ? Voc j conhece Jlia, me ? disse Michael. ? Voc a viu diversas vezes no meu escritrio.
   ? Aquela garota no seu escritrio mais parecia um ratinho ? disse Sheila, olhando Jlia de cima a baixo. ? Ela chegava
a se misturar com o papel de parede de to sem graa. Eu nunca conseguia me lembrar como era a cara dela, ento no me
lembro de t-la conhecido.
   Sheila Fortune continuou a examinar Jlia com seus olhos assustadores. Eles eram acentuados por seu vestido azul-
piscina, sem dvida carssimo. Contudo, o vestido de Sheila era um pouco escandaloso demais e brega demais. As jias
espalhafatosas e o cabelo armado tambm no ajudavam muito. Ela tinha uma aparncia falsa e seu ar de superioridade era
perturbador.
   Mas era a me de Michael e Jlia fora criada para ser educada.
   ? Ol, Sra. Fortune ? disse, mantendo o sorriso. Sabia que Sheila insistia em ser chamada assim apesar de seu divrcio
ter ocorrido a quase um quarto de sculo.
   Sheila sacudiu a cabea e seus longos brincos de diamantes bateram contra seu pescoo.
   ? Voc est grvida? ? perguntou abruptamente.
   ? Me! ? exclamou Michael ofegante. ? De todas as...
   ? No, no estou ? disse Jlia rapidamente.
   ? Voc no precisa mentir para mim. Eu no sou a Erica nem a Brbara, que fingem ser amveis e sinceras. R! Todo
mundo j pensou nisso, mas eu sou a nica honesta o suficiente para perguntar. Por que outro motivo Michael estaria se
casando com a secretria dele ou o que quer que voc seja? No posso acreditar que vou ser av. De novo! ? acrescentou
    Sheila mal-humorada.
   ? Eu no vou ter um beb. Nunca sequer fomos para a cama juntos ? Jlia deixou escapar, depois colocou as mos no
rosto corado, terrivelmente envergonhada.
   ? Ento esta  a sua estratgia? Se fazendo de difcil? Se guardando para um anel de casamento? ? Os olhos de Sheila
estreitaram-se. ? Voc  bem mais esperta do que eu esperava, Julie. Aquelas suas roupas certinhas eram s um disfarce,
ahn? Uma ttica eficaz. Ver uma mulher mudar de um ratinho tmido para uma leoa sensual  intrigante. Ah, posso at
imaginar como voc fez, abrindo alguns botes para deixar as curvas  mostra, subindo um pouquinho a saia para exibir as
pernas e...
   ? Me, pare com isso agora! ? ordenou Michael. ? E o nome da minha noiva  Jlia, no Julie.
   ? Eu no vou parar at terminar o que tenho para dizer. Como me, tenho direito. ? Sheila lanou um olhar irado para o
filho. ? Ento a certinha da Julie lanou a isca e voc mordeu direitinho, no foi? Ah, Michael! Apesar de que quando no
est bancando a secretria competente, ela at que  uma menina atraente ? disse Sheila de m vontade. ? Esse vestido que
ela est usando deve ter lhe custado uma grana preta, Mike. Eu sei que foi voc quem comprou para ela. Aquela nojentinha
da Kristina contou a Jane tudo sobre as idas ao shopping com Julie e sobre como voc pagou tudo. Francamente, estou
abismada. Voc jurou que nunca mais compraria presentes para mulheres depois que aquela vadia da Dalila te fez de bobo.
   ? Aquilo no tem nada a ver com a situao atual ? disse Michael.
   ? Talvez sim, talvez no ? Sheila encolheu os ombros e olhou para Jlia. ? Voc conseguiu agradar toda a famlia, no
conseguiu, Julie? E apesar de estar usando o anel de rubi da av do Mike, vocs ainda no foram para a cama. ? Ela deu
uma risada. ? Tenho certeza de que voc no vai transar com ele at estar com a aliana de casamento segura no dedo. Ah,
eu conheo tudo sobre o seu tipo, com a aparncia de doura e a mente calculista de um advogado especializado em
divrcios. Se voc no tivesse posto as garras no meu filho, eu chegaria at a admir-la, Julie. Pediria a voc que desse
alguns conselhos tcnicos  minha filha, Jane, que no tem a menor idia de como lidar com os homens.
   Jlia no disse nada. Ela no tinha a menor idia de como lidar com Sheila Fortune.
   ? Me, voc entendeu tudo errado ? disse Michael. ? Quero que voc pea desculpas a Jlia e...
   ? Pedir desculpas por qu? ? Sheila levantou a voz. ? Eu estava parabenizando a menina. Ela demonstrou ser muito
mais esperta que voc, Michael.
   ? Tia Sheila! Que bom ver voc! ? Rocky Fortune correra para o trio e jogara os braos em volta de Sheila. ? Voc
est linda, como sempre,  claro!
   Por cima do ombro, Rocky piscou para Michael e Jlia. Ela notara a crescente tenso e correra para dissip-la.
   ? Tia Sheila, essa cor  perfeita para voc! ? exclamou Rocky com entusiasmo. ? Ningum consegue usar tons de azul
to bem quanto voc.
   Pavoneando-se, Sheila concordou.
   ? Azul  a cor que cai melhor em mim. E voc tambm est linda, querida. To natural! Eu vi a sua irm gmea e aquele
vestido dela  glamouroso demais para uma festa de famlia. Mas, Rocky, querida, voc est perfeita! Aposto que voc
comprou seu vestido direto da prateleira numa daquelas lojas de shopping, no comprou? Provavelmente numa liquidao.
Voc  to prtica!
   ? Obrigada, tia Sheila ? disse Rocky num tom angelical. Aproveitando que Rocky conseguira distrair sua me, Michael
puxou Jlia para longe das duas.
   ? Rocky realmente est no ramo certo. Ela tem vocao para encontrar pessoas que precisam ser resgatadas ?
murmurou, olhando por cima do ombro e observando sua prima ouvindo pacientemente enquanto Sheila falava sem parar.
   ? Seja nas florestas de Wyoming ou na manso Fortune, Rocky nunca falha ? concordou Jlia. Estava grata por ter sido
salva daquela terrvel conversa com Sheila. ? A sua me parece gostar da Rocky ? acrescentou. Aquilo a surpreendera.
Pensava que no gostasse de ningum.
   ? Rocky sempre foi simptica e minha me nunca teve motivo para invej-la. Quando era criana, Rocky mais parecia
um garotinho, independente, aventureira, e agora pilota avies.  a irm gmea dela, a Allie, que incomoda minha me. Allie
sempre atraiu muito a ateno dos homens e acabou virando uma modelo de sucesso. Um pecado imperdovel aos olhos de
Sheila Fortune.
   ? Algumas mulheres vem as outras como concorrentes, no importa sua idade.
   ? Voc v? ? perguntou Michael abruptamente. A pergunta surpreendeu Jlia.
   ? No, por qu?
   ? Ento voc no  do tipo competitivo ou ciumento? Se outra mulher se pendurasse em mim, voc no se importaria?
   Jlia surpreendeu-se. Suas conversas com Michael, embora curtas e desconexas devido s constantes interrupes nesta
noite, tomaram um rumo inesperado.
   ? Eu no teria o direito de me importar ? lembrou-o. ? Mas se uma mulher se pendurasse em voc hoje, os convidados
achariam estranho, considerando que esta  nossa festa de noivado.
   A tentativa dela de melhorar o humor subitamente sombrio de Michael fora intil. Michael franziu a testa e desviou o
olhar. Confusa, Jlia pensou no que dizer em seguida. No esperava que ele ficasse mudo e pensativo depois de alguns
    drinques... ou pior, que virasse um grosseiro.
   ? Oi! ? disse Kristina juntando-se a eles. ? Vi que vocs escaparam ilesos da Sheila, graas  nossa corajosa Rocky.
Sheila te tratou muito mal, Jlia?
   ?  Para falar a verdade, ela at me elogiou. ? Jlia olhou de Kristina, que estava felicssima em ver, para Michael, ainda
emburrado. Ela tentou novamente faz-lo sorrir. ? Sheila disse que eu sou mais esperta do que o Michael.
   Michael no riu, mas Kristina sim.
   ? A grande sacerdotisa da manipulao elogiou sua esperteza?
   Kristina notou o silncio de Michael.
   ? O que houve, Michael? ? quis saber ela. ? Voc deveria estar feliz pela sua farsa estar funcionando to bem. Vocs
enganaram todo mundo nesta festa, e olha que isto no  pouco! Mas voc est com uma cara de...
   ? Eu odeio a msica que a banda est tocando, est bem? ? interrompeu Michael. ? J ouvi alarmes de carro com um
som mais agradvel. Quem contratou essa porcaria de banda? Eles tocaram Electric Slide duas vezes na mesma hora!
   Kristina olhou-o com estranhamento.
   ? Voc parece o vov reclamando do declnio do teatro musical. ? Ela virou-se para Jlia. ? Nosso av Ben
costumava dizer que nenhuma boa msica tinha sido escrita desde o tempo de Jerome Kern.
   ? Estou comeando acreditar que ele tinha razo ? resmungou Michael.
   ? Michael realmente no  f de Electric Slide ? explicou Jlia.
   ? Tudo bem, mas tambm no precisa ficar to revoltado! ? disse Kristina.? Est bem, irmozo, vou falar com a
banda agora mesmo.
   Depois que Kristina se afastou, Jlia e Michael ficaram em silncio. Ela lanou um olhar oblquo na direo dele. Ele
estava olhando para o nada, com a expresso distante e indecifrvel. Jlia tinha certeza de que todo aquele mau humor no se
devia apenas ao fato de ele ter ouvido Electric Slide duas vezes na mesma hora.
   ? Voc parece estar num daqueles encontros horrveis sobre os quais estava me contando mais cedo. ? O tom de
Michael era zombeteiro. ? A presso social est te incomodando? Eu no estou fazendo a minha parte para manter a
conversa tranqilamente?
   ? Eu estou tendo dificuldade em seguir esta conversa. Acho que voc est bravo comigo, mas no sei por qu.
   Ele no teve tempo de responder. Vinda da outra sala, uma voz soou no microfone.
   ? Acabaram de me dizer que o noivo tem alguns pedidos especiais. Ento, de Mike para Jlia...
   A banda comeou a tocar a cano romntica de Jerome Kern All The Things You Are. Entre comentrios brincalhes,
oohs e aahs, Jlia e Michael foram praticamente forados a ir para a outra sala e danar.
   ? Vou matar Kristina ? disse Michael, irritado.
   ? Podia ser pior ? disse Jlia. ? E se ela tivesse pedido para eles tocarem Electric Slide de novo?
   Michael fez um som que era meio risada, meio grunhido. Conduzindo Jlia para o meio da pista de dana, puxou-a para
seus braos.


   Captulo 11

   ? Finalmente esto tocando msica de verdade ? Sterling Foster estava na varanda, olhando por uma janela para o
jovem casal que danava do lado de dentro. Ele estava escondido pelos arbustos e pelas plantas que enfeitavam a parte
externa da casa.
   Com ele estava Kate Fortune, bem viva, ao contrrio do que acreditava sua famlia. Kate sobrevivera ao acidente e,
seguindo o conselho de Sterling, decidira "ficar morta" por algum tempo. O acidente tinha todos os indcios de sabotagem, e
eles achavam que, at os fatos serem descobertos, ela estaria mais segura "morta" do que viva.
   ? Eles formam um casal to bonito, no formam, Sterling? ? Kate observava o neto e sua falsa noiva. ? Nunca vi Mike
olhar para uma mulher assim. Ele est apaixonado, Sterling. E eu no podia estar mais feliz. Ela  uma moa to querida!
   ? Infelizmente, seu neto  um tapado! ? declarou Sterling sem rodeios.
   ? Isto foi desnecessrio, Sterling ? ralhou Kate. ? Mike  extremamente inteligente e...
   ? Ele  um gnio dos negcios, admito, mas em se tratando de mulheres, ele no consegue separar o joio do trigo. Eu sei
que voc tem grandes esperanas para ele e Jlia como casal, mas voc vai ter que se preparar para se decepcionar, Kate,
porque eu no acho que v acontecer. No com aquele contrato pairando sobre eles. Kate suspirou.
   ? Pelo que voc me disse, tenho que concordar que o contrato que Mike fez voc redigir , bem, insultuoso talvez...
   ? Talvez no, Kate.  insultuoso. Eu sinto vergonha de ter sido parte dele. Se voc tivesse lido... ainda bem que no leu.
O maldito contrato cheira a desconfiana e ceticismo, e se eu fosse Jlia, teria mandado o Michael passear. Mas ela no tinha
essa opo, porque est cuidando da irm mais nova.
   ? Voc me disse que foi ao hospital para verificar as coisas ? lembrou-o Kate. ? Voc quer dizer que foi verificar se a
histria dela era verdadeira? Francamente, Sterling, e ainda acusa Mike de ser desconfiado e cnico!
   ? Como advogado,  meu trabalho no deixar furos ? disse Sterling, defendendo-se. ? Fui ao centro de reabilitao e
tudo o que Jlia disse  verdade. A irm dela quebrou quase todos os ossos no acidente de carro, incluindo o crnio em
algumas partes. Ela  totalmente dependente de Jlia, que moveu cus e terra para dar  menina o melhor tratamento
possvel. A equipe do hospital no se cansou de elogiar a devoo de Jlia a Joanna. Praticamente todo centavo que ela
ganha, incluindo o bnus,  usado para pagar as contas dos mdicos.
   ? Pobrezinhas! To jovens e j tiveram que passar por uma tragdia dessas ? murmurou Kate.
   ? Jlia conseguiu superar a tragdia que sofreu ? proclamou Sterling. ? Como advogado dela, pro bono,  claro, nunca
me senti mais orgulhoso de um cliente.
   ?  A Jlia  dedicada, leal, forte e carinhosa ? disse Kate sorrindo. ? A mulher perfeita para o meu neto.
   ? A garota  um anjo, e Mike a tratou como se fosse uma combinao da me dele com Dalila DeSilva. ? Sterling
sentia-se ofendido por sua nova cliente. ? Talvez Mike um dia perceba o verdadeiro valor de Jlia. Talvez chegue at a
admitir que a ama, mas ento vai ser tarde demais. Jlia tem um forte senso de orgulho que no vai deixar que ela se permita
ser maltratada por ningum, nem mesmo por um Fortune.
   ? E se ela o amar, Sterling?
   ? s vezes o amor no  suficiente, Kate. Concordo que Jlia seria a melhor coisa que poderia acontecer ao Mike, mas
ele se comportou de tal maneira que no acho que ela vai...
   ? Voc est pegando muito pesado com o pobre Michael. ? Kate franziu a testa. ? Eu acredito que, apesar do dano que
o divrcio de seus pais e as intrigas de Sheila lhe causaram, o meu Mike tem amor suficiente para dar e...
   ? Voc anda lendo romances demais e assistindo a muitos filmes sentimentais, Kate. ? Foi a vez de Sterling
interromper. ? Michael  um homem amargo, e  improvvel que seja redimido pelo verdadeiro amor.
   ? No vou mais ouvir nenhuma palavra negativa, Sterling. ? Kate cruzou os braos e voltou a observar Michael e Jlia
pela janela.
   Eles estavam danando muito, muito perto um do outro, e Kate olhava encantada enquanto Jlia deslizava os braos em
torno do pescoo de Michael.
   ? Daqui a pouco tempo esse noivado vai passar a ser de verdade e Mike vai pedir a voc para rasgar aquele horrvel
contrato. Tenho certeza ? acrescentou Kate num tom determinado que Sterling conhecia bem.
   ? Nada me deixaria mais feliz, mas...
   ? Nada de "mas". Eles vo... -ou! ? Kate abaixou-se rapidamente. ? Acho que Michael me viu.
   ? O qu? ? protestou Sterling. ? Deus do cu, Kate, eu disse para voc no vir, mas voc me escutou? No! Quis vir
de qualquer jeito...
   ? Fique quieto, Sterling. E acalme-se.
   ? Temos que tirar voc daqui imediatamente, Kate! ? Sterling agarrou-a pelos braos e arrastou-a para longe das
janelas. Eles serpentearam pelos arbustos, tomando cuidado para no serem vistos.
   ?  Bisbilhotando, fugindo sorrateiramente... estou me sentindo como se estivesse num daqueles filmes B ? reclamou
Sterling. ? No sei como deixo voc me convencer a fazer essas...
   ? Por favor! ? ordenou Kate. ? Estou feliz por ter vindo. O risco valeu a pena, Sterling. Se Mike me viu, s Deus sabe
o que ele deve estar pensando...
   Dentro do salo, Michael tomou um susto visvel e congelou. Os outros casais continuaram danando ao som das
melodias lentas e romnticas. At um momento antes, Michael e Jlia tambm estavam danando ? agarradinhos, movendo-
se lentamente num torpor sensual.
   At que ele vira o rosto de sua av na janela!
   ? O que houve, Michael? ? perguntou Jlia. Seus braos estavam ao redor do pescoo dele; ele mesmo pedira que ela
os colocasse ali.
   ? Coloque seus braos em volta do meu pescoo ? sussurrara ele, e ela obedecera imediatamente, aninhando-se no
corpo dele.
   Seus corpos se encaixavam de uma maneira perfeita. Jlia estava consciente de cada respirao dele, pois sua prpria
respirao tomara-se trmula e superficial. Seus seios estavam formigando, comprimidos contra o peito de Michael; suas
coxas roavam de maneira provocante enquanto danavam.
   Michael inalara profundamente e afundara seus lbios no pescoo dela. Era isso que ele estava querendo h semanas. T-
la em seus braos. Estar perto dela e sentir sua maciez, seu calor. No momento em que Michael a tomara nos braos, a
desconfiana e a raiva que os comentrios negativos de sua me tinham produzido dissolveram-se.
   As observaes de Sheila o deixaram furioso, depois desconfiado. Pensara nas reaes apaixonadas de Jlia a seus
avanos no comeo do falso noivado. Ele no fizera segredo do quanto a desejava, mas ela recuara.
   Ele estava pensando nisso quando Kristina se juntara a eles e perguntara sobre seu mau humor. Ele precisara de uma
desculpa, e a msica irritante fora a primeira coisa que lhe ocorrera. Alm disso, ele realmente odiava a Electric Slide.
   Mas quando a banda comeara a tocar All The Things You Are, e Jlia e ele puseram-se a danar, todas as suas dvidas e
suspeitas desfizeram-se. Estava cansado de lutar, cansando de quer-la e no poder t-la.
   E ento vira sua av na janela, olhando para dentro, observando ele e Jlia danarem.
   ? Michael, voc est bem? ? Jlia recuara um pouco e o fitava confusa.
   ? Eu estou com cara de quem viu um fantasma? Acho que bebi mais do que pensei.
   ? Voc tomou muitas taas de champanhe ? murmurou Jlia. ? Voc est enjoado?
   ? Enjoado no. Louco, provavelmente. ? Ele engoliu em seco. ? Pensei ter visto minha av olhando pela janela.
   Jlia no olhou para ele como se estivesse maluco.
   ? Voc ainda est sentindo a perda da sua av e a banda est tocando uma msica que faz com voc se lembre dela ?
disse ela. ? Alm de todo o champanhe que voc bebeu...
   ? Eu no estou bbado ? protestou ele, depois deixou cair os ombros, em sinal de derrota. ? Talvez esteja.  a nica
explicao... ? Ele olhou para a janela onde vira a av.
   Uma grande tristeza abateu-se sobre ele. Sua av estava sorrindo, observando Jlia e ele, parecendo contente. Ele pensou
como seria se Kate ainda estivesse viva e presente  festa.
   Jlia tirou os braos do pescoo de Michael e examinou-o por um momento.
   ? Acho que voc devia comer alguma coisa. E tomar um caf bem forte tambm.
   ? Agora no. ? Estava abalado demais para pensar em comer ou beber qualquer coisa. ? No posso mais ficar aqui,
Jlia. Preciso de paz e tranqilidade. ? Sentiu-se subitamente oprimido por tudo aquilo. ? Vamos sair daqui. ?
Agarrando-lhe a mo, puxou-a para fora da sala.
   Ela pensou que eles fossem para a varanda. Em vez disso, Michael tomou outro caminho, levando-a para a grande
escadaria.
   Ele comeou a subir as escadas e, de repente, tropeou. Jlia instintivamente aproximou-se e colocou o brao em torno
dele para segur-lo.
   Ele apoiou-se nela.
   ? Eu queria que fosse verdade, Jlia. Queria ter visto a minha av naquela janela.
   Jlia viu a dor nos olhos de Michael. Sabia muito bem o que era sentir saudade de uma pessoa querida.
   ? Talvez voc tenha visto ? disse ela suavemente. ? Talvez ela esteja aqui em esprito e voc tenha percebido de
alguma maneira.
   ? Se minha av decidisse aparecer como um fantasma, pode ter certeza de que ela no se limitaria a ser uma mera
apario na janela. Conhecendo a vov, ela faria algo espetacularmente sobrenatural ? Michael sorriu, cheio de boas
lembranas.
   Eles chegaram ao topo da escadaria e caminharam pelo longo e iluminado corredor.
   ? Voc sabe onde est indo? ? perguntou Jlia enquanto passavam por um quarto aps o outro.
   ? Para o quarto onde eu costumava ficar ? e aqui est ele. ? Levou-a para um quarto bem pequeno, decorado em tons
plidos de azul, cinza e amarelo.
   Jlia cruzou o quarto para acender o abajur na mesa-de-cabeceira. Enquanto isto, Michael fechou a porta atrs de si,
trancando-a.
   ? Sabe, ver a vov esta noite, ou achar que a vi ? corrigiu-se rapidamente ? me fez lembrar de algo que ela tentou
passar para cada um de ns.
   ? E o que ? ? perguntou Jlia.
   ? A maneira como ela fazia as coisas acontecerem. Quando queria algo, ela corria atrs. Se estivesse aqui esta noite, ela
me puxaria para um canto e diria: "Mike, voc sabe o que quer, ento v atrs!"
   ? Eu no acho que ela teria nenhuma reclamao a seu respeito, Michael ? assegurou-lhe Jlia. ? Voc tem seguido o
exemplo dela e  um executivo de primeira classe.
   ? Eu sei que isto vai surpreender voc, mas no estou falando de negcios ? Michael sentou-se na cama e tirou os
sapatos. ? No estava nem pensando em trabalho.
   Jlia demonstrou que compreendia balanando a cabea, mas no estava olhando para seu chefe e sim para o telefone
sobre a cmoda. Todo aquele champanhe deixara Michael bastante conversador, e ele precisava de uma boa noite de sono.
   ? Enquanto voc se deita, vou chamar um txi. Tem tanta gente aqui que ningum vai perceber que sa.
   ? Eu considero um evento onde a minha presena  totalmente suprflua, uma perda de tempo. ? Michael tirou o palet
e puxou a gravata.
   ? Eu sei. E voc prefere uma reunio de negcios a qualquer festa.
   As meias e o cinto foram os prximos a serem tirados. Ele os jogou no cho.
   ? Voc me conhece to bem.
   Jlia pegou rapidamente o telefone.
   ? Eu tenho que pedir uma linha, como num hotel ou ? ahn!
   Michael tirou o telefone da mo dela e colocou-o no gancho.
   ? No v embora, Jlia ? disse ele roucamente.
   Os olhos de Jlia arregalaram-se. Ele estava desabotoando a camisa. Ela passou a lngua pelos lbios.
   ? Michael, eu no acho...
   ? timo! Porque eu estou cansado de achar, estou cansado de pensar, isto est me deixando louco! ? Tomando-lhe as
duas mos, puxou-a para si. ? Vamos fazer um acordo. No vamos mais ficar pensando. Esquea o Sterling. Esquea tudo e
concentre-se s em ns dois.
   Ela sentiu o calor das coxas dele contra suas pernas, e um tremor percorreu-lhe o corpo. Com um puxo hbil, colocou-a
no colo e envolveu-a com seus braos. Jlia lutou um pouco. No o suficiente para se soltar; no o suficiente para convenc-
lo de que queria se soltar.
   ? Por favor, Jlia. ? Ele a puxou mais para junto de si e aninhou o nariz no pescoo dela.
   Ela sabia o que ele queria. Jlia fitou-o, atrada pelo poder e pelo ardente desejo em seus olhos. O problema era que ela
queria a mesma coisa.
   ? Voc no est bbado? ? murmurou, tentando ganhar tempo. ? Voc no vai desmaiar?
   ? Foi isso que disse a si mesma quando estava vindo aqui para cima? Que estava ajudando um bbado idiota? ? Seus
lbios roaram os dela. ? A nobre e leal Jlia.
   Ele inclinou a cabea e beijou-a com uma profundidade que deixou-a sem ar. Instintivamente, Jlia espalmou a mo sobre
o peito nu de Michael. Queria sentir o calor de sua pele.
   Michael gemeu e beijou-a novamente. Suas mos moviam-se sobre as costas de Jlia em carcias lentas. Ela teve um
desejo atrevido de senti-lo acariciando suas costas nuas. Como que sincronizado com as necessidades dela, Michael abriu-lhe
o vestido, desnudando-lhe os ombros. Beijou-lhe o pescoo, descendo a boca at a curva de seu seio.
   Ela soltou um gemido enquanto ele a beijava atravs do fino material de seu vestido, que foi ento dispensado, permitindo
que a ponta da lngua dele tocasse seu mamilo.
   Quando ela abriu os olhos novamente, eles estavam deitados na cama, praticamente despidos. A cabea de Jlia estava
girando com a excitao. Com o prazer de seus beijos e de suas carcias mal conseguia se lembrar de terem tirado quase
todas as roupas. Tudo parecia to natural e to certo. Estar ali com Michael, beijando-o, tocando-o...
   ? Voc  to linda ? disse ele, fitando-lhe o torso com os olhos ardendo de desejo. Segurou-lhe os seios, observando,
atormentado, a maciez e a alvura que enchiam suas mos.
   Jlia soltou um gemido e arqueou-se contra ele, sentindo seus msculos, o calor de sua pele. Ousada, ela deslizou os
dedos do peito para o abdome de Michael, descendo pelo caminho de plos escuros sob seu umbigo.
   Michael sentiu a mo de Jlia roando-o atravs do algodo, e sentiu que seu controle comeava a desfazer-se de vez.
Sentiu um fogo lquido percorrendo seu corpo. Estavam juntos finalmente.
   Suas mos deslizaram pelo abdome de Jlia. Jlia prendeu a respirao. Queria desesperadamente que ele movesse a mo
para baixo e a tocasse intimamente.
   ? Voc leva o conceito monocromtico s ultimas conseqncias ? disse ele, brincando com a borda da calcinha
vermelha. ? Tudo combina com o anel.
   ? Eu mesma comprei a lingerie. ? Jlia corou. ? J foi ruim voc ter comprado o vestido. No achei que ainda devia
pagar...
   ? Eu quero comprar presentes para voc ? disse ele. ? Eu quero que voc tenha coisas boas. Quero dar a voc tudo o
que voc quiser.
   ? Ah, Michael. ? Seus olhos encheram-se de lgrimas. ? Tudo o que eu quero  voc.
   Porque estava apaixonada por ele, admitiu Jlia para si mesma. Desejava poder admitir para ele tambm. Mas
conhecendo Michael, sabia que ele no gostaria de ouvir as palavras. Sentir-se-ia preso numa armadilha. Ento ela lhe
mostraria. Uma ao sempre dizia mais que mil palavras, ou pelo menos era o que se costumava dizer. Levantou o rosto para
beij-lo e todo o amor que no ousava confessar fluiu atravs daquele beijo.
   A mo grande e quente de Michael deslizou para dentro da calcinha de Jlia. Jlia contorcia-se enquanto a mo de
Michael separava gentilmente os lbios inchados de seu sexo molhado para descobrir seus recantos mais secretos e sensveis.
A maneira como ele a esfregava e a presso gostosa que aplicava fizeram-na gemer. O prazer era intenso.
   ? Michael, por favor! ? choramingou. No sabia se estava pedindo para que ele parasse ou implorando para que
continuasse.
   Ele tomou-lhe novamente os lbios, enfiando a lngua em sua boca ao mesmo tempo em que, com os dedos longos e
fortes, penetrou-lhe o sexo. Aquela dupla invaso foi arrasadora. Jlia nunca sentira aquilo. Uma trrida tempestade de
foras se armava dentro dela e seu corpo doa, estremecendo a cada pontada de prazer.
   De repente, uma exploso de lquido quente liberou a tempestade dentro dela. Jlia sentiu-se implodir com um prazer to
intenso que tudo o que podia fazer era se agarrar a Michael enquanto as ondas de xtase percorriam-lhe o corpo.
   Michael segurou-a com firmeza, abraando-a e embalando-a possessivamente. Beijou-lhe a testa, o rosto e o pescoo
enquanto ela tremia em seus braos. Finalmente, Jlia deitou-se exausta ao lado dele. Seus olhos permaneceram fechados por
algum tempo, ento abriram-se para encontrar os de Michael.
   Jlia quase ficou sem ar. Ele a estava observando! Ela sempre fora to reservada e tmida, nunca teria imaginado ser
capaz de uma resposta assim to selvagem e desinibida ? e Michael observara tudo aquilo.
   ? Meu Deus! ? Ela virou o rosto. ? Isto nunca aconteceu comigo. Eu... eu no sei o que dizer.
   ? No precisa dizer nada, querida. E no precisa ficar tmida comigo. ? Ela abraou-a com fora. Sentia-se no topo do
mundo, um macho poderoso, um homem que levara uma mulher a um delrio voluptuoso. Tomando-lhe o queixo, levantou
seu rosto e olhou fundo em seus olhos.
   ? Voc estava linda de olhar. To sexy e fogosa.  Ele moveu a mo lentamente por toda a extenso de seu corpo.
   Ele tirou sua calcinha, depois as meias-cala. Embora no soubesse como podia estar envergonhada depois de ter tido
orgasmos mltiplos enquanto ele a observava, Jlia sentiu-se exposta e vulnervel, deitada ali, nua, sob o olhar de Michael.
   O corpo dele latejava de desejo.
   ? No posso mais esperar, querida ? disse.
   Jlia o observava disfaradamente, intrigada com toda aquela virilidade para desviar o olhar, embora a dvida comeasse
a atorment-la. Ser que deveria contar a Michael que ele era seu primeiro amante? Ela certamente no era a primeira dele.
   Jlia tomou sua deciso enquanto abria os braos para receber Michael, dando-lhe total acesso ao seu corpo. Ela o amava,
e esta noite no era a sensata Jlia Chandler, era a herona de um conto de fadas moderno, que finalmente recebera a
oportunidade de expressar seu amor ao heri que estivera sempre fora de seu alcance.
   ? Eu tambm no quero esperar mais, Michael ? sussurrou Jlia. ? Vem.
   Ela no teve que pedir duas vezes. Michael comeou a penetr-la lentamente, segurando-lhe os quadris e puxando-lhe o
corpo. A intimidade era arrebatadora, diferente de tudo o que ela j experimentara. No conseguia se imaginar fazendo
aquilo com mais ningum alm de Michael, o homem que amava.
   As penetraes lentas e profundas de Michael reacenderam as brasas de sua paixo. Uma exploso interna sacudiu-a, com
ainda mais fora e profundidade que antes, e Jlia agarrou-se a ele, ofegante.
   Juntos escalaram as incrveis alturas da paixo e chegaram ao cume do xtase, antes de finalmente mergulhar num mundo
tranqilo e s deles.
   Depois, ficaram deitados, um nos braos do outro. Pela respirao de Michael Jlia soube que ele havia adormecido. Ela
no se importava. No sentia necessidade de conversar. Um pequeno sorriso curvou-lhe os lbios. Gostava de abra-lo
enquanto sua mente vagava docemente.
   Esta noite fora especial, e no exigia nenhuma anlise meticulosa. Esta noite, ela e Michael eram amantes, e Jlia sabia
que, no importava o que acontecesse, nunca se arrependeria do que fizera.
   Momentos mais tarde, adormeceu tambm.


   Captulo 12

   O telefone tocou quando Jlia estava passando a sopa de tomate da panela para a tigela.
   ? Aposto que  para voc, Jlia ? previu Kia. ? Michael Fortune est ligando desde as dez horas da manh. Eu no
disse a ele onde voc estava. ? Kia disse algumas palavras ao telefone e entregou-o a Jlia.
   O pulso de Jlia disparou. Passara o dia inteiro querendo falar com Michael, mas no tinha certeza do tipo de recepo
que teria...
   Acordara por volta das seis horas, e por alguns segundos ficara chocada de encontrar-se nua na cama com Michael. Ento
as maravilhosas lembranas da noite anterior inundaram seu corpo e tudo o que ela queria era acordar Michael e fazer amor
com ele mais uma vez.
   Mas no podia. Era sbado. Tinha que voltar para seu apartamento para ir passar o dia com Joanna. Haveria uma festa de
Halloween, e Joanna estava animada. Jlia no podia desapont-la.
   Embora seu corpo tivesse protestado, sua mente vencera, e Jlia escapulira da cama e vestira-se rapidamente. A casa
parecia calma quando descera para chamar um txi.
   Agora eram nove horas da noite e ela estava de volta ao seu apartamento. E Michael estava ao telefone. Jlia murmurou
um trmulo oi.
   Mesmo do outro lado da linha, o som da voz dela afetava Michael. Desde que acordara naquela manh, no conseguira
pensar em nada alm de Jlia. As horas se passaram e ela continuava inacessvel.
   Durante todo o dia, Michael sentiu todos os tipos de emoes. Agora que ela estava ao telefone, ele teve que se conter. Se
ela estava fazendo alguma espcie de joguinho, ele tambm podia ser um jogador.
   ? Queria saber se voc est a fim de sair para tomar um drinque? ? perguntou ele com um tom casual
   ? Hoje? ? O corao dela pulou de expectativa.
   ? Daqui a quinze minutos.
   Jlia olhou para seu jeans surrado e seu moletom largo. No estava usando nenhuma maquiagem e seu cabelo estava
preso num rabo-de-cavalo alto
   ? D para ser em vinte?
   Ele queria que fosse em dez!
   ? Daqui a meia hora estou passando a ? disse, com uma indiferena calculada. No queria que ela pensasse que ele
estava desesperado para v-la.
   Meia hora depois, Michael estava batendo  porta do apartamento de Jlia. Ela vestira uma saia curta e um suter
comprido.
   Quando viu Michael, quis se jogar nos braos dele, mas ele parecia distante, ento Jlia simplesmente sorriu e disse oi.
   Trocaram algumas banalidades educadas enquanto ele dirigia pelas ruas de Minneapolis.
   ? Aonde vamos? ? perguntou Jlia, depois de terem esgotado o assunto clima.
   ? Para a minha casa. ? Os dedos de Michael agarraram o volante com mais fora. ? Alguma objeo?
   Jlia engoliu em seco.
   ? Eu... eu tenho que estar de volta at as dez horas amanh de manh ? sussurrou.
   Michael esticou o brao e cobriu o joelho de Jlia com a mo.
   ? Voc vai estar de volta a tempo, eu prometo.
   Jlia ficou esperando que ele perguntasse por que ela tinha que estar de volta quele horrio e onde ela estivera o dia
inteiro. J decidira que, se ele perguntasse, lhe contaria tudo. Joanna era uma parte importante de sua vida, e o fato de
Michael no saber a respeito dela limitava o relacionamento entre eles.
   Mas Michael no perguntou nada. A me de Michael sempre usara os filhos para alcanar seus fins. Jlia recusava-se a
recorrer a este tipo de ttica. Nunca usaria Joanna, nem mesmo para aprofundar seu relacionamento com Michael.
   Chegaram  cobertura, e Michael serviu duas taas de vinho. Ela tomou um golinho, mas ele colocou o copo, intocado, na
mesinha de centro, e fitou-a.
   ? O vinho era s uma desculpa ? disse ele. ? Eu queria estar com voc desde que acordei. Agora que voc est aqui...
? Michael no terminou a frase.
   Jlia colocou o copo na mesa e levantou-se.
   ? Agora que estou aqui... ? repetiu com os olhos brilhando. ? O qu?
   Eles se olharam por um momento. E ento jogaram-se um nos braos do outro e beijaram-se, beijaram-se, at ficarem
completamente sem ar.
   No conseguiram chegar ao quarto. Tirando rapidamente algumas peas de roupas, afundaram no sof. No foram
necessrias muitas preliminares. Tinham estado pensando um no outro, querendo um ao outro h horas e, portanto, seus
corpos j estavam prontos para a consumao de seu desejo.
   Michael posicionou-se entre as coxas de Jlia e ela abriu-se para ele, envolvendo-o com suas pernas. Ele gemia de prazer
enquanto penetrava o sexo quente e mido de Jlia.
   O prazer adquiriu uma intensidade avassaladora, e eles explodiram num gozo violento que os deixou esgotados. Com seus
corpos ainda unidos, Michael desmoronou em cima dela, afundando o rosto no ombro de Jlia. Ela o abraou com fora. A
ansiedade, a tenso e a frustrao eram apenas uma vaga e desagradvel lembrana que nenhum dos dois sentia a
necessidade de evocar.
   ? Nada mais importa alm do aqui e agora ? murmurou Michael, aninhando o nariz no pescoo dela.
   Jlia acariciou-lhe a nuca e mexeu-se preguiosamente sob o peso de Michael.
   ?  ? concordou sonhadora.
   Ela estava disposta a deixar a realidade para uma outra hora e aproveitar aquele tempo precioso com Michael.
   Passaram o resto da noite em seu prprio universo particular, to absortos um no outro que a volta para o mundo real na
manh seguinte foi mais difcil do que haviam imaginado.
   Ambos ficaram em silncio enquanto Michael levava Jlia de volta para casa. Ele lhe lanara diversos olhares furtivos,
perguntando-se como ela planejava passar o dia. Mas no fez nenhuma pergunta. J estava indo longe demais com Jlia.
Jlia esperava que ele fizesse perguntas, para que pudesse passar para a prxima fase de seu joguinho. Ah, ele sabia tudo
sobre manipulaes femininas e no ia cair na armadilha!
   Jlia olhava fixamente para o pra-brisa molhado de chuva, todo o entusiasmo que sentira ao acordar dissipava-se
lentamente. Se ao menos ele fizesse algumas perguntas. Ela queria lhe contar tudo sobre Joanna. Depois da intimidade da
noite anterior, qualquer segredo com ele parecia estranho.
   Mas Michael no perguntou, provavelmente porque no se preocupava, lembrou Jlia a si mesma. O falso noivado
continuava sendo exatamente o que era ? falso. Ela seria a maior idiota do mundo se pensasse que Michael se apaixonara
por ela simplesmente porque tinham ido para a cama.
   Amava Michael, mas sabia que ele no a amava, e no ousava pensar diferente.
   No momento em que Michael parou em frente a seu prdio, ela pulou para fora do carro e correu para dentro do
apartamento, segurando-se para no chorar.
   Naquela tarde, Jen e Debby tomaram conta da sala junto com alguns colegas. Jlia e Kia retiraram-se para o quarto com
livros, Kia para estudar, Jlia para espairecer.
   Logo depois das nove, algum bateu na porta do quarto.
   ? Espero que no queiram que a gente assista outra garota imitando algum secando o cabelo com um secador em
chamas ? resmungou Kia, pois a ltima batida na porta fora para isto.
   ? Pelo menos foi original ? respondeu Jlia.
   ? As garotas me disseram que voc estava aqui. ? A voz de Michael surpreendeu as duas.
   ? Vocs da elite sempre invadem os lugares assim, como se fossem os donos do pedao? ? perguntou Kia irritada. ?
Este  o nosso quarto, sabia?
   ? Desculpe ? murmurou Michael. Seus olhos estavam fixos em Jlia, que estava esticada na cama usando um moletom
azul-escuro. Ele cruzou o quarto, pegou o livro das mos dela e leu o ttulo em voz alta. ? Eu te Odeio, No me deixe:
Entendendo o Transtorno de Personalidade Limtrofe. Parece divertido, hein?
   Jlia sorriu para ele.
   ? E .
   Estava emocionada de ver Michael. E pelo jeito que ele olhava para ela, Jlia sabia que tambm estava feliz em v-la,
mesmo que no fosse admiti-lo.
   ? Por que voc no faz uma malinha e passa a noite na minha casa? A gente pode ir juntos para o escritrio amanh de
manh. ? Michael abaixara a voz e olhara inquieto para Kia.
   ? Tudo bem. ? Jlia colocou o livro de lado e comeou a fazer a mala. Kia no disse uma palavra, mas observava os
dois com desaprovao.
   Nem Jlia nem Michael se importaram. Estavam entrando mais uma vez em seu mundo particular, onde s havia eles
dois.
   Aquele fim de semana estabeleceu o padro dos seguintes. Jlia passava os sbados e domingos com Joanna, e Michael
no perguntava nada. Mas todas as noites de sbado e domingo ele ia  casa dela busc-la e a levava para seu apartamento.
   Enquanto o falso noivado continuava, Jlia e Michael descobriram outras dimenses de seu relacionamento. Alm da
harmonia no trabalho e da paixo ardente, sentiam-se confortveis um com o outro e gostavam de estar juntos.
   Passavam quase todas as noites juntos, s vezes saindo para jantar, s vezes indo ao cinema ou a algum show. Tentavam
correr ao longo da margem do rio algumas noites por semana. Ocasionalmente, socializavam com outros Fortune ou com
colegas de trabalho.
   Jlia e Michael preferiam suas noites tranqilas no apartamento de Michael. Nenhum dos dois gostava muito de TV, mas
no perdiam alguns programas. Riam muito quando estavam juntos. Achavam graa nas mesmas coisas.
   s vezes as pessoas perguntavam sobre seus planos para o casamento. Jlia invariavelmente respondia: "No temos.
Estamos curtindo o noivado." Mas aquele tipo de pergunta lhe fazia lembrar o que mais tentava esquecer: que estava fazendo
um papel numa encenao. A vida com Michael era maravilhosa, amorosa e excitante, mas baseada numa mentira.
   Michael nunca respondia a perguntas sobre o casamento, mas ningum parecia se importar. Ele estava feliz com Jlia. Em
vez de diminuir, sua atrao por ela fortalecera-se. O sexo ficara cada vez mais profundo e gostoso, e ele percebia que a
desejava mais do que nunca. Embora no estivesse contente com as longas tardes de sbado e domingo que ela passava longe
dele, tentava afastar aqueles pensamentos.
   Mas embora ele aceitasse que ela passasse as tardes dos fins de semana longe dele, no lhe permitia nenhuma outra
ausncia inexplicada. Quando a convidou para passar o dia de Ao de Graas com sua famlia e Jlia recusou, Michael no
gostou.
   ? Como assim, no pode jantar conosco no dia de Ao de Graas?
   ? J prometi passar o dia de Ao de Graas com a minha irm ? disse Jlia. No tinha a menor inteno de deixar sua
irm sozinha no feriado.
   Ela observava enquanto Michael dirigia-se a passos largos para a janela do escritrio. No queria discutir com ele. As
ltimas semanas que passaram juntos foram maravilhosamente tranqilas, sem uma briga sequer. Comeou a desejar que ele
convidasse sua irm para passar o dia de Ao de Graas com os Fortune. Joanna no poderia ir,  claro, mas o assunto de
sua irm seria discutido e Jlia poderia contar a Michael tudo sobre ela.
   ? Sua irm! ? Michael deu um suspiro de desdm. ? Voc nunca a v, e agora quer que eu acredite que voc tem que
passar o dia de Ao de Graas com ela?
   Jlia retesou-se.
   ? S porque eu nunca mencionei minha irm no significa que no estou em contato com ela.
   Ela falava com Joanna pelo telefone toda noite, embora Michael no soubesse disso.
   Porque no estava interessado,  claro. s vezes ? a maior parte do tempo, ultimamente ? ela conseguia esquecer a
natureza do relacionamento deles. Agora a realidade a atingira como um raio. Ela trabalhava para Michael Fortune e dormia
com ele, mas seu envolvimento limitava-se a isto.
   ? Toda a famlia espera ver voc comigo no dia de Ao de Graas ? disse Michael curto e grosso. ? Diga  sua irm
que voc tem outros planos.
   ? Voc pode dizer  sua famlia que eu tenho outros planos. ? Jlia controlou-se para no chorar. ? Acho que est na
hora de comearmos a arranjar motivos para o nosso rompimento. ? A mgoa fizera com que ela no conseguisse se
controlar. ?  bom que a sua famlia tenha algumas dicas de que o nosso relacionamento no anda muito bem. Assim,
quando a gente romper, eles no vo ficar to chocados. A gente conseguiu enganar todo mundo at agora, seria uma pena
estragar o ltimo ato.
   ? , uma pena. ? Michael olhava para os pedestres que passavam pela calada trinta andares abaixo sem realmente v-
los.
   Nosso rompimento. At agora, no tinha nem pensado em romper seu falso noivado, e percebeu o quanto odiava a idia.
Ocorreu-lhe que Jlia o estava encostando contra a parede. Acostumara-se a t-la por perto; estava viciado em fazer amor
com ela. Agora ela estava ameaando deix-lo. Quando o falso noivado acabasse, a relao sexual acabaria tambm. E no
queria isto. Jlia sabia e pretendia usar a fraqueza dele em benefcio prprio.
   Bem, tinha sido advertido, por sua prpria me, de que Jlia era mais esperta do que ele.
   Mas nem tudo estava perdido, garantiu a si mesmo. Ele ainda tinha alguns truques na manga.
   ? Voc est certa sobre dar sinais de problemas entre ns. ? Seu tom era orgulhoso. Michael suprimira a onda de dor
que crescia dentro dele. ? Passe o dia de Ao de Graas onde quiser, e eu vou tentar parecer aborrecido com a sua
ausncia. Vamos deixar que meus parentes saibam que nem tudo est um mar de rosas ? disse ele.
   Quando Michael saiu do escritrio naquela tarde, Jlia lhe disse que no iria para o apartamento dele, que queria ir para
casa. Seria a primeira vez em semanas que no sairiam juntos.
   ? Tudo bem ? disse ele curto e grosso. ? Se quiser ir para o meu apartamento mais tarde, me liga que eu vou buscar
voc.
   Jlia decidiu que em hiptese alguma ligaria para Michael. Ela levantou o queixo e manteve a cabea erguida, no se
dando ao trabalho de responder. Michael fitou-a, depois saiu batendo p.
   A viagem de nibus at sua casa foi muito pior do que lembrava. Estava quente e lotado, e as contnuas paradas por causa
do engarrafamento deixaram-na enjoada. Ficara mal acostumada com as caronas no carro de Michael. Mas sentira-se
nauseada pelo resto da noite, e quando acordou na manh seguinte, mal teve tempo de chegar ao banheiro antes de comear a
vomitar.
   Jlia sentou-se no cho e apoiou a cabea na borda da banheira. Kia entrou alguns minutos depois.
   ? Voc no parece nada bem ? disse, ajoelhando-se ao lado de Jlia.
   ? Estou me sentindo pssima ? resmungou Jlia. ? Talvez eu tenha sido intoxicada pela fumaa dos nibus.
   Kia encarou-a seriamente.
   ? Eu no tenho te visto muito nos ltimos meses, mas o seu rosto parece diferente. Est com um certo brilho... J vi
mudanas semelhantes nos rostos de outras mulheres. A mscara da gravidez, de acordo com a sabedoria popular, que
sempre parece ter uma certa razo. ? Kia respirou profundamente. ? Jlia, voc est grvida?
   Jlia endireitou as costas, to rpido que o banheiro parecia girar e ela sentiu que ia comear a vomitar novamente, ento
encostou-se na parede.
   ? Claro que no, Kia. Eu... ns... ele... sempre usava alguma coisa.
   ? O que voc usava? Gel, que no  cem por cento eficaz? Camisinha, que tambm no  cem por cento? DIU, que...
   ? Os dois primeiros ? Jlia estava enjoada demais para ficar envergonhada.
   ? Quando foi a sua ltima menstruao, Jlia? Voc est fazendo as contas?
   Jlia engoliu em seco, sentindo-se como uma das adolescentes impulsivas a quem Kia costumava dar aquele tipo de
informao.
   ? No menstruo desde outubro. Nem pensei muito a respeito. Nunca pensei que pudesse estar... A gente sempre usava
alguma coisa...
   ? Os nicos mtodos infalveis contra gravidez so a abstinncia ou a esterilizao, Jlia. At a plula tem uma pequena
porcentagem de falha.
   Jlia fechou os olhos, sentindo a aproximao de uma nova onda de nusea.
   ? Kia, eu no posso estar grvida. Deve ser uma gripe.
   Kia fez que sim com a cabea.
   ? S o tempo dir. Enquanto isso, deixe-me lev-la de volta para a cama e pegar uns cream crackers para voc mastigar.
   Mais tarde, Jlia ligou para o escritrio para avisar que estava doente.
   Michael voou at o apartamento de Jlia depois do trabalho. O dia tinha sido uma total perda de tempo. Ele fora intil no
escritrio porque no conseguira parar de pensar em Jlia. Ser que ela estava realmente doente?
   Se Jlia estivesse deitada, com o rosto plido, ele poderia ser sido moderado com ela? Mas quando ele chegou, ela
estava de p na frente do prdio, com Jen, Debby e alguns amigos.
   Uma vibrao percorreu o corpo de Michael quando ele a viu. Nunca tinham ficado longe um do outro por tanto tempo e
ele sentira uma saudade imensa dela. Michael comeu-a com os olhos. Ela estava rindo animada e incrivelmente linda. Ele
precisou de toda a sua fora de vontade para no correr at ela, tom-la nos braos e lev-la embora.
   Mas a voz da desconfiana soprou-lhe no ouvido ? Ela certamente no parece doente! ? Ele parou o carro e fitou o
grupo de moas por algum tempo antes de pisar no acelerador e sair cantando pneu.
   ? Ei, aquele no era o Michael? ? perguntou Debby.
   O corao de Jlia quase pulou pela garganta.
   ? No sei, no vi. ? Se tivesse sido Michael, aquela partida em disparada no lhe parecia bom sinal. O surto de nusea
na manh seguinte tambm no.
   Jlia conseguiu se arrastar para o trabalho, mas a viagem de nibus deixou-a to enjoada que ela vomitou no banheiro
antes que Michael chegasse.
   Ele olhou para ela ao passar por sua mesa. Ela estava vestindo o terno bege, um dos antigos. Estava convencido de que ela
o escolhera deliberadamente para puni-lo. Mas ele parou no limiar da porta que dava para seu escritrio.
   ? Voc no parece muito bem ? disse abruptamente. Michael sentiu uma pontaria de culpa. Ela realmente parecia
doente nesta manh.
   ? Voc acha que deveria estar aqui? Quer que eu... leve voc para casa?
   Jlia balanou a cabea negativamente.
   ? Vou ficar bem.
   ?  Jlia, se voc est doente, no deveria estar aqui. Voc pode passar a doena para os outros.
   ? No se preocupe, no  contagioso. ? Ela desejou que fosse simples assim. Kia ficara de comprar-lhe um teste de
gravidez, insistindo que Jlia tinha que saber.
   ? O que voc tem? ? pressionou Michael. ? Intoxicao alimentar? ? perguntou.
   Jlia soltou uma risada curta. Quem dera! Ela no deu mais nenhuma resposta nem sequer olhou na direo de Michael.
   Michael estava frustrado e com os nervos  flor da pele. Duas noites sem Jlia e ele estava naquele estado. Ser que tudo
aquilo era parte de um plano para transformar em real o falso noivado?
   Mais tarde, Jake Fortune apareceu na sala de Jlia e pediu que ela o acompanhasse at o escritrio de Michael, pois tinha
uma "notcia triste para lhes dar". Jlia tentou escapar, mas tanto Jake quanto Michael insistiram que ela se juntasse a eles.
   ? Erica e eu nos separamos ? despejou Jake. ? As coisas j no andavam bem h algum tempo. ? Ele soltou um forte
suspiro. ? O esforo para manter as aparncias tornou-se insuportvel.
   Jlia sabia muito bem o quo difcil era manter as aparncias.
   ? Sinto muito ? murmurou ela.
   ? Vocs esto se separando? ? Michael sentiu-se como se tivesse tomado um soco na cara. ? Tio Jake, ser que no
existe outra maneira de vocs resolverem isto? Voc e Erica esto casados h tanto tempo! Vocs tm cinco filhos, e netos
tambm!
   ? , eu sei... ? Jake encolheu os ombros. ? A gente tentou se acertar, mas... Mas no deixem que os nosso problemas
influenciem vocs. S porque Erica e eu no... ? ele engoliu com dificuldade ? vamos ficar mais juntos, isto no significa
que o casamento...
   ? Jake, voc no precisa fazer um discurso a favor do casamento para a gente ? interrompeu Michael. Uma raiva
amarga arrebatou-o. Afinal, qual era o sentido daquilo tudo? Ningum mais amava ningum para sempre. Sentiu-se
estranhamente enganado e furioso. ? Vou ser honesto com voc. Jlia e eu estamos com dvidas sobre nosso noivado.
   ? Ah, no! ? Jake parecera genuinamente triste. ? Vocs dois parecem to certos um para o outro. Mike, eu nunca o vi
to feliz e tranqilo desde que voc e Jlia...
   ? Aparncias ? disse Michael. ? Voc e Erica no so os nicos que tm vivido de aparncias.
   Durante todo o dia, outros membros da famlia Fortune visitaram o escritrio de Michael, supostamente para falar sobre a
separao de Jake e Erica. Jlia ficara em sua mesa e no participara das discusses, mas tinha certeza de que Michael
mencionara os "problemas" entre eles. Os olhares penalizados dos membros da famlia diziam tudo. Eles achavam que ela
estava prestes a ser dispensada por Michael.
   Jlia tinha certeza. Ele estava prestes a terminar o falso noivado, assim como ela estava prestes a descobrir se estava
sofrendo de um vrus estomacal ou carregando um filho dele.
   Mais tarde neste dia, o teste caseiro de gravidez dera a resposta definitiva. Jlia e Kia fitavam o pontinho denunciador que
mudara de cor.
   ? Positivo. Isto significa... que eu estou grvida. ? Jlia mal podia acreditar em suas prprias palavras. Ela estava
grvida? Grvida! Debulhou-se em lgrimas. ? Ai, meu Deus, Kia, o que eu vou fazer?


   Captulo 13

   ? Ia sugeriu-lhe que contasse a notcia imediatamente a Michael.
   ? Adiar no vai facilitar as coisas ? advertiu.
   Toda manh Jlia chegava ao escritrio determinada a contar tudo a Michael. Mas ele estava to distante, to frio. Como
poderia dizer a ele que estava grvida?
   O dia de Ao de Graas chegou e passou. Jlia ficou com Joanna. Michael, com os Fortunes.
   ? Todo mundo perguntou onde voc estava este fim de semana ? observou ele friamente, na segunda-feira seguinte. O
estmago de Jlia ainda estava embrulhado devido  viagem de nibus.
   ? Kyle e a famlia dele esto aqui e Grant veio tambm ? continuou Michael. ? Eles queriam conhecer minha noiva e
acharam muito estranho ns passarmos todo o fim de semana do feriado separados. Eu liguei para voc, mas ningum
atendeu.
   ? Eu no estava em casa.
   Sua resposta, desprovida de desculpas e de informaes, fez com que Michael, que j estava fervendo, estourasse de vez.
   ? Obviamente. Onde diabos voc estava, Jlia?
   Levantando a cabea e encarando-o com os olhos arregalados, Jlia respondeu simplesmente:
   ? Eu sa.
   ? Saiu ? repetiu ele, irado. ? Voc saiu?  s isso que voc vai dizer?
   Um sorriso triste contorceu os lbios de Jlia.
   ? Voc no quer ouvir as outras coisas que eu teria para dizer... ? Ela interrompeu-se antes que deixasse alguma coisa
escapar. ? Estou cheia de coisas para fazer, Michael. Se voc me d licena, eu gostaria de comear a trabalhar.
   ? Voc est mandando seu chefe passear porque tem trabalho para fazer?
   Michael examinou Jlia, notando que ela estava usando o vestido cinza sem graa e a trana que ele odiava. Por que
estavam em guerra um com o outro? Como chegaram a este ponto?
   ? Por que viramos inimigos? ? desabafou Michael. Sua mente estava girando e ele podia sentir todo o seu controle
comear a escapar-lhe. Mas ele no conseguiu deixar de perguntar ? Esta... briga que a gente est tendo... por que comeou?
   Jlia cerrou os punhos. Ela nunca esqueceria da rapidez e insensibilidade com que ele lhe virar as costas, mudando tudo.
Deixando-a enfrentar sozinha a assustadora possibilidade de uma gravidez.
   ? Na semana antes do dia de Ao de Graas eu disse a voc que tinha planos de passar o feriado com minha irm. ?
Sua voz estava gelada. ? Desde ento voc mudou completamente.
   ? No mudei! Voc  que est fria.
   ? Se eu tenho estado fria  porque... ? Jlia cerrou os dentes com fora, sabendo que estava quase dizendo que estava
grvida.
   ? Por que o qu? ? cutucou Michael. ? Porque o seu planinho no funcionou como voc queria?
   ? No sei do que voc est falando ? interps Jlia irritada. ? Agora, se voc no se importa, eu realmente gostaria de
comear a trabalhar.
   ? Eu me importo sim, eu decido quando voc comea a trabalhar. Por que voc no admite, Jlia? Eu j sei de tudo.
   Jlia sentiu seu rosto empalidecer.
   ? Voc sabe? ? perguntou ofegante. ? Mas como?
   ? Eu sou um homem experiente, Jlia. No me subestime.
   A garganta de Jlia estava to seca que doa engolir.
   ? Voc est zangado? ? sussurrou.
   ?   claro que estou zangado! Durante toda a minha vida vi minha me tramar e manipular os outros para conseguir o
que queria, e prometi a mim mesmo que nunca seria estpido o suficiente para...
   ? Eu no planejei, sabia? ? Dor, medo e raiva misturavam-se em Jlia.
   ?  claro que planejou.
   ? Uma mulher no engravida sozinha! Aconteceu, embora ns dois achssemos que tnhamos tomado precaues
suficientes. Eu aceitei a minha parcela da responsabilidade, mas no vou ficar com toda a culpa ? gritou Jlia.
   Jlia e Michael encararam-se enquanto um silncio pesado abatia-se sobre eles.
   Michael agarrou-se  borda da mesa, pois precisava urgentemente de um suporte.
   ? Voc... voc est grvida? ? A revelao quase o nocauteara. Ele a olhava embasbacado, totalmente confuso.
   ? Voc... disse que sabia.
   ? Eu estava falando sobre o que eu achava que fosse um plano seu para me prender.
   ? Voc no pode acreditar que eu estava seguindo um planinho para...
   ? Ah, no. Voc est muito acima disso, querida. Para se garantir, voc decidiu fazer uma aplice de seguro, caso suas
manobras no funcionassem.
   Jlia mal podia respirar.
   ? Voc est me acusando de ter engravidado deliberadamente para prender voc? E como  que voc acha que eu
consegui isto, Michael? Voc estava l todas as vezes que a gente fez amor, ento como foi que eu dei um jeito de
engravidar?
   ? Talvez eu no tenha estado l quando voc engravidou, Jlia. Voc desaparece todo fim de semana, e com quem voc
desaparece? Um amante secreto?
   Assim que acabou de dizer as palavras, Michael soube que tinha ido longe demais.
   Jlia soltou um grito silencioso e enojado. Tirando o anel de rubi do dedo, colocou-o sobre a mesa. Parte dos pensamentos
de Jlia eram claros e racionais, a outra parte estava dizimada pela fora de sua dor e raiva.
   ? Se voc acha que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas, ento nunca me conheceu de verdade. E eu tambm no
conheo voc. Eu no quero conhecer voc. ? Agarrando sua bolsa, Jlia saiu correndo do escritrio.
   Michael esperou, debatendo-se numa confuso de raiva e desespero. De repente, sentiu-se tomado de medo. Agarrando o
anel de sua av, correu para o corredor.
   ? Jlia, espere! ? gritara ele, mas as portas do elevador fecharam-se. Ele ficou l parado, consciente dos olhares
curiosos das pessoas que passavam.
   Lentamente, Michael virou-se e voltou para o escritrio. Jlia tinha o direito de estar zangada com ele, admitiu. E ele
estava disposto a lhe dar um pouco de tempo para acalmar-se. A noite ligaria para ela... Pensando melhor, talvez fosse
melhor ir at seu apartamento.
   Admitiria que reagira de maneira exagerada ao saber da notcia. As acusaes que fizera ecoavam em sua cabea. Jlia
fugindo todo fim de semana para encontrar-se com um amante secreto? Por que dissera aquilo? Sabia que ela nunca faria
uma coisa daquelas. Mas naquele surto de cime no fora nem um pouco racional...
   Michael quase grunhiu em voz alta quando Sterling Foster entrou em seu escritrio pouco depois.
   ? Jlia no estava na mesa dela, ento eu entrei ? disse o advogado. ? Ouvi dizer que vocs brigaram e que ela foi
embora. Que voc fez uma cena no corredor.
   ? Uma cena? ? bufou Michael. ? Eu s chamei o nome dela.
   ? Por que vocs brigaram?
   Michael franziu a testa.
   ? Sterling,  pessoal, est bem?
   ? Ouvi dizer que ela no estava usando o anel de noivado.
   ? Droga! Ningum tem nada para fazer por aqui alm de ficar espionando? ? Michael ps-se de p num pulo e
comeou a andar de um lado para o outro.
   ? Ento  verdade. ? Sterling parecia triste. ? Est tudo acabado entre vocs.
   ? No, no est acabado, Sterling. No est! ? Parecendo envergonhado, Michael forou-se a se sentar e a se acalmar.
?  por isto que voc est aqui, Sterling? Para saber das ltimas fofocas?
   ?  Certamente que no. ? Sterling inclinou-se para frente, fitando Michael. ? Tenho notcias perturbadoras. Voc est
sabendo que, desde o anncio da separao do Jake e da Erica, as aes da empresa vm caindo incessantemente. Tem
havido muita m publicidade para a Fortune nos ltimos meses, muita instabilidade. Os investidores no gostam disso.
   Os pensamentos de Michael estavam voltados para Jlia. Em sua mente, via a expresso no rosto dela quando ele a
acusara de ter um amante secreto e tentar empurrar-lhe o filho de outro homem. Michael estremeceu. Talvez fosse melhor ele
levar uma dzia de rosas quando fosse ao apartamento de Jlia.
   ? O que voc acha, Michael? ? perguntou Sterling.
   ? Ahn, voc se importa de repetir essa ltima parte, Sterling? ? pediu Michael, voltando a si.
   ? Voc no ouviu uma palavra do que eu disse, ouviu? ? Sterling observou-o. ? Todo abalado por causa da sua briga
com Jlia, no ? timo! Tem que estar mesmo. Se voc a perder...
   ? Eu no vou perd-la, Sterling. ? Apesar de sua promessa categrica, Michael estava inundado de ansiedade. Jlia
eslava grvida! Michael afundou a cabea nas mos.
   ? Eu espero que voc no a perca, Mike. De qualquer forma, como eu disse antes, ficamos sabendo que Monica Malone
est comprando aes da empresa. Abocanhando-as, na verdade. Ns s no conseguimos entender por qu. O que voc
acha?
   ? Monica Malone? ? repetiu Michael. Ela fora a primeira estrela de Hollywood a endossar os cosmticos da Fortune
anos atrs. Todo mundo reconhecia que seu endosso ajudara a empresa a adquirir seu sucesso inicial. ? Ela sempre teve
algumas aes.
   A cabea de Michael j estava cheia de problemas. No conseguia se concentrar nos negcios. E o que mais precisava
naquele momento era o perdo de Jlia ? e seu amor. Ele transformaria em verdadeiro aquele falso noivado e providenciaria
um casamento rpido e discreto. No havia tempo a perder. Jlia ia ter um filho dele!
   Michael levantou-se.
   ? Sterling, tenho que sair.
   ? V atrs de Jlia. ? Sterling sorriu satisfeito. ? Rasteje se precisar, Mike. S no a deixe escapar.
   Michael sorriu com voracidade.
   ? No tenho a menor inteno de deix-la ir a lugar nenhum sem mim.
   Ele parou numa floricultura e comprou uma dzia de rosas vermelhas antes de se dirigir ao apartamento de Jlia. A
princpio, Michael no percebeu que o carrinho marrom dela no estava estacionado na frente do prdio. S depois de ter
batido na porta por algum tempo, admitiu que ela no estava l.

   Jlia estava dirigindo para o hospital. Precisava estar com a irm; no se sentia to s e desamparada desde a morte de sua
me.
   A mgoa de Jlia foi substituda por raiva. Michael pensara que ela tinha um amante. Chegara at a acus-la de planejar
prend-lo com o filho de outro homem! Jlia engoliu um soluo, sentindo a dor lacer-la novamente.
   Rajadas de neve cobriam seu pra-brisa, mas Jlia continuou dirigindo. O que iria fazer com um filho que Michael nem
mesmo acreditava ser seu? E claro que poderia recorrer aos testes de DNA, mas mesmo depois que a paternidade fosse
comprovada, a pobre criana continuaria no sendo desejada nem amada pelo pai. Os olhos de Jlia encheram-se de
lgrimas.
   Kia listara inmeras possibilidades que ela poderia considerar mas para Jlia s havia uma opo: ter o beb e ficar com
ele. Aquele beb era mais do que um erro de Michael Fortune; era seu filho. Parte dela. Uma imensa sensao de paz
envolveu-a.
   De repente, sentiu uma pontada de medo. Como iria sustentar um filho? Rapidamente, afastou a preocupao. Daria um
jeito, assim como dera um jeito de pagar pelo tratamento de Joanna.
   Passando pelos portes do centro de reabilitao, Jlia sentiu-se tomada de fora e determinao.

   Michael estava sentado dentro do carro quando Kia finalmente chegou ao prdio. Ele correu para cumpriment-la.
   ? Jlia no est aqui. Voc tem alguma idia de onde ela possa estar?
   Kia olhou-o friamente.
   ? O que est acontecendo, Sr. Riquinho? Como se eu no pudesse adivinhar...
   Ele engoliu em seco.
   ? Voc sabe ? disse em voz baixa ?  sobre o... o beb.
   ? Voc acabou de descobrir e foi um completo filho-da-me com ela, no foi? ? Kia fitou-o furiosa. ? Pobre Jlia. Ela
no precisava disso. E certamente no merece um tipo como voc!
   Michael no disse nada. Ele merecia ouvir aquela bronca, e coisas muito piores. E o pior ainda estava por vir, quando Kia
revelou-lhe o mistrio envolvendo os fins de semana de Jlia. Kia contou a Michael tudo sobre Joanna e o acidente, sobre a
reabilitao e os custos exorbitantes com os quais Jlia tinha que arcar.
   ? Joanna  a nica razo de Jlia ter concordado com seu plano idiota. Aquele bnus que voc pagou ajudou muito,
embora suas insinuaes de que ela era gananciosa e praticamente uma prostituta tenham arruinado grande parte do alvio
que ela sentiu.
   ? Por que ela no me contou? ? Michael estava chocado.
   ? Por que voc no perguntou? ? reagiu Kia.
   Por que no, perguntou-se Michael. Porque achava que ela estava jogando um joguinho e queria frustrar os planos dela. E
ele acusara Jlia de ser manipuladora! Era ele quem ficava inventando estratgias e tticas de contra-ataque como um louco.
   ? Kia, eu fiz tudo errado ? disse ele.
   ? Fez mesmo! ? Kia no tinha a menor inteno de aliviar a barra dele. Mas permitiu que ele entrasse no apartamento,
onde encontraram o bilhete que Jlia deixara. ? Ela est no hospital, visitando a Joanna ? anunciou Kia. -Voc vai atrs
dela ou vai correr de volta para o seu confortvel apartamento para ficar choramingando porque o mundo est sendo injusto
com voc?
   ? Chega de joguinhos ? prometeu Michael. ? Eu vou atrs dela.
   ? No vai ser fcil, voc sabe ? gritou-lhe Kia enquanto ele corria para o carro. ? Voc no vai poder abanar o talo de
cheques e pagar para sair desta encrenca. ? Ela parecia divertir-se com a idia.
   Mais de uma hora depois, Michael chegou ao hospital e a recepcionista indicou-lhe o quarto de Joanna.
   Seu corao parecia estar preso na garganta e seu pulso disparava enquanto se aproximava do quarto... que estava vazio!
   ? Joanna est no auditrio, ensaiando a apresentao de fim de ano ? informou-lhe uma enfermeira, indicando a direo
do auditrio.
   Jlia estava sentada no auditrio, observando Joanna e alguns outros pacientes no palco. Este era o primeiro ensaio da
apresentao de fim de ano, e Joanna se oferecera para tocar os sinos. Os olhos de Jlia encheram-se de lgrimas. Conseguir
tocar sinos j era um enorme avano para Joanna. Mas Jlia no conseguiu afastar a imagem que se formou em sua mente, de
Joanna antes do acidente, sentada ao piano, tocando sem grande esforo um vasto repertrio de msicas natalinas.
   Michael estava parado no fundo do auditrio e no fez nenhum movimento para se aproximar de Jlia. Sabia que no era
o momento adequado, ento permaneceu escondido, observando.

   Quando Jlia se despediu de Joanna, a neve comeara a cair com fora ainda maior. As luzes do estacionamento
iluminavam os grandes flocos enquanto ela caminhava, cansada, para o carro. As horas com Joanna fizeram com que ela
esquecesse temporariamente seus problemas com os Fortune, mas eles agora voltavam  sua cabea com fora total. O que
iria fazer? Nem sequer sabia se ainda teria emprego no dia seguinte. O otimismo que sentira antes agora lhe parecia ingnuo.
Como poderia sustentar Joanna e o beb quando...
   ? Jlia!
   O som de seu nome sendo chamado fez com que parasse. Reconhecera a voz de Michael e, por um momento, perguntou-
se se, alm de tudo, agora dera para ter alucinaes tambm.
   ? Jlia, espere.
   Ela virou-se e viu Michael correndo em sua direo. Uma mistura de amor e dio deixou-a completamente desorientada.
Queria correr at ele e dar-lhe um soco na cara; queria jogar-se em seus braos e implorar para que ele a amasse tanto quanto
ela o amava. Sendo Jlia, no agiu por impulso. Ficou parada esperando que ela a alcanasse.
   ? Querida, eu... ? comeou Michael.
   ? Querida? Voc deve ter me confundido com outra pessoa. Eu sou uma manipuladora imoral que tentou empurrar o
filho do meu amante secreto para voc.
   Michael estava profundamente envergonhado.
   ? Jlia, eu queria lhe dizer o quanto estou arrependido.
   ? Poupe-me, Michael. Eu no quero ouvir. ? Ela virou-se e ps-se a andar em direo ao carro.
   Andando ao lado dela, Michael continuou:
   ? Eu no espero que voc me perdoe facilmente, Jlia. As coisas que eu disse foram horrveis. Voc  uma santa e eu
mereo levar um tiro por ter duvidado do seu carter.
   ? Voc realmente est disposto a ir at o final com isto, no est? Michael Fortune com uma crise de culpa  algo raro de
se ver. ? Jlia revirou os olhos.
   ? Eu te amo, Jlia. Eu sei que levei muito tempo para perceber e admitir, mas  verdade. Eu te amo e quero me casar
com voc, querida. Estou com o anel da minha av aqui e quero coloc-lo de volta no seu dedo. A partir deste momento,
nosso noivado  real. ? Abaixando a voz, acrescentou: ? To real quanto o nosso beb.
   Ele estava dizendo todas as palavras certas, mas elas pareciam no ter qualquer efeito sobre Jlia. Ela soltou um suspiro
profundo.
   ? Eu no quero o anel, Michael. No quero mais ser sua noiva, nem de mentira nem de verdade.
   ? Ento a gente no precisa ficar noivos, a gente se casa. Esta noite. A gente pega um avio para Las Vegas e...
   ? Casar numa daquelas capelas bregas que ficam abertas a noite toda com um ssia do Elvis como padre? No, obrigada.
   ? Tudo bem, ento a gente se casa num cartrio aqui em Minneapolis e depois faz a mais elegante cerimnia de
casamento que Brbara e Erica puderem planejar.
   ? Nunca. Eu sei o que voc acha do casamento.
   ? Voc est errada, Jlia. Quer dizer, eu estava errado, sobre o casamento e sobre muitas outras coisas. Por favor, me
deixe...
   ? Voc no espera que nenhum casamento dure. Prefere morrer do que se casar. Isso soa familiar? ? interps Jlia.
Chegando ao carro, ela enfiou a mo na bolsa, procurando a chave. ? O nosso casamento no teria a menor chance, ento
para que se incomodar? Estou cansada de encenaes e me recuso a participar de mais uma, especialmente de um falso
casamento feliz.
   ? No teria nada de falso no nosso casamento, Jlia. Ns vamos ser muito felizes e nosso casamento vai durar para
sempre. No pense nestes ltimos dias, aquilo foi uma infeliz aberrao e nunca mais vai acontecer. Pense apenas em como
foi durante a maior parte do nosso noivado e no quanto...
   ? Falso noivado ? corrigiu Jlia. ? Eu estou me lembrando de algumas coisas que voc parece ter esquecido. O fato de
que voc desconfiou o tempo todo de mim, por exemplo.
   ? No, no desconfiei! Eu admito que... disse algumas coisas...
   ? Mesmo que eu o perdoe pelas coisas que voc disse, o que provavelmente vai acontecer em algum momento, voc vai
desconfiar dos meus motivos para perdo-lo. Quem quer viver nesse tipo de clima? Alm do mais, tem o beb. Eu sei que
voc o v como mais uma criana trazida ao mundo por todos os motivos errados... ah, droga!
   Ela estava to irritada que deixou cair as chaves na neve. Michael inclinou-se para peg-las e colocou-as em seu bolso.
   ? Ns vamos para casa no meu carro. Amanh eu mando algum aqui pegar o seu.
   ? Eu vou com o meu carro. Me d as chaves, Michael!
   ? Sem chance, querida. Voc vai andar at o meu carro ou eu vou ter que carreg-la?
   Ela no iria se entregar assim to fcil. Jlia pulou em cima dele, tentando tirar as chaves do bolso de seu sobretudo.
Michael reagiu instantaneamente, colocando os braos em torno dela e segurando-a contra si.
   ? Me solta! ? exigiu Jlia, debatendo-se.
   ? No, nunca. No posso. ? Ele afundou o rosto no pescoo dela e inalou o cheiro doce e familiar de seu perfume. ?
Eu te amo, Jlia. Eu sei que s vezes sou um canalha. Sei que levei minha desconfiana e meu ceticismo longe demais.  por
isto que eu preciso tanto de voc. Com voc, tudo  diferente. Tudo  melhor. Nunca tinha me apaixonado de verdade at
conhecer voc.
   ? Se me amasse de verdade, no teria me acusado de...
   ? Amar  algo novo para mim, Jlia, e eu no podia confiar no que no entendia direito.
   ?  Mas agora voc viu a luz e acha que vamos viver felizes para sempre? ? Ela deu uma risada fria e desdenhosa que o
feriu profundamente.
   ? No deixe essa atitude ctica infect-la, Jlia. Eu sei que a magoei muito, mas no deixe que eu desvirtue seus ideais.
   Jlia segurou as lgrimas que enchiam-lhe os olhos.
   ? Pare de tentar me manipular, Michael.
   ? Eu sei, querida. Mas vou usar toda a munio que puder para ter voc de volta. Jlia, voc consegue... ? ele fez uma
pausa, lembrando-se do ttulo de um certo livro ? ... entender a personalidade limtrofe. Simplesmente me d a mesma
chance. Eu no sofro de personalidade limtrofe, mas preciso de voc desesperadamente. Por favor, no desista e me exclua
de vez da sua vida.
   Ela afastou-se um pouco para trs e levantou a cabea para encar-lo.
   ? Voc est forando a barra, Michael.
   ? Querida, eu ainda nem comecei.
   Entreolharam-se por um longo tempo, enquanto a neve caa ao seu redor.
   ? Deixe-me lev-la para casa, Jlia.
   Seu rosto tinha aquela expresso teimosa e determinada, que significa que ele no iria ceder, mesmo que tivessem que
ficar ali fora, sob uma nevasca, por horas. Jlia estava ficando com frio e molhada, alm de completamente fatigada. Sabia
que no tinha a fora de vontade ou a resistncia para ficar ali nem mais um minuto.
   ? Como sempre, eu estou cedendo a voc ? reclamou, deixando-se guiar at o carro dele. ? Michael Fortune sempre
consegue o que quer.
   ?  verdade ? concordou Michael. Sentiu-se mais tranqilo com o resmungo dela. Pelo menos aquela expresso de
mgoa estava desaparecendo lentamente do rosto de Jlia.
   Dirigiam em silncio. Jlia encostou a cabea no banco e fechou os olhos.
   ? Este dia parece ter mais de cem horas ? murmurou finalmente.
   ? Voc pode ir para a cama assim que chegarmos em casa ? disse Michael solcito.
   ? Eu vou para a minha prpria cama, no meu apartamento ? anunciou ela.
   ? No, querida. No vai.
   ? Michael, eu exijo...
   ? Voc disse que provavelmente me perdoaria em algum momento ? ele a interrompeu. ? E que eu desconfiaria dos
seus motivos para me perdoar. Quais seriam os seus verdadeiros motivos, Jlia?
   Ela cruzou os braos e franziu a testa.
   ? No importa.
   ? Voc vai me perdoar porque me ama?
   ? Mesmo que amasse, voc no acreditaria ? respondeu, lanando-lhe um olhar penetrante. ? Voc no acredita em
amor, assim como no acredita em casamento. Agora me leve para casa, Michael. Eu no quero nada de voc. Bem, exceto
talvez uma boa referncia quando estiver procurando emprego.
   Michael chegou a soltar uma risada.
   ? Desculpe, querida. Voc no vai trabalhar para ningum alm de mim. No vai namorar ningum alm de mim e no
vai noivar nem casar com ningum alm de mim. E ns vamos nos casar assim que possvel e vamos ter os filhos mais
amados e felizes de todo o planeta.
   ? Pra, Michael! ? Jlia comeou a chorar. ? Eu no consigo brigar com voc quando voc est sendo bonzinho
comigo.
   ? Eu quero passar o resto da vida sendo bonzinho com voc, Jlia. ? Esticando o brao, Michael tomou-lhe a mo. ? E
sinto muito por ter magoado voc, meu amor.
   ? Voc me acusou de ter um amante secreto. E eu nunca tive nenhum outro amante que no voc! ? Ela puxou um
leno esfarrapado da bolsa e assoou o nariz delicadamente. ? Voc no sabia disto, sabia, Michael? Eu era virgem na
primeira vez que a gente fez amor. Mas tenho certeza que voc no acredita em mim.
   ? Eu acredito ? disse ele calmamente. ? Mas queria que voc tivesse me dito antes.
   Jlia deu um sorrisinho.
   ? Tive medo que voc ficasse paralisado de horror. Eu sabia que se envolver com a virgem mais velha de Minneapolis
no era parte da sua lista de afazeres.
   ? Me envolver com voc foi a melhor coisa que eu j fiz. E pretendo continuar profundamente envolvido com voc pelo
resto de nossas vidas.
   Quando chegaram ao apartamento de Michael, a neve caa rpida e furiosamente.
   ? Independentemente de estar nevando ou no, amanh ns no vamos trabalhar ? observou Michael enquanto saam
do elevador. ? Vamos passar o dia na cama. Juntos.
   Ele ficou esperando que Jlia protestasse. Ela no disse uma palavra.
   ? Estou sendo submetido ao tratamento silencioso agora? ? perguntou, acompanhando-a para dentro da cobertura.
   ? Eu estava pensando em tudo o que voc disse. ? Jlia fitou-o ansiosamente.
   ? Tudo o que eu disse foi do fundo do corao, Jlia ? disse Michael, puxando-a para seus braos. ? Eu nunca vou
parar de provar a voc o quanto a amo. ? Ele a beijou com ternura.
   ? Eu te amo, Michael ? sussurrou Jlia quando ele levantou a boca para beijar-lhe o pescoo. ? H muito tempo, mas
nunca pensei que voc tambm me amasse.
   ? Como eu poderia no amar voc? Voc  tudo o que eu sempre quis.
   Michael a tomou nos braos, levou-a para o quarto e deitou-a suavemente na cama.
   ? Antes eu tenho que fazer uma ligao ? disse ele, pegando o telefone.
   Jlia apoiou-se em um cotovelo e observou-o.
   ? Sterling,  Michael. Eu quero que voc rasgue aquele contrato de falso noivado imediatamente. A partir deste
momento, ele est oficialmente anulado. E eu queria que voc soubesse que eu e Jlia vamos nos casar no civil esta semana.
? Ele inclinou-se e beijou a testa de sua noiva. ? No, no vai ter nenhum contrato de separao de bens, Sterling. No
precisa, porque este  um casamento que vai durar para sempre.
   Depois de desligar, Michael envolveu Jlia num forte abrao.
   ? Sem contrato de separao de bens? ? perguntou Jlia, olhando para ele com uma expresso nervosa. ? Michael,
voc vai se arrepender, tenho certeza. Eu... eu no posso me casar com voc sem um contrato de separao de bens. Ligue de
novo para Sterling e diga a ele que eu insisto em fazer um.
   ? Est com medo que eu queira tirar aquele seu carro de voc? ? riu Michael, empurrando-a contra o colcho. ?
Desculpe, querida. Sem contrato. Voc vai ter que acreditar no nosso casamento tanto quanto eu.
   Ela colocou os braos em tomo do pescoo dele.
   ? Michael, eu no quero que nada fique entre ns. No quero que haja nenhuma suspeita sobre motivos e dinheiro e... e
quando sua me quiser saber do nosso contrato pr-nupcial, eu no quero estar por perto se no houver nenhum contrato.
   ? Conhecendo a minha me, ela vai ficar impressionada com a sua esperteza. Esteja preparada para receber mais elogios
da Sheila, Julie.
   ? S voc acha isto engraado. ? As mos de Jlia deslizaram pela pele macia das costas dele. Um intenso calor
percorreu-lhe o corpo. Estava to apaixonada que no conseguira demorar muito a perdo-lo. Michael dera os primeiros
passos, abandonando sua atitude ctica e desconfiada, e ela no tinha dvidas de que ele continuaria fazendo os ajustes
necessrios. Ele a amava e sempre amaria.
   Jlia e Michael iniciaram uma celebrao apaixonada de sua primeira noite como noivos de verdade.


   Eplogo

   ? Ela finalmente aceitou se casar sem um contrato de separao de bens. ? Sterling Foster encheu a taa de Kate
Fortune e a sua, e ambos fizeram um brinde silencioso aos recm-casados. ? Quem diria. Jlia insistiu no contrato at o
ltimo minuto, enquanto Michael se ops com a mesma determinao.
   ? Michael est apaixonado, e isto muda tudo ? interrompeu Kate. ? Vamos apagar aquele contrato horrvel da
memria. Eles j apagaram. Estou to feliz por eles, Sterling. Gostaria de poder ter ido ao casamento.
   ? Foi uma cerimnia estritamente privada: s eles dois, duas testemunhas e um padre. Do jeito que eles queriam.
   ? No posso culp-los. S imagino o que aquela louca da Sheila teria feito se a Brbara e o Nate tivessem tentado dar
uma super festa para eles. Mas talvez a magia inspirada por um casamento romntico poderia ter ajudado Jake e Erica a
repensar essa separao deles.
   ? Magia de casamento? No para Jake e para Erica ? disse Sterling, fazendo uma careta. ? Talvez magia negra
funcionasse. Os dois andam to diferentes que parece que esto possudos.
   ? Falando em possesso, estou bastante preocupada com aquela Monica Malone. Ela est comprando todas as aes da
empresa, Sterling!
   ? Vrias coisas no esto se encaixando, Kate. E  por isto que voc tem que continuar morta por mais algum tempo.
   ? Eu no queria perder o Natal com a famlia ? disse Kate, lamentando-se.
   ? Vamos ter que providenciar uma visita secreta para voc ? disse Sterling sorrindo. ? Se Papai Noel pode entrar e
sair das casas sem ser visto, Kate Fortune tambm pode. Eu s no sei se todo mundo vai estar aqui no Natal. Rocky tinha
quase certeza de que ia ficar em Wyoming. Ela est muito ocupada com a empresa de busca e resgate. Voc acertou na
mosca em ter deixado os avies e helicpteros para ela, Kate.
   ? Rocky herdou meu esprito de aventura. ? Kate parecia bastante contente. ? Eu conheo bem a minha famlia,
Sterling. Eu acertei na mosca em todos os presentes que deixei. Aquele anel de rubi que dei ao Michael foi um lance
brilhante, no foi?
   ? Brilhante! ? concordou Sterling. ? Absolutamente brilhante!

   FIM
Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
